Foto: Pablo Grotto
Em A Nobreza do Amor, Marta passou mais de cem capítulos observando. Dentro de uma casa impecável, cercada pelos códigos de uma família tradicional e privilegiada dos anos 1920, a personagem interpretada por Emanuelle Araujo construiu sua presença muito mais pelo que percebia do que pelo que dizia. Agora, quando as certezas que sustentavam aquela família começam a desmoronar, tudo aquilo que permaneceu contido encontra espaço para vir à superfície.
E é esse percurso que interessa a Emanuelle. Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, a atriz conta que depois de um período afastada das novelas, encontrou na obra escrita por Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr. razões que surgiram antes mesmo de conhecer profundamente Marta. A proposta de aproximar a herança africana do Nordeste brasileiro foi determinante para que ela se interessasse pela história.
“Uma das coisas que mais amo em ser atriz, em atuar, é contar história. Já sou muito fã desses três autores e tenho relação com os três de formas individuais. Acho uma tríade, uma junção maravilhosa. Quando entendi do que a novela se tratava, isso já me interessou antes mesmo da sinopse da Marta, porque acho que falar sobre a nossa herança africana no Brasil e reverenciar isso já é uma história muito importante para uma novela da TV aberta, da TV Globo”.
A identificação aumentou quando percebeu o encontro dessa ancestralidade com outro território que também lhe pertence: “Quando entendi a junção com o Nordeste, tocou numa parte muito importante e básica minha de mulher nordestina. Unir essas duas culturas, africana e nordestina, me fez intuir que seria um grandíssimo trabalho desses três autores. Quando recebi a Marta, me apaixonei perdidamente”.
Uma mulher dos anos 1920 que não cabe completamente em seu tempo

Emanuelle encontrou na personagem uma mulher submetida às convenções de sua época, mas que nunca foi construída apenas pela submissão. Desde os primeiros capítulos, Marta demonstra cultura, inteligência e percepção aguçada sobre aquilo que acontece ao seu redor.
“Percebi de cara, entendendo um pouco do início do caminho dela, um feminino muito pulsante, que representa uma época dos anos 1920, uma limitação da mulher naquele tempo, porém existe o feminino pulsante, selvagem, que existe desde que o mundo é mundo. Mesmo com todas as normas impostas ou com as culturas de cada geração ou época, a potência feminina sempre existiu. Se formos para 1800, 1700, vamos ter histórias de grandes mulheres. Antes de Cristo, temos histórias de grandes mulheres. Acho que esse pulsar feminino existe independentemente da época”.
É esse movimento interno que a atriz enxerga em Marta: “Percebi que essa mulher tinha isso, inclusive no início da história, ainda muito interiormente. Com tantos conflitos ao redor, tantas coisas acontecendo, ela tinha firmeza dentro da personalidade, uma dedicação àquela família, ao marido, às filhas, ao jeito de se portar na sociedade e até à forma de se colorir, de se enfeitar, de se vestir. Ela já demonstra um desejo de ser uma mulher à frente do seu tempo, de ter algo além daquilo que estava comumente traçado para o feminino”.
Emanuelle sabia desde o início que haveria transformação importante na trajetória da personagem. Agora que a novela entra nesta etapa, a atriz celebra a possibilidade de colocar para fora aquilo que passou meses construindo internamente: “Estou muito feliz que esse momento chegou, apesar de gostar muito de tudo que construímos até aqui. Acho que Marta tem importância grande nesse pulsar interno e agora é hora de explodir”.
Figurino, caracterização e um “olhar de lince”
A construção não nasceu apenas do texto. Emanuelle descreve seu processo como um “caldeirão” formado pelas informações recebidas da dramaturgia, direção, figurino, caracterização, parceiros de cena e pela própria intuição.
“Meu trabalho parte muito da observação e de abrir o canal para as informações que recebo por todos os lados. Quando começamos, temos um texto, uma história e uma direção para aquela história. Só que eu trabalho muito a partir do figurino, da caracterização. Vou colhendo informações e faço isso de forma silenciosa. Vou abrindo minha intuição para colocar o personagem primeiro construído como um caldeirão, onde uno os ingredientes que observo e recebo, além daqueles que vão surgindo dentro de mim”.
A parceria com o figurino foi fundamental para compreender que a elegância de Marta não deveria funcionar apenas como ornamentação de época. As roupas ajudaram a revelar uma mulher interessada pelas transformações culturais que aconteciam ao seu redor: “Quando você coloca um figurino, chega a uma prova, pensa numa caracterização, as peças vão se juntando. Meu quebra-cabeça começa a se formar. Desde o primeiro momento, a figurinista me trouxe essa ideia de uma mulher que tem essa visão da moda de uma época em que barreiras estavam sendo rompidas. Aquilo já me estimulou”.
As referências ao modernismo presentes no próprio texto também alimentaram essa construção: “Ela está absolutamente formatada numa família tradicional brasileira, inclusive rica, de privilégios. Porém, me foi apresentada uma mulher com nuances modernistas. Estamos no momento da Semana de Arte Moderna, absolutamente revolucionária para a arte. Isso está um pouco na construção dos autores. Ela cita Oswald de Andrade, Mário de Andrade. Pensei: é uma mulher que tem cultura e, principalmente, inteligência”.
E foi essa inteligência que se tornou uma das principais chaves de interpretação: “Esse foi meu ponto de partida: ela não é boba. Pode estar se colocando como uma mulher silenciosa, observadora, mas o olhar dela é de lince. Ela sabe tudo que está acontecendo e faz escolhas. ‘Eu não vou gritar porque, se gritar, vou destruir uma coisa que não quero destruir agora.’ Isso gerou um pulsar interno muito gostoso de fazer”.
O silêncio também é uma escolha

A contenção de Marta contrasta diretamente com a personalidade de Emanuelle:“Sou uma mulher que me expresso. É característica minha falar as coisas na vida íntima, pessoal e profissional. E Marta tem toda essa contenção pautada numa inteligência, numa visão. Não é falta de cultura ou de entendimento, mas uma polidez e também imposição social e familiar de manter a família unida, de manter as coisas organizadas. Aquela mesa é sempre muito bem posta, aquela casa é impecável, aquele cabelo tem todas as curvas”.
A relação com Virgínia, vivida por Theresa Fonseca, também se tornou fundamental para revelar contradições da personagem. Emanuelle percebeu que, apesar de condenar muitas atitudes da filha, Marta também reconhece nela uma liberdade que não pôde experimentar.
“A impetuosidade da Theresa, essa atriz maravilhosa, minha filha, vai me preenchendo. Criei na minha cabeça que, para Marta, aquela menina impetuosa dá certo prazer. Ela tem coragem de fazer coisas que Marta muitas vezes não tem. Por que ela não barra essa menina em algum lugar? Existe um prazer porque ela é uma mulher que está fazendo coisas horrorosas, e aí existe uma questão de caráter, que é um grande contraponto. Mas ela está ali tendo duas filhas, Virgínia e Aurelinda, como duas mulheres impetuosas. Em algum lugar, isso dá prazer nela: ‘Que elas tenham isso que eu não consegui ter até então’.”
A “conta psicológica” de uma novela
Para sustentar essas nuances em uma produção gravada fora da ordem cronológica, Emanuelle criou aquilo que chama de sua “conta psicológica”: “As palavras estão no texto, mas existe uma linha psicológica. Eu faço como se fosse uma continha psicológica. Isso é muito importante para mim, ainda mais numa novela em que gravamos tudo tão picotado, em tempos diferentes, com uma demanda enorme. O que me firma é essa conta. Mais até do que decorar. Claro que decoro e as palavras são as que estão escritas, mas fico mais atenta à minha conta psicológica”.
Cada reação precisa carregar aquilo que Marta viveu anteriormente e, ao mesmo tempo, permitir que a trajetória continue fazendo sentido: “O texto me dá dicas de quem é essa mulher. Vou cada vez mais entendendo: ‘Ah, então ela vai fazer isso. Nossa, então ela é assim’. O texto vai trazendo as características e vou unindo isso à minha intuição e, com certeza, ao meu desejo da mulher que quero imprimir”.
Por isso, mesmo diante de situações nas quais seria esperado um confronto, Emanuelle procura outras possibilidades: “Talvez, para algumas pessoas, o legal seria ela fazer um barraco. Mas onde existe a inteligência em silenciar e sair? Me interessa construir algo que não seja exatamente o óbvio, porém que seja largo em termos de mistério e entendimento”.
Para ela, essa liberdade é uma das particularidades de trabalhar com novela: “É um trabalho muito em conjunto. Nossa direção é primorosa e muito atenta. A direção me indica coisas também. Porém, acho que, principalmente na novela, a intuição e o mergulho do ator fazem muito parte da construção por ser uma obra aberta. Às vezes colocamos uma coisa numa cena que é nossa intuição e isso acaba refletindo vinte capítulos depois. É uma delícia quando você começa a conduzir um personagem pela sua intuição e pelo seu desejo”.
A descoberta que fará o mundo de Marta desmoronar

Emanuelle sabia desde o início que existiria uma crise no casamento de Marta e Diógenes (Danton Mello), provocada por traição e pela possibilidade de existir um filho fora daquela relação. Mesmo assim, preferiu não antecipar emocionalmente aquilo que a personagem ainda não conhecia.
“Numa novela, diferente de um filme ou de uma série em que a obra está fechada, é importante entender o que está sendo previsto, até porque você entende quem é aquela pessoa. ‘Ah, então essa família é perfeita, mas não é’. É bom ter esse sinal”.
Sua prioridade, entretanto, permaneceu no presente de Marta: “Me pauto muito no agora. Para mim é muito importante construir o momento porque isso dá potência. Começar uma história já pensando no que vai acontecer 50, 60, 80 capítulos depois enfraquece aquilo que você está fazendo ali. Para mim, cada cena é importante, cada minuto, mesmo que seja uma cena de silêncio, mesmo que seja uma cena em que eu não tenha uma palavra no texto”.
Sobre aquilo que acontecerá quando Marta finalmente for confrontada com a verdade, Emanuelle evita antecipações. Mas revela o impacto que os próximos acontecimentos tiveram nela própria: “Qualquer coisa que eu fale vai ser um spoiler absurdo porque esse momento da história é muito peculiar. Foi surpreendente para mim em alguns pedaços. O que posso dizer é que estou muito orgulhosa dela. Eu me comovi. Me emocionei lendo. A Marta me ensina. Pensei: ‘Caraca, ela vai ter essa atitude?’. Ela me comove”.
O motivo está naquela característica trabalhada desde o início: “Ela consegue ter uma visão do todo, do coletivo, da situação, de prestar atenção em todas as arestas. Isso é muito legal porque conecta com tudo que construí antes. É uma mulher que está com olho de águia, prestando atenção em tudo”.
“Ela me ensinou sobre silêncio”

Depois de mais de uma centena de capítulos, personagem e intérprete também começaram a se encontrar fora das cenas: “Ela me ensinou muita coisa. Primeiro, me ensinou sobre silêncio. Me ensinou sobre elegância, porém uma elegância que, para mim, não fica só no aspecto estético. Lógico que ela tem uma elegância primorosa esteticamente, mas acho que essa elegância estética reflete uma elegância interna de ouvir e prestar atenção antes de se expressar”.
Emanuelle percebeu que algo dessa energia começou a acompanhá-la durante o trabalho: “Tenho essa característica como atriz: trago um pouco do meu personagem para o set, para a convivência. Não é nenhuma regra, às vezes acontece quase naturalmente. Em alguns momentos desse trabalho, me senti contaminada pela energia da Marta. Me senti mais silenciosa, mais elegante, mais preservada num lugar da observação”.
Até que percebeu claramente a presença dessa transformação: “Um dia me peguei assim e falei: ‘Olha isso. Não é meu. Santa Marta!’. Eu estava, de alguma forma, contaminada por ela. Não é nenhum exercício de estar no personagem, é sobre se contaminar mesmo com essa energia. No caso dela, essa observação me ensina e me ajuda”.
Isso não significa concordar com todas as escolhas da personagem: “Tem várias coisas das quais, pela minha personalidade, discordo e talvez fizesse diferente. Isso também me ajuda porque essa dicotomia interna traz vida para o meu corpo, traz potência para minha vivência sobre ela”.
O privilégio não protege Marta
Ao discutir as contradições de Marta, Emanuelle toca em outra camada importante de A Nobreza do Amor. A personagem pode ser inteligente, culta e demonstrar um senso de justiça maior que outros integrantes da própria família, mas continua protegida por uma estrutura privilegiada.
“Essa novela tem a característica de falar sobre assuntos delicados da nossa sociedade, do nosso entendimento de relação, de justiça social. Acho que reflete muito o que é nossa sociedade independentemente da época. Estou aqui fazendo elogios enormes à personalidade da Marta, mas ela é uma mulher extremamente sentada nos seus privilégios”.
A atriz não suaviza essa contradição: “Ela pode ter esse alargamento de pensamento, de desejos. Tem um senso de justiça, fala coisas pertinentes, tem visão muito mais aberta do que Diógenes em vários momentos, na defesa da Lúcia e na percepção das injustiças que a filha comete. Mas ela não faz nada. Ela está ali sentadinha na sua mesa bem posta e na sua taça de cristal francês”.
Para Emanuelle, está aí uma das provocações da personagem: “Privilégio não a protege de nada. O mundo dela vai cair. E justamente onde ela se pauta, onde se segura, que é ter um bom casamento e uma família unida, ela vai levar uma rasteira e vai tudo por água abaixo. Acho que esse é um retrato de muitas famílias, de muitas realidades do nosso Brasil”.
O que interessa, então, não é apenas a revelação, mas aquilo que Marta fará quando a estrutura que passou a vida inteira preservando deixar de existir: “É aí que vem a inteligência dos autores e da direção: como isso vai impactar, como ela vai agir depois disso, como a família vai ser impactada”.
Marta percebe aquilo que os outros não veem
Essa inteligência emocional também atravessa a relação de Marta com Lúcia (Duda Santos) e Vera/Niara (Erika Januza). Mesmo sem conhecer inicialmente suas verdadeiras identidades, a personagem percebe nelas algo que ultrapassa a posição social que ocupam em Barro Preto: “Vejo que Marta tem inteligência de perceber que elas são uma princesa e uma rainha em algum lugar. Ela tem essa perspicácia. Trata Lúcia e Vera de um jeito muito diferente porque percebe essa aura. Mas não começou a trama assim. Começou chamando Lúcia para trabalhar na casa dela. Depois da resposta da Lúcia, ela percebeu aquela mulher”.
Emanuelle brinca que Marta parece possuir uma espécie de “terceiro olho”: “Ela tem essa inteligência emocional e talvez até intuitiva. Em algumas cenas, o que me ajudou foi exatamente colocar Marta nessa decepção de perceber que a filha não é princesa e que Lúcia é muito mais princesa do que ela. Isso me ajudou no silêncio de algumas cenas”.
Depois do confronto em que Lúcia responsabiliza também os pais pelo comportamento de Virgínia, alguma coisa muda: “A partir dali, a relação com Virgínia mudou, mesmo em pequenas cenas. Marta não é a mesma depois daquele dia. Ainda existe um desespero interno, que vem com todo o elitismo, de ‘precisa dar certo, precisa dar certo. Vou ter que achar outra forma, outro jeito dessa casa funcionar, dessa mesa estar bem posta, desse vinho estar bem servido e dessa menina não surtar’.”
E então Emanuelle sintetiza por que se afeiçoou tanto à personagem: “É nesses lugares que ela me comove. Sinto Marta equilibrando vários pratinhos. E que bom que tudo vai cair por terra”.
Atriz e cantora dentro da mesma artista
Se Marta atravessou Emanuelle durante o último ano, a atriz também viveu simultaneamente outro movimento artístico importante. Música e interpretação nunca foram, para ela, universos completamente separados: “Em termos de manufatura, de trabalho, de processo, é uma coisa só”.
A coincidência entre A Nobreza do Amor e seu novo trabalho musical acabou estabelecendo conexões ainda mais profundas com sua própria trajetória. Antes da novela, Emanuelle viveu Clara Nunes no teatro, experiência que considera uma das maiores de sua vida.
“Clara foi uma mulher que começou e foi precursora da referência à nossa cultura afro-brasileira. Colocou na palavra, na música e nos seus álbuns a nossa cultura. Era uma pesquisadora. Colocou na televisão suas indumentárias africanas e isso como protagonista do trabalho, com samba, rendas, colares e uma pesquisa profunda sobre África”.
Da experiência com Clara, Emanuelle chegou a uma novela que também reverencia a herança africana e, paralelamente, a um disco que retorna às próprias raízes: “Saio desse trabalho e recebo o convite para uma novela que é um caldeirão do nosso ouro africano, da nossa herança africana, uma reverência a tudo isso que é nosso também. E o trabalho que faço na música é uma referência absoluta à minha essência artística, que começou na Bahia totalmente mergulhada nos ritmos afro-baianos”.
É uma memória que remonta à infância: “Esse trabalho reverencia os ritmos, os tambores que me fizeram querer ser artista. Essa é minha formação artística, desde o grupo em que comecei aos 10 anos, depois a Banda Eva, cantando em trio elétrico. Esse álbum reverencia minha trajetória. Então está tudo ali. Não tem como separar”.
Profissionalmente, entretanto, Emanuelle aprendeu a aceitar o tempo de cada trabalho: “Já tive momentos em que sofri: ‘Poxa, não posso fazer aquele show’, ‘não vou poder fazer aquela novela porque topei essa turnê’. Hoje, não. Entendo: estou aqui, preciso viver aqui e vou viver com tudo daqui. Depois estarei lá para ver o que vai acontecer”.
Um disco que retorna ao começo

O novo álbum também realiza um desejo antigo. Depois de trabalhos coletivos como Moinho e Orquestra Imperial, Emanuelle consolidou uma discografia solo que enxerga como pesquisa sobre sua própria formação artística: “Meu trabalho solo é quase um trabalho de pesquisa. Comecei com O Problema e a Velocidade, meu primeiro disco solo, que fiz aos 40 anos, tarde diante de uma carreira que começou aos 15. Foi um momento em que quis fazer um trabalho sozinha”.
Depois veio um projeto dedicado a Jards Macalé, a quem define como mestre e pai intelectual e musical: “É o cara que muito cedo me ensinou sobre ser artista, sobre ser pessoa, sobre fazer o que eu quero, ter coragem de fazer o que eu quero”.
Agora, o terceiro trabalho completa, para ela, uma espécie de trilogia: “Esse disco é a reverência absoluta às minhas raízes, onde tudo aconteceu. Onde falei um dia: ‘Quero subir num palco e fazer alguma coisa’. Foi dentro da música baiana, dos tambores, do samba-reggae, dos blocos afros. Falo dos outros dois porque sinto que esses três são uma trilogia, três discos de pesquisa”.
O projeto levou dois anos para ser concluído e nasceu de pesquisa, composição e da busca por uma sonoridade específica: “É um álbum super dançante, um álbum de festa, absolutamente pautado na pesquisa”.
Depois da novela, Emanuelle pretende ampliar a vida desse trabalho nos palcos: “Lançar esse trabalho tem importância imensa para mim. Mesmo na correria da novela, fiz dois shows, foram lindos e muito importantes. Agora, acabando a novela, finalmente quero levar para a Bahia, para o Nordeste, porque é uma homenagem à minha terra, e também para outros lugares. É um trabalho de muito afeto. Parte muito do meu afeto e da minha essência mais primitiva”.
“Eu só estou começando”
Depois de novelas, séries, cinema, teatro e música, Emanuelle não fala sobre a própria trajetória como alguém interessada em contabilizar aquilo que já realizou. Quando provocada sobre o que ainda falta fazer, a resposta vem imediatamente: “Eu só estou começando”.
Aos personagens que ainda virão, ela estabelece praticamente uma condição: que tragam boas histórias e algum risco: “Tem um monte de coisa que ainda tenho desejo e quero fazer. Sou instigada sempre por uma boa história e confesso que adoro aquilo que desafia meus medos. Claro que todo mundo tem seus medos e eles não precisam ser grandes. Inclusive, precisamos prestar atenção nos pequenos medos. Quando penso: ‘Meu Deus, como vai ser fazer isso?’, sou capaz de aceitar”.
É por isso que, depois de tantas personagens, ela ainda fale sobre o futuro como começo: “É muito bom poder alargar nossa existência com a nossa arte. Diante disso, ainda tenho muito que alargar da minha existência. Espero que apareçam personagens cada vez mais desafiadores. E o legal de irmos passando de fase, indo para outra fase da vida, é que vêm personagens diferentes, mulheres com outra idade, outros conflitos e outras complexidades que vão alargando minha existência. Tenho ainda muita coisa para viver e muitos desafios. Acho que vou estar me jogando em alguns pela frente”.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
