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Chegar ao centésimo capítulo significa muito para uma novela. É o momento em que conflitos amadureceram, personagens já estabeleceram vínculos com o público e histórias plantadas meses antes começam a encontrar consequências. Quem Ama Cuida chegou a essa marca movimentando sua trama, avançando a vingança de Adriana e ampliando diferentes conflitos, mas fez algo ainda maior: colocou diante do público da novela das nove o nascimento de um triângulo amoroso entre homens.
Mau Mau, Fernando ou Felipe poderiam ocupar individualmente o centro dessa análise, mas é a possibilidade de vê-los envolvidos em uma estrutura tão tradicional do melodrama que dimensiona o que Walcyr Carrasco e Claudia Souto estão construindo, porque o triângulo amoroso não é novidade alguma em novela. A novidade está em quem finalmente ganhou o direito de ocupá-lo.
A construção de Mau Mau, vivido por João Victor Gonçalves, preparou cuidadosamente esse terreno. Antes de pensar em namoro, beijo ou qualquer disputa amorosa, a novela apresentou um jovem que passou anos tentando compreender como existir em um ambiente que constantemente lhe ensinava a se controlar. Os comentários e posicionamentos homofóbicos do avô, a solidão na escola e a dificuldade para construir amizades revelaram uma violência menos evidente, mas profundamente reconhecível: para muitos jovens LGBTQIA+, o sofrimento começa dentro de casa, antes mesmo que o mundo lá fora tenha a oportunidade de feri-los.
É por isso que cada descoberta afetiva de Mau Mau carrega um peso maior. Ele não está simplesmente escolhendo entre dois rapazes, está aprendendo que pode desejar, ser desejado e viver aquilo que durante tanto tempo pareceu distante de sua realidade.
Fernando, interpretado por Pedro Alves, foi o primeiro a despertar esse interesse. Houve olhares, elogios e uma aproximação que Mau Mau percebeu de maneira mais evidente do que Fernando. Quando o viu com uma garota depois de uma balada, porém, interpretou aquela imagem com as poucas referências que ainda possuía e concluiu que não existiria espaço para ele naquela relação. A história recuou, mas não terminou. Enquanto isso, outro romance começava a ser escrito antes mesmo de existir efetivamente na tela.
Quando o público também ajuda a escrever uma novela
A aproximação entre Mau Mau e Felipe, personagem de Pietro Antonelli, nasceu também de um desejo manifestado pelo público nas redes sociais. Antes que a novela transformasse os dois em uma possibilidade concreta, espectadores já pediam que Felipe entrasse no universo afetivo de Mau Mau.
Existe algo significativo nisso. Depois de décadas em que personagens LGBTQIA+ precisaram disputar o próprio direito de existir nas novelas, parte do público agora reivindica para eles aquilo que sempre exigiu dos protagonistas heterossexuais: romance, torcida, química, conflito e casal.
Walcyr e Claudia não apenas acolheram essa possibilidade, como encontraram para ela um conflito genuinamente novelesco. Mau Mau é irmão de Adriana, enquanto Felipe pertence à família responsável pela prisão dela. Mau Mau sabe quem Felipe é; Felipe ainda desconhece quem está diante dele. O romance, portanto, não existe isolado do restante da dramaturgia, ele nasce contaminado por um conflito familiar capaz de explodir quando a verdade aparecer.
Antes disso, porém, a novela permite que o sentimento cresça. Mau Mau já admitiu estar interessado. Felipe ainda não nomeou aquilo que sente, e essa diferença torna a construção mais interessante. Ele sente falta quando Mau Mau não aparece na aula de dança, procura saber por que foi embora e demonstra uma necessidade crescente de permanecer perto dele. O personagem ainda precisa compreender algo que o público já começa a enxergar e no capítulo 100, esse movimento ganhou uma de suas cenas mais claras.
Uma pizza, três homens e uma estrutura clássica do melodrama
Felipe convida Mau Mau para sair e os dois ficam sozinhos comendo pizza. Não existe declaração grandiosa, porque ela ainda não seria necessária. Felipe diz gostar da companhia dele, Mau Mau corresponde e a intimidade avança pela conversa. Quando Mau Mau pergunta sobre a garota com quem viu Felipe anteriormente, a resposta também importa: ele trata de esclarecer que aquilo passou, não era sério e, consequentemente, deixa evidente que não existe uma namorada ocupando aquele espaço.
O clima cresce até Felipe começar a perceber que conhece Mau Mau de algum lugar e Fernando chega. É uma entrada de personagem absolutamente tradicional em sua função dramática e, por isso mesmo, tão importante. O terceiro vértice aparece quando os outros dois estão se aproximando. Mau Mau se mostra desconfortável, Felipe também parece afetado pela situação, enquanto Fernando permanece à mesa e demonstra não ter gostado de encontrá-los sozinhos.
Depois, a novela confirma aquilo que a cena deixou suspenso. Felipe conversa com Carol sobre o quanto gosta da presença de Mau Mau e surge com o sorriso de alguém que parece estar se apaixonando antes mesmo de compreender completamente o próprio sentimento. Fernando, por sua vez, admite às colegas de trabalho o incômodo provocado ao vê-lo com Felipe.
Não estamos mais diante apenas da possibilidade de um romance. Existe ciúme. Existe desejo. Existe disputa. Existe triângulo amoroso.
Da proibição de um beijo ao direito de disputar o amor
É impossível olhar para essa construção sem perceber o tamanho do caminho percorrido pela teledramaturgia brasileira. Há pouco mais de duas décadas, América, de Gloria Perez, construiu a relação entre Junior e Zeca, mas o beijo entre os personagens não chegou ao público no último capítulo.
Em 2013, Walcyr Carrasco atravessaria outra fronteira com Félix e Niko em Amor à Vida, quando o beijo entre dois homens finalmente foi exibido em uma novela da televisão aberta. Era uma conquista histórica, embora ainda reservada ao encerramento da história.
Vieram outros personagens, outros casais e novos espaços conquistados. Agora, Quem Ama Cuida avança sobre outra estrutura que durante décadas pertenceu quase exclusivamente às narrativas heterossexuais: a possibilidade de colocar o público diante de dois interesses amorosos e perguntar por quem deve torcer.
Isso muda muita coisa porque representatividade não está somente em permitir que Mau Mau ame outro homem. Está também em lhe conceder complexidade melodramática suficiente para que sua vida afetiva não seja tratada como exceção, apêndice ou trama paralela destinada apenas a discutir sexualidade.
Mau Mau pode simplesmente ser protagonista de uma dúvida amorosa e existe algo simbólico no fato de Felipe ter se fortalecido como possibilidade também pela torcida do público. A comunidade que durante tanto tempo precisou pedir que seus personagens não fossem apagados agora pode discutir química, escolher casal, criar torcida e se dividir.
Fernando ou Felipe? A pergunta parece simples, quase banal, e é exatamente aí que está sua força.
Novelas passaram décadas perguntando ao Brasil com quem suas mocinhas deveriam terminar. Agora, no coração de uma novela das nove, um jovem gay começa a receber o mesmo direito narrativo. Quem Ama Cuida chegou bem aos 100 capítulos porque movimentou conflitos, avançou histórias e preparou novas reviravoltas. Mas chegou à marca fazendo algo que ultrapassa a contagem de capítulos.
Depois de tanto tempo lutando pelo direito de aparecer, Mau Mau finalmente pode ganhar o direito mais clássico de uma novela: ter o público dividido sobre com quem ele deve ficar e isso também é fazer História.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.

Parabéns….. Pela excelente matéria
E ótimas colocações