Julia Lindenberg faz da dúvida um lugar onde a vida ainda pode escolher outros caminhos

Julia Lindenberg fala ao Pittaplay sobre maternidade, carreira, autoficção e as dúvidas que movem o espetáculo Ainda vou sonhar tudo de novo.

Foto: Thaís Grechi

Existe uma mulher diante de um exame de gravidez que ainda não conseguiu abrir. No mesmo dia, ela se despede da avó que viveu 101 anos. Entre aquilo que terminou e aquilo que pode estar começando, há um bolo sendo preparado, memórias atravessando o presente e uma pergunta que não encontra repouso porque qualquer resposta seria capaz de modificar tudo. Em Ainda vou sonhar tudo de novo, Julia Lindenberg não utiliza essa suspensão apenas como conflito de sua personagem, ela constrói uma peça inteira dentro dela.

Idealizado e protagonizado pela atriz, com direção de Liliane Rovaris, o espetáculo retornou ao Teatro Sérgio Porto, no Rio de Janeiro, para sua terceira temporada, em cartaz entre 4 e 20 de setembro. A dramaturgia nasce da pesquisa de mestrado “MaternidadeS: o plural pragmaticamente recusado”, desenvolvida por Julia na Universidade Federal Fluminense, mas encontra no teatro uma possibilidade que a pesquisa acadêmica sozinha não poderia oferecer: em vez de organizar respostas sobre maternidade, criação, trabalho e desejo, permite que essas questões permaneçam vivas, contraditórias e sujeitas à interferência de quem entra naquela sala.

Essa escolha atravessa inclusive a estrutura da montagem. A cada apresentação, uma atriz diferente encontra Julia no segundo ato, fazendo com que existam nove possibilidades para o desfecho. Não se trata de trocar intérprete mantendo intacto o destino da história, mas de aceitar que outra mulher, ao chegar com sua experiência, seus medos e suas escolhas, inevitavelmente altera aquilo que está acontecendo.

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Julia reconhece que a própria peça continua produzindo descobertas que impedem suas perguntas de encontrarem um ponto final. A resposta, quando aparece, não encerra necessariamente uma investigação, pode inaugurar outra.

“Às vezes, numa sessão, ou no monólogo ou em cena com uma das outras atrizes, abre um lampejo e eu penso: opa! Isso aqui é precioso. E vou coletando… Uma descoberta abre caminhos e novos caminhos geram mais perguntas, que por sua vez podem abrir um novo processo como um todo. Acho que é da minha natureza me encantar com o mistério e ir atrás dele.”

Entre alguém que parte e alguém que pode chegar

Julia Lindenberg Ainda vou sonhar tudo de novo.
Julia Lindenberg transforma dúvidas sobre maternidade, desejo e futuro em matéria cênica, fazendo da incerteza um espaço para imaginar outros caminhos. Foto: Thaís Grechi

Colocar uma possível gravidez no mesmo dia da morte da avó faz nascimento e despedida deixarem de ocupar extremidades opostas. Para Julia, os dois acontecimentos carregam perdas e recomeços, porque uma morte obriga quem permanece a reorganizar a própria existência, enquanto um nascimento também modifica irremediavelmente quem existia antes dele.

A atriz conhece essa transformação não somente pela personagem. Ao perder a avó, percebeu que também deixava de existir uma parte da identidade construída naquela relação; ao se tornar mãe, experimentou outra reorganização, agora provocada pela chegada de alguém. É desse território pessoal que nasce uma obra autoficcional na qual Julia não consegue simplesmente entregar um papel ao palco e voltar para casa intacta.

“Como atriz, acredito que seja mais difícil permanecer diante do que acabou. É importante caminhar. O recomeço pode ser doloroso demais… A verdade é que não acho que nem fim e nem começo permaneçam por muito tempo: de ambos há caminho, um passo e já não estamos mais no mesmo lugar.”

Quando diz que o projeto coloca parte de suas “vísceras” em cena, Julia também toca em questão delicada para qualquer artista que transforma a própria experiência em dramaturgia: existe diferença entre utilizar a vida como matéria e acreditar que, por ser sua, ainda será possível controlar o que ela significa depois de compartilhada.

Quando contar a própria história significa perdê-la um pouco

Em cena, Julia Lindenberg atravessa memórias, luto e a possibilidade de uma nova gravidez enquanto questiona a ideia de que exista um caminho certo a escolher.
Foto: Thaís Grechi
Em cena, Julia Lindenberg atravessa memórias, luto e a possibilidade de uma nova gravidez enquanto questiona a ideia de que exista um caminho certo a escolher. Foto: Thaís Grechi

A exposição provocada pela autoficção ainda produz efeitos em Julia, mas não é necessariamente revelar demais que mais a inquieta. O incômodo aparece quando aquilo que escreveu encontra no espectador significado diferente daquele que pretendia construir. Se toda interpretação já carrega algo íntimo de quem atua, escrever, protagonizar e produzir uma obra atravessada pela própria experiência amplia a sensação de responsabilidade sobre aquilo que chega ao outro.

Em determinado momento do monólogo, por exemplo, a personagem afirma não ter coragem de amar “esse tanto de novo, esse tanto em dobro”. Para Julia, a frase está ligada à dimensão física e emocional do amor por um filho, mas uma espectadora a compreendeu de outra maneira. O desencontro inicialmente lhe pareceu uma falha de comunicação, até que a própria natureza do teatro lhe ofereceu outra leitura sobre esse aparente fracasso.

“Uma obra é um encontro. Tem aquilo que posso dizer e tem o que o repertório do outro vai conseguir enxergar. Faço as pazes comigo quando percebo que eu só consigo ser responsável pela minha parte e que talvez a pessoa viva anos e no futuro, quando tiver experiência na vida, faça elo com o que eu disse na peça e enfim entenda… Entender não é da ordem da razão.”

É uma reflexão que ajuda a compreender por que Ainda vou sonhar tudo de novo se recusa a revelar se aquela mulher está grávida ou qual decisão deveria tomar. A abertura não significa ausência de posicionamento, mas transferência de parcela da dramaturgia para quem assiste. Julia formula as perguntas a partir de um lugar próprio, porém deixa que o repertório de cada espectador participe da construção da resposta.

Quando provocada sobre o risco de a ambiguidade se tornar um lugar confortável para o artista não se comprometer, ela estabelece uma diferença importante: não oferecer um desfecho não significa não ter algo a dizer, mas compreender que teatro não precisa funcionar como uma demonstração destinada a levar todos à mesma conclusão.

“A projeção do espectador é uma resposta, percebe. Só que cada um encontra ela sozinho. Abro mil questões, mas diante dessas, cada um reflete da própria maneira. Questiono já me posicionando, o que não me impede de fazer o público refletir também. Uma sessão de teatro é um encontro, não uma palestra.”

A maternidade quase afastou Julia da arte e acabou modificando sua arte

Idealizadora e protagonista, Julia Lindenberg leva elementos da própria experiência ao palco em uma obra autoficcional que prefere provocar perguntas a entregar respostas.
Foto: Thaís Grechi
Idealizadora e protagonista, Julia Lindenberg leva elementos da própria experiência ao palco em uma obra autoficcional que prefere provocar perguntas a entregar respostas. Foto: Thaís Grechi

A origem do espetáculo carrega ironia que Julia demorou a conseguir formular. Quando ingressou no mestrado, tinha um filho de dois anos, estava desempregada e procurava maneira de permanecer artisticamente ativa. A pandemia fez com que estudo e cuidado passassem a dividir literalmente o mesmo espaço, e a pesquisa acabou se voltando para mulheres artistas e suas relações com a maternidade.

Anos depois, aquilo que despertou o medo de abandonar a carreira tornou-se matéria para obra que a mantém criando. A maternidade não solucionou sua relação com a arte nem tornou o caminho mais simples, mas obrigou Julia a investigar as condições em que ainda seria possível continuar. Hoje, trabalhando nove horas por dia em uma empresa, criando o filho e procurando os espaços que chama de “buracos” para produzir artisticamente, ela rejeita qualquer narrativa heroica sobre a mulher que consegue suportar tudo.

Ao lembrar de um amigo que admirava sua insistência porque a própria mãe havia desistido, Julia conta que sua reação foi compreender aquela mulher. Sua permanência é sustentada também por uma rede formada pelo marido, pela mãe e por amigos, consciência que desloca o debate do mérito individual para as condições concretas que permitem ou impedem alguém de continuar.

“A arte tem me cobrado preço que nem sei te explicar. Com certeza a romantização tem que ser combatida. Acho que inclusive ela é uma das razões pelas quais é tão difícil valorizar a arte. Temos que pensar que a arte é um trabalho e que não merece ser executado às custas sempre de um sacrifício. Tirar o glamour disso é um bom começo.”

Por isso, quando olha para o paradoxo de uma maternidade que ameaçou sua permanência e acabou modificando a artista que ela se tornou, Julia chega a frase aparentemente simples, mas carregada de tudo o que precisou existir para que pudesse dizê-la: “É difícil fazer, mas estou fazendo.”

Nove mulheres impedem que a história tenha uma única resposta

Se a pesquisa que originou o espetáculo já carregava “MaternidadeS” no plural, seria contraditório transformar a experiência em uma mulher falando sozinha como se pudesse representar todas as outras. É dessa consciência que surge o segundo ato mutável, no qual Amanda Brum, Helena Varvaki, Adassa Martins, Amanda Spanner, Giovanna Nader, Yohama Eshima, Marcia Torres, Liliane Rovaris e Isabelle Nassar ocupam, em sessões diferentes, o lugar de interlocutoras de Julia.

Abrir uma obra tão pessoal para a interferência de outras artistas exige que sua idealizadora aceite perder parte do controle sobre aquilo que criou. Julia afirma que nenhuma convidada conduziu a peça para um território que precisasse ser recusado; o que acontece é mais interessante, porque o encontro produz caminhos que nenhuma das duas poderia determinar antes de estar em cena.

“Quando elas entram, o encontro nos guia e justamente nos leva pra onde a gente não espera, não tem controle sobre esse ‘onde vamos chegar’. E por isso é tão potente. O público não recebe uma resposta fechada e a intenção é que cada um possa desejar e responder com o seu próprio coração pra onde gostaria que essa história fosse.”

O Pittaplay também conversou com algumas das mulheres que participam dessa experiência, e as respostas ajudam a compreender que os nove finais não funcionam apenas como recurso de encenação. Cada convidada leva para o espetáculo uma maneira diferente de encarar aquilo que poderia ter sido, aquilo que ainda pode ser e o desconforto de permanecer em uma pergunta sem correr imediatamente para resolvê-la.

Diretora da montagem e também uma das participantes desta temporada, Liliane Rovaris encontra na escuta a chave para que Julia não cristalize uma emoção e passe a reproduzi-la noite após noite. Para ela, a personagem é atravessada pelo humor daquele dia, pela plateia e pela atriz que chega no segundo ato, fazendo com que a dúvida permaneça sujeita ao presente: “Vivemos num mundo que valoriza a entrega pronta, o resultado, e ficar nesse lugar de não saber ainda dá um frio na barriga toda vez”, afirma.

Marcia Torres olha para as escolhas feitas e imagina as mulheres que poderiam ter surgido das decisões recusadas. Em vez de tratá-las como arrependimentos, leva essas existências possíveis para o próprio ofício: “No palco, elas deixam de ser apenas possibilidades e ganham corpo, voz e destino. E, por alguns instantes, eu me torno todas elas ou nenhuma delas.”

Para Amanda Spanner, o desconforto provocado por esse território instável não é um obstáculo a ser eliminado, mas parte do que a arte pode produzir quando desloca certezas: “Como atriz, ter a oportunidade de questionar meus próprios dilemas através dos dilemas de uma personagem é engrandecedor. Não é confortável, mas é engrandecedor.”

Giovanna Nader leva a discussão para as estruturas que ainda exigem das mulheres uma aparência de controle mesmo quando suas vidas estão sendo profundamente transformadas. Ao observar mulheres que escondem a gravidez ou atravessam as fragilidades do puerpério com medo de perder espaço profissional, ela encontra no palco a possibilidade de tornar visível uma vulnerabilidade que o mercado frequentemente pune: “A sociedade ainda não está preparada pra acolher uma mulher que acaba de se tornar mãe e enxergo no teatro uma ótima chave pra abrir espaço pra essa discussão.”

Já Yohama Eshima não procura separar completamente sua história daquela que encontra em cena. Mãe e atriz, prefere transformar a experiência pessoal em matéria compartilhável, sem fazer da personagem uma cópia de si: “Quanto mais eu, melhor. Mais gostoso, menos esforço. Mas aí está o desafio: quem disse que não há esforço em permanecer em si, no palco, nas luzes?”

E Isabelle Nassar condensa a provocação que levará para seu encontro com Julia em uma pergunta capaz de conversar não apenas com a personagem diante do teste, mas com toda a peça: “Você vai deixar de ser feliz com medo de ficar triste?”

É possível que Ainda vou sonhar tudo de novo nunca encontre a resposta definitiva que Julia imaginou poder decretar seu fim, porque cada mulher que chega modifica a pergunta, cada plateia acrescenta outra possibilidade e cada experiência vivida depois de uma sessão pode fazer uma frase antiga significar algo novo.

Quando questionada se, conhecendo agora o preço cobrado pela maternidade e pelo teatro, escolheria sonhar os mesmos sonhos outra vez, Julia não responde com idealização do caminho percorrido, mas prefere lembrar que a vida sempre consegue ultrapassar aquilo que imaginamos para ela.

“Sou grata por tudo que tenho, as dificuldades fazem parte! Só sou o que sou porque mergulho profundamente em cada fagulha de vida, seja de amor, seja de dor.”

No centro da peça permanece uma mulher que ainda não abriu um exame e, portanto, continua habitando por alguns instantes todas as vidas que aquela resposta poderia produzir e Julia está empenhada nesse intervalo, porque enquanto o envelope permanece fechado ainda existe dúvida, e enquanto existe dúvida ainda é possível imaginar.

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