Foto: Annelize Tozetto
Daphne Bozaski e Gabriela Medvedovsky se conheceram durante os testes de Malhação e construíram parceria que atravessou diferentes momentos da televisão. Agora, em Pergunte Alguma Coisa, as atrizes reencontram linguagem que exige outra relação com o corpo, a voz e o espaço. No palco de arena do Tucarena, em São Paulo, não existe câmera para escolher o enquadramento nem uma coxia para interromper a exposição. O público acompanha tudo de perto, enquanto as duas dão vida a uma história que utiliza a inteligência artificial para investigar aquilo que permanece profundamente humano.
Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Daphne e Gabriela falam sobre a redescoberta do teatro, a construção de uma parceria que começou ainda nos testes de Malhação e a maneira como o texto de Gustavo Pinheiro e a direção de Guilherme Gobbi transforma tecnologia, afeto e comportamento em experiência que provoca riso e reflexão. Em cartaz até outubro, o espetáculo também desperta nas atrizes o desejo de levar a montagem para outras cidades.
Uma parceria que começou nos testes de Malhação
O convite para Pergunte Alguma Coisa chegou enquanto as atrizes ainda estavam envolvidas nas gravações de Três Graças, no Rio de Janeiro. Gustavo Pinheiro começava a desenvolver o texto e pensava nas duas para a montagem. A primeira leitura, de aproximadamente 15 páginas, foi suficiente para despertar a curiosidade sobre o restante da história.
“Uma noite a gente se encontrou, leu as primeiras 10, 15 páginas e falou assim, cadê o resto? O que vai acontecer? O que vai acontecer? O que vai acontecer? A gente precisa saber. E a gente se encantou com a ideia.”
À medida que o texto avançava, também crescia a percepção sobre a profundidade das questões propostas. A parceria, no entanto, já vinha sendo construída havia anos. Daphne e Gabriela se conheceram na fase de testes de Malhação, passaram por um período de preparação e descobriram, principalmente durante as gravações, como trabalhar juntas diante das demandas de uma produção audiovisual.
O reencontro no teatro não representa apenas a continuidade dessa relação profissional. É também a oportunidade de experimentar uma forma diferente de presença cênica, na qual a intimidade construída ao longo dos anos precisa dialogar com novas exigências.
O corpo e a voz precisam redescobrir o palco

Depois de período de descanso entre o fim das gravações da novela e o início dos ensaios, as atrizes perceberam que precisariam readaptar ferramentas utilizadas na televisão. O trabalho diante das câmeras permite recursos como microfones, enquadramentos e ajustes de posição que modificam a maneira de interpretar. No teatro, especialmente em uma arena, a relação com o espaço exige outra consciência.
“Foi uma redescoberta desse corpo cênico pro palco e a voz também, porque na televisão a gente acaba usando outras ferramentas e elas modificam muito a maneira como a gente trabalha.”
A experiência também trouxe sensação de liberdade. Sem a necessidade de permanecer dentro de um enquadramento, Daphne e Gabriela passaram a explorar o espaço de maneira mais ampla, descobrindo possibilidades de movimentação que não faziam parte de sua rotina recente na televisão.
A preparação foi importante para recuperar essa relação com o palco, mas o desafio permanece vivo a cada apresentação. A presença do público e as particularidades de cada sessão fazem com que o espetáculo continue oferecendo novas possibilidades às intérpretes.
A inteligência artificial é um caminho para falar sobre nós
Embora a inteligência artificial esteja no centro da premissa de Pergunte Alguma Coisa, as atrizes identificam nas relações humanas o principal interesse da dramaturgia. A tecnologia funciona como instrumento para discutir comportamento, inseguranças, desejos e a maneira como as pessoas se relacionam consigo mesmas e com os outros.
“A gente usa a tecnologia só para falar sobre nós, só para falar sobre as reflexões que a gente tem sobre o nosso comportamento, sobre as nossas relações interpessoais, as nossas relações com nós mesmos.”
Essa abordagem permite que o espetáculo dialogue com questões contemporâneas sem se limitar a discussão sobre o futuro das máquinas. O texto de Gustavo Pinheiro e a direção de Guilherme Gobbi utiliza o humor para aproximar o público de assuntos complexos, criando situações em que o riso pode dar lugar ao desconforto ou à emoção.
As atrizes destacam que essa alternância também atravessa a experiência de quem está em cena. Determinados momentos continuam provocando reações pessoais mesmo depois de várias apresentações, fazendo com que a peça permaneça aberta a novas descobertas: “O texto é muito popular, no melhor sentido da palavra, porque chega em todo mundo, não tem distinção e propõe essas discussões de maneira muito divertida.”
Para as atrizes, a capacidade de alcançar diferentes públicos é uma das forças da montagem. A peça pode provocar espectadores mais jovens e mais velhos porque, antes de discutir tecnologia, coloca em cena experiências reconhecíveis da vida humana.
No Tucarena, o palco também é personagem

A montagem marca a primeira experiência das duas atrizes em um teatro de arena. A disposição do público em 360 graus modifica a relação com a cena e impede que exista uma única direção privilegiada para a atuação. Em vez de representar insegurança, o formato se tornou uma das características que mais as entusiasma: “Estamos apaixonadas pelo Teatro de Arena. Vai ser difícil sair daqui.”
A ausência de coxia também transforma a dinâmica da apresentação. Não existe um espaço convencional para deixar a cena, descansar por alguns instantes ou interromper completamente a exposição. As atrizes permanecem integradas ao ambiente, e essa continuidade contribui para a imersão proposta pelo espetáculo.
“O palco faz parte, é o personagem também, a luz também é outro personagem. É uma imersão porque quando você faz uma outra peça, você sai, você dá uma desligada, você fala, ai, agora eu tô na coxia. Aqui não tem coxia, né?”
A proximidade com os espectadores permite observar reações e perceber como cada plateia responde às situações. Para as intérpretes, essa troca não trouxe medo, mas ampliou o prazer de estar em cena. Como a montagem foi concebida diretamente para a arena, elas não precisaram adaptar uma encenação anterior para o novo espaço.
O desejo de levar Pergunte Alguma Coisa para outras cidades já faz parte dos planos das atrizes. Ao mesmo tempo, a possibilidade de apresentar o espetáculo em um palco italiano exigiria uma adaptação de linguagem que se tornou fundamental para a experiência atual, mas não torna a ideia impossível.
Da televisão ao teatro, uma nova forma de encontro
A passagem de Daphne e Gabriela por Três Graças ainda reverbera no contato com o público. Mesmo depois do encerramento das gravações, as atrizes continuam sendo reconhecidas pelas personagens e recebendo comentários sobre o trabalho. A preparação intensa para Pergunte Alguma Coisa, no entanto, ajudou a deslocar a atenção para nova experiência artística.
O teatro também oferece a possibilidade de aproximar espectadores que conhecem as duas pela televisão de uma linguagem que nem sempre faz parte de seus hábitos culturais. Levar esse público ao palco é um dos desejos associados à circulação futura da montagem.
A parceria que começou há anos encontra, assim, outra forma de continuidade. Depois de compartilharem diferentes experiências diante das câmeras, Daphne e Gabriela agora dividem espaço em que o público está ao redor, a cena acontece sem cortes e a relação entre as intérpretes precisa se renovar a cada apresentação.
Em Pergunte Alguma Coisa, a tecnologia provoca perguntas sobre o comportamento humano. Fora da ficção, a experiência das atrizes também passa por uma redescoberta: a de continuar aprendendo uma com a outra, agora diante de uma plateia que participa de perto desse encontro.
Pergunte Alguma Coisa está em cartaz no Teatro Tucarena, em São Paulo, até outubro.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
