Há personagens que entram numa novela pela porta lateral e, sem alarde, acabam encontrando um espaço impossível de ignorar. Em Três Graças, Cláudia surgiu assim. A cuidadora silenciosa que caminhava pelos corredores da mansão de Arminda parecia existir apenas ao redor dos grandes conflitos da trama. Mas, aos poucos, a personagem começou a revelar outra camada e junto dela, o público também passou a descobrir a atriz por trás daquele olhar atento, das pausas calculadas e dos sustos que viralizaram nas redes sociais.
Em conversa com a coluna Cena Aberta, do Pittaplay, Lorrana Mousinho falou sobre a ascensão de Cláudia em Três Graças, o impacto de estrear em uma novela das nove aos 34 anos, o medo de “ser uma azeitona num lugar gigantesco”, a construção meticulosa da personagem e o processo de validação artística que a novela trouxe para sua vida.
A menina tímida que encontrou voz no teatro

Antes de se entender atriz, Lorrana se reconhecia como criança tímida. Mas uma timidez atravessada por outra energia, mais solar, quase inquieta: “Meu pai me revelou isso. Ele falou: ‘Nossa, minha filha, quando você era criança, você era totalmente diferente’. Tenho essa memória de ser introspectiva, mas também tenho relatos de ser muito pra fora, muito espiritada”, contou.
O teatro entrou cedo em sua vida, aos 10 anos, mas a decisão definitiva veio alguns anos depois, diante de uma cena de Celebridade, novela de Gilberto Braga, exibida originalmente em 2003 no horário nobre da Globo: “Foi vendo a Laura, da Cláudia Abreu, brigando com a personagem da Malu Mader no banheiro. Lembro exatamente da sensação. Pensei: ‘Cara, eu quero ser atriz’. Desde aquele momento, acabou. Virou isso”.
A sensação de ser pequena diante da televisão

A chegada em Três Graças carregava outro peso: dividir cena com nomes que ela cresceu vendo na televisão: “O primeiro choque não foi exatamente com os artistas. Foi com a fama. Existe uma mística muito grande em volta da TV. Tudo parece maior. Eu me sentia uma azeitona chegando num lugar gigantesco”, disse, rindo.
Ela lembra que a primeira leitura de núcleo trouxe impacto ainda maior ao perceber que dividiria espaço com Arlete Salles, Sophie Charlotte e Murilo Benício: “A gente cria coisa na cabeça, né? Parece que essas pessoas vivem em outro planeta. Depois você percebe que está todo mundo ali tentando fazer um bom trabalho”.
O que o público não sabia é que Cláudia quase morreu logo no início da novela. Literalmente. Lorrana revelou que recebeu a notícia ainda nas primeiras leituras: “Na primeira leitura de núcleo já me falaram que eu ia morrer. Eu pensei: ‘Puta merda’. Mal entrei na novela e já vou morrer”, brincou. “Só que aí as coisas foram mudando internamente. Depois, soube que pensaram em me matar outras vezes, mas acabaram me mantendo porque estavam gostando do meu trabalho”.
Cláudia nunca foi construída por acaso

A virada da personagem também já fazia parte da construção da atriz desde cedo. Quando Aguinaldo Silva a puxou durante uma leitura e revelou que Cláudia era uma espiã infiltrada dentro da mansão, Lorrana entendeu que precisava construir duas personagens ao mesmo tempo.
“Comecei a pensar em outras maneiras de construir porque sabia que ela teria uma virada. No início, ela precisava parecer mais augusta, mais desengonçada, mais medrosa. A casa da Arminda tinha um tom cômico e entendi que poderia ocupar esse espaço. Não queria disputar força com personagens que já tinham esse lugar muito bem estabelecido, ainda mais depois que ouvi do próprio Aguinaldo que a personagem iria ter certo destaque”.
A atriz conta que trabalhou cuidadosamente o corpo, os sustos, os movimentos e até a forma como Cláudia ocupava os ambientes: “Tudo foi planejado. Eu queria que percebessem esses detalhes. Ela levantava assustada, ficava descabelada, atrapalhada. E quando comecei a perceber que as pessoas estavam notando isso na internet, foi muito doido”.
Os vídeos da personagem viralizaram rapidamente. Os sustos de Cláudia passaram a circular nas redes sociais, viraram memes e chegaram até páginas de entretenimento e perfis populares: “Eu não tinha intimidade com rede social. A novela me obrigou a aprender. Uma aluna minha falou: ‘Lorrana, você precisa entrar no Twitter porque você tá bombando lá’. Fui ver e as pessoas estavam comentando detalhes que eu tinha planejado”.
A construção da personagem também passava por exercício quase obsessivo de escrita. Lorrana criou histórias, passados e possibilidades para preencher internamente a trajetória de Cláudia: “Escrevi e reescrevi a história dela muitas vezes. Criava possibilidades, mudava tudo conforme surgiam informações novas nos capítulos”.
Uma dessas hipóteses, inclusive, nunca foi confirmada na novela, mas permaneceu viva dentro da atriz: a possibilidade de Cláudia ser filha do pescador que salvou Rogério: “Isso me ajudou muito a construir ela como alguém ligada às classes populares, à natureza, à água, à terra. Me ajudou a encontrar a força dessa mulher”.
Quando questionada sobre o momento em que percebeu que o público realmente estava olhando para ela, a resposta veio rápida: “Foi a internet. Eu vi que os sustos da Cláudia estavam bombando. Depois começaram as mensagens, os comentários, as pessoas reparando nos detalhes”.
Quando o reconhecimento deixa de ser apenas fama

Mas o reconhecimento trouxe algo ainda mais profundo do que popularidade. Trouxe validação: “Participar dessa novela foi um processo muito grande de validação pra mim. Não por ser TV apenas, mas porque você finalmente sente que seu trabalho tem valor. Muito tempo à margem faz você questionar a própria trajetória. E Três Graças me devolveu autoestima como artista, como mulher, como pessoa”.
Além da televisão, Lorrana segue ligada ao teatro, espaço que define como sua verdadeira “praia”. Atualmente, ela circula pelo Sesc RJ com o espetáculo infantil Peixe Vermelho, criado ao lado da irmã, a atriz Raisa Mousinho e de Bruno Paiva. A peça nasceu durante a pandemia e discute a maneira como crianças e adultos lidam com a raiva.
“O teatro sempre abre espaço pra você existir como artista, mesmo quando o mercado não abre”, afirmou.
Ao longo da conversa, a atriz também refletiu sobre o que acredita ser essencial para um artista além do talento. “Estudo. E posicionamento político-social. Ator não pode ser alienado”.
Já sobre sucesso, a definição passou longe de números, fama ou status: “Hoje, sucesso pra mim tem relação com tranquilidade. Com você olhar pra sua vida e respirar. Ter uma casa que seja a sua cara, um amor saudável, trabalhar sem tantos perrengues, poder viver sua vida com mais paz”.
No fim da entrevista, Lorrana fez questão de deixar um agradecimento especial ao público que abraçou Cláudia nas redes sociais: “Eu esperava o pior da internet e encontrei o melhor. Recebo mensagens lindas todos os dias. Acho que muito do boom da personagem veio dessas pessoas que me acolheram, compartilharam cenas, impulsionaram meu trabalho espontaneamente. Então fica um agradecimento muito grande”.
