Higor Campagnaro encontra força no silêncio de Souza em ‘Diário do Fogo’

Higor Campagnaro fala ao Pittaplay sobre a construção de Souza, a parceria com Isabel Teixeira em Diário do Fogo e seus 20 anos de carreira.

Foto: Sergio Santoian

Souza fala pouco em Diário do Fogo, mas Higor Campagnaro precisou construir muito do personagem para além dos diálogos. No longa dirigido por Maju de Paiva e Bernardo Florim, o ator interpreta um vigilante solitário que se aproxima de Graça, vivida por Isabel Teixeira, quando ela passa a ser perseguida. Em entrevista ao Pittaplay, Higor conta que encontrou na rotina metódica, nos gestos e na própria maneira de Souza observar o mundo os elementos para dar dimensão a um homem que raramente verbaliza aquilo que sente.

“Encarei esse personagem como um homem que é muito silencioso, mas que tem muitas vozes”, conta o ator. A compreensão surgiu a partir do roteiro e do trabalho com direção e preparação: “Ele é um sujeito metódico e, na repetição dos seus atos, ele está dizendo muito. Esses silêncios dos quais ele é constituído são muito barulhentos.”

A definição ajuda a compreender o caminho encontrado por Higor para um personagem que poderia ser facilmente reduzido à função que ocupa na trama. Souza é um vigia e, diante das ameaças enfrentadas por Graça, passa a protegê-la. O ator, porém, evita antecipar em que momento essa vigilância profissional ganha outra dimensão: “Tem que esperar o filme chegar nos cinemas pra ver onde as coisas se deslocam”, brinca.

Graça permanece no centro da própria história

Para Higor, a aproximação entre Souza e Graça também não transforma o personagem masculino no responsável pela sobrevivência da protagonista. Quando questionado sobre o risco de reproduzir a figura do homem que surge para salvar uma mulher vulnerável, ele é direto: “A graça é a protagonista ser a Graça. A história é contada sob o ponto de vista dela. Essa história de ‘homem que salva mulher’ passa bem distante desse roteiro.”

A relação entre os personagens permite, entretanto, observar diferentes maneiras de experimentar a solidão. Higor não interpreta o comportamento reservado de Souza como alguém que havia rompido com o mundo e encontra em Graça uma possibilidade de retornar a ele. Para o ator, aquela já é a maneira possível de o vigilante estabelecer suas relações: “Vejo o Souza como solitário, ermitão, etc. Não sei se ele se veria por essa perspectiva, acho que ele se acha comum, talvez pense que todos são como ele”, explica. “Não acho que ele deixou de se relacionar com o mundo e viu a possibilidade de voltar a se relacionar. Eu vejo que a maneira como ele se relaciona é a maneira como consegue se relacionar.”

Essa leitura também orienta a forma como Souza reage às situações de perigo. Higor lembra que o personagem é treinado para enfrentar momentos de tensão, mas sua profissão não anula as demais dimensões de sua personalidade: “As pessoas têm muitas facetas, e o uso de uma não inviabiliza as outras”, resume.

A parceria com Isabel Teixeira

Grande parte desse processo foi construída na troca com Isabel Teixeira. Higor já havia destacado sua admiração pela atriz, mas a parceria em Diário do Fogo encontrou força principalmente na escuta entre os intérpretes: “O jogo com a Isabel é da melhor qualidade. Ela é uma artista, atriz maravilhosa”, afirma. Para ele, essa disponibilidade não esteve restrita aos dois protagonistas. Higor cita Ranieri Gonzalez, Cátia Costa, Dani Barros, André Arteche e Juliana Veloso ao falar sobre a conexão estabelecida durante as filmagens.

“Estávamos todos com muita atenção um ao outro, escutando o batimento cardíaco um do outro, elenco, direção, equipe, todos muito conectados para que coisas sutis e poderosas acontecessem.”

A sutileza mencionada pelo ator ganha importância em um personagem de poucas palavras. Corpo, olhar e presença passam a carregar informações que poderiam ser entregues pelo diálogo. Higor confirma que houve um trabalho específico para essa composição, mas rejeita a ideia de atribuir o resultado somente ao intérprete: “Nós, atores, não fazemos nada sozinhos. Tem os colegas de elenco, a direção, fotografia, figurino, arte, som, maquiagem. É muita gente pra fazer uma história acontecer e dar certo.”

O ator como um novo universo para o personagem

Higor Campagnaro detalha ao Pittaplay a construção de Souza em Diário do Fogo, fala sobre o trabalho com Isabel Teixeira e reflete sobre silêncio, atuação e os aprendizados acumulados ao longo de 20 anos de carreira.
Higor Campagnaro detalha ao Pittaplay a construção de Souza em Diário do Fogo, fala sobre o trabalho com Isabel Teixeira e reflete sobre silêncio, atuação e os aprendizados acumulados ao longo de 20 anos de carreira. Foto: Sergio Santoian.

Maju de Paiva e Bernardo Florim assinam roteiro e direção de Diário do Fogo. Mesmo recebendo um personagem criado por cineastas que conheciam profundamente aquele universo, Higor entende que a escalação de um ator inevitavelmente transforma aquilo que estava inicialmente no papel: “Quando um ator ou uma atriz é convidado para um papel, é um universo. Se fosse outro, seria outro universo”, analisa. “Cada universo terá suas habilidades e limitações. Esses serão os contornos que a gente apresenta e oferece para a audiência.”

Até o título despertou sua curiosidade antes das filmagens. “Diário do Fogo é um título muito bonito mesmo. Me deixou muito instigado e eu li o roteiro numa tacada só”, lembra. Quando convidado a definir o significado desse fogo para Souza sem entregar acontecimentos da história, Higor prefere preservar o mistério: “É FOGO!”

Vinte anos depois, o mesmo ponto de partida

Diário do Fogo chega em momento simbólico da trajetória de Higor Campagnaro. Em 2026, o ator completa 20 anos de carreira. Entre seus trabalhos estão Um Animal Amarelo, pelo qual recebeu menção honrosa de Melhor Ator no Festival de Gramado, Os Últimos Dias de Gilda, Os Primeiros Soldados, Doutor Gama, Fúria e O Mensageiro. Na televisão, participou recentemente do remake de Vale Tudo como o piloto Marcondes.

Duas décadas de experiência poderiam fazer com que Souza fosse encarado como resultado de um ator que aprendeu a fazer menos diante da câmera. Higor, porém, prefere olhar para aquilo que permaneceu: “Sou um cara tímido do interior do Espírito Santo. Vinte anos pra frente ou vinte anos pra trás, esse é o meu ponto de partida”, afirma. A partir dele, cada personagem exige uma nova medida: “Se serão vinte tons a mais ou 80 tons a menos, se é desinibido, piloto de avião, artista plástico, político, cineasta, a gente vai descobrir.”

E novamente aparece a ideia que atravessa sua maneira de falar sobre atuação e também sua experiência em Diário do Fogo: “Digo a gente porque eu nunca estou só.”

Em Souza, essa construção coletiva resulta em um homem que não precisa transformar cada sentimento em palavra. Um personagem que Higor encontrou na repetição, no corpo, na escuta e em silêncios que, como ele próprio define, podem ser muito barulhentos.

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