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A Antártida de Bruno Safadi convence antes mesmo de começar a assustar. A produção dos Estúdios Globo transforma um estúdio virtual no Rio de Janeiro em estação brasileira cercada pelo gelo e faz o espectador acreditar naquele isolamento. A tecnologia aparece integrada à encenação, principalmente quando o frio deixa de ser paisagem e passa a interferir fisicamente nos personagens, aumentando a sensação de que ninguém pode simplesmente abandonar aquele lugar quando a convivência se torna insuportável.
É dentro desse ambiente que a pesquisadora Inês, interpretada por Marina Ruy Barbosa, sofre uma violência sexual e desperta a pergunta que movimenta o filme: quem a atacou? O roteiro de Claudia Jouvin transforma todos os homens ao redor em possibilidades e administra essas suspeitas com montagem que sabe esconder e revelar informações. Conforme aquela noite começa a ser reconstruída, ações simultâneas apresentam versões, deslocamentos e segredos que alteram continuamente a percepção sobre cada personagem. O espectador recebe respostas enquanto ganha novas razões para desconfiar, e esse movimento permanece eficiente até a revelação.
O filme também carrega algumas marcas bastante contemporâneas de escrita. Determinadas falas parecem construídas para ultrapassar a cena, frases de efeito com força para permanecer na memória, servir de gancho e até sobreviver isoladamente em um recorte nas redes sociais. É característica cada vez mais presente no audiovisual produzido durante a era dos algoritmos, em que uma obra também passa a circular fragmentada depois de lançada. Em Antártida, esse recurso aparece pontualmente e convive bem com uma narrativa amarrada, enquanto Safadi mantém a direção concentrada em fazer a tensão crescer.
Essa condução ganha força porque o crime amplia algo que já existia naquele espaço. As mulheres estão isoladas geograficamente e inseridas em um ambiente predominantemente masculino, onde relações de poder, cumplicidades e comportamentos machistas tornam a investigação ainda mais incômoda. Durante o exame de Inês, uma troca de olhares entre Marina, médica vivida por Leandra Leal, e a subcomandante Elisabeth, de Andrea Beltrão, comunica preocupação e reconhecimento sem transformar tudo em diálogo. Em outro momento, Inês dança durante uma festa enquanto os homens observam. A escolha de enquadrá-la a partir desses olhares transforma a cena em antecipação e instala no público a mesma pergunta que acompanhará a investigação: qual deles poderia atravessar o limite?
Marina Ruy Barbosa recebe responsabilidade decisiva dentro dessa engrenagem. Inês é o ponto a partir do qual todos precisam agir, e a atriz trabalha as consequências da violência também pelo corpo, permitindo que a personagem assimile aos poucos aquilo que sofreu. Sua atuação fornece o combustível dramático para que os demais personagens se revelem diante do crime. É a brasa lançada por Marina que acende conflitos, suspeitas, alianças e silêncios ao redor.
Leandra Leal responde a esse movimento com composição segura para Marina, personagem que ocupa um lugar difícil por precisar lidar simultaneamente com a vítima, a investigação e os próprios conflitos. Andrea Beltrão constrói Elisabeth a partir de uma autoridade que sofre abalos conforme a situação foge de qualquer protocolo. Quando as duas dividem a cena, existe escuta entre as atrizes e compreensão precisa de que boa parte do que suas personagens enfrentam pode ser comunicada antes da fala.
Lázaro Ramos encontra em Vicente um homem desagradavelmente reconhecível. Sua composição incomoda porque o personagem é possível, alguém cujas atitudes e maneira de ocupar o espaço remetem a comportamentos que existem para além daquela estação. O ator sustenta essa presença sem suavizar o desconforto provocado por Vicente e ajuda o filme a aproximar sua discussão de uma realidade conhecida pelo público.
Henrique Barreira e João Vitor Silva também aproveitam muito bem o material oferecido aos seus personagens. Santiago e Josué funcionam como dupla porque existe entre eles uma cumplicidade masculina que ganha peso dentro da investigação. A relação dos dois permite ao filme observar pactos, silêncios e formas de proteção que frequentemente se escondem sob a ideia de parceria. Quando separados, os atores preservam a força individual dos personagens e encontram nos momentos finais espaço para aprofundar o drama conforme a tensão alcança seu ponto mais alto.
Renan Monteiro faz de Gaspar uma presença importante nessa rede de relações e cresce principalmente na contracena com Andrea Beltrão. Adélio Lima trabalha por outro caminho e consegue permanecer durante boa parte da narrativa na cabeça do espectador. Seu personagem carrega a impressão de enxergar mais do que revela, e o ator administra essa informação pelo olhar e pela postura, mantendo-o entre os suspeitos durante o tempo necessário para que o mistério continue respirando.
A participação de Antônio Calloni acrescenta ainda outra dimensão ao filme. Sua troca com Andrea Beltrão está entre os momentos emocionalmente mais fortes da narrativa, encontrando humanidade dentro de uma história que passa boa parte do tempo colocando seus personagens sob suspeita.
Quando chega à revelação, Antártida recolhe as pistas espalhadas e leva seu discurso ao ápice. A sequência concentra mistério, indignação e desejo de justiça, enquanto a personagem de Andrea verbaliza aquilo que o filme vinha construindo através da investigação. A resolução consegue explicar o crime e, ao mesmo tempo, preservar a discussão que existe para além da identidade do agressor.
É aí que a escolha da Antártida como espaço ganha ainda mais sentido. Estamos diante de personagens separados do restante do mundo por quilômetros de gelo, mas o crime, o machismo, as cumplicidades e os mecanismos que permitem determinadas violências são reconhecíveis muito longe dali e nem um frio extremo é capaz de desaquecer a brutalidade e a estrutura de uma cultura. O isolamento geográfico acaba aproximando, em vez de afastar, aquilo que o filme pretende discutir.
Antártida é suspense que desperta curiosidade, distribui suspeitas e conduz o público até uma resposta. Funciona como produção de grande escala porque direção, tecnologia e elenco trabalham para sustentar aquele universo e encontra sua maior força quando usa o entretenimento para devolver ao espectador perguntas que continuam depois dos créditos. O continente gelado pode parecer distante, mas a realidade colocada diante da câmera está muito mais perto de nós.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
