Thiago Hypolito revela desafio de interpretar Poke em Verônika com K: “Qual é o caminho da paz?”

Thiago Hypolito fala sobre Poke em Verônika com K, intolerância religiosa e carreira no episódio 06 do podcast Crítica em Foco, disponível no Spotify.

Foto: Cesar Diógenes

Thiago Hypolito interpreta um homem que encontra na violência a maneira de exercer o poder, mas termina uma conversa sobre o personagem questionando por que a humanidade ainda precisa recorrer a ela. Intérprete de Poke em Verônika com K, série do Globoplay protagonizada por Roberta Rodrigues, o ator construiu um antagonista estratégico, paciente e disposto a ultrapassar limites para conquistar aquilo que deseja. Fora das telas, porém, a experiência despertou inquietações que continuam acompanhando sua trajetória artística.

Em entrevista ao podcast do Pittaplay, Thiago falou sobre os bastidores da produção, a preparação para interpretar o criminoso e o reencontro com o personagem no universo de Arcanjo Renegado. A conversa também revelou história pessoal de transformação: depois de sobreviver a um acidente de carro, em 2018, ele decidiu abandonar o emprego e vender bolos de pote para realizar o sonho de estudar teatro.

Ao longo do encontro, o ator discutiu o significado do protagonismo negro no audiovisual, a responsabilidade de representar situações de violência e a importância de compreender a atuação como uma profissão que exige estudo, pesquisa e entrega emocional.

Poke e o poder de quem sabe esperar

No sexto episódio da segunda temporada do Crítica em Foco, podcast do Pittaplay, Marcos Pitta recebe Thiago Hypolito, intérprete de Poke em Verônika com K, série do Globoplay protagonizada por Roberta Rodrigues.
No sexto episódio da segunda temporada do Crítica em Foco, podcast do Pittaplay, Marcos Pitta recebe Thiago Hypolito, intérprete de Poke em Verônika com K, série do Globoplay protagonizada por Roberta Rodrigues. Foto: Cesar Diógenes.

Para Thiago, a principal característica de Poke está na capacidade de planejar os próprios movimentos. O personagem exerce influência sobre o Morro de São Jerônimo e procura manter o controle de seu território, mas o ator encontrou na concentração e na paciência os elementos fundamentais para construir sua personalidade: “Ele é preciso. Se ele decidiu que quer, ele não vai medir esforços para ter”, explicou.

A interpretação também ganhou uma referência animal. Durante a preparação, Thiago passou a associar Poke a uma cobra, especialmente pela maneira como o réptil adapta o corpo ao ambiente e espera o momento adequado para atacar: “Ele tem um arquétipo da cobra, sabe? Da paciência para dar o bote certo.”

A escolha ajudou a definir o comportamento físico do personagem, seus movimentos e a maneira como observa as pessoas ao redor. A ameaça de Poke também se manifesta no controle que exerce sobre as situações, mesmo quando permanece aparentemente tranquilo.

Essa construção, entretanto, trouxe desafio particular: encontrar verdade nas atitudes de alguém cujas convicções são completamente diferentes das suas. Thiago explicou que precisa acreditar nas motivações do personagem durante as gravações, mesmo quando discorda profundamente delas. O esforço consiste em compreender a lógica de Poke dentro da ficção e, depois, conseguir se afastar daquela realidade.

Para o ator, interpretar alguém que provoca sofrimento também significa aprender a deixar para trás a energia emocional acumulada durante o trabalho.

Um homem poderoso que não conhece a liberdade

Ao discutir as escolhas de Poke, Thiago apresentou contradição importante sobre a trajetória do vilão: apesar de comandar uma estrutura criminosa, ele não possui a liberdade que acredita ter conquistado.

O personagem pode determinar o que acontece dentro de seu território, mas permanece cercado pelas consequências das próprias decisões. A posição de liderança exige vigilância constante, já que outras pessoas desejam ocupar seu lugar: “Ele não é livre, só comanda aquele espaço ali”, afirmou.

Na avaliação do ator, Poke vive uma falsa sensação de autonomia. Seu poder está condicionado à necessidade de defender aquilo que conquistou, impedindo que desfrute de experiências comuns sem temer perseguições ou ameaças. A reflexão também ajuda a compreender por que Thiago evita enxergar o antagonista apenas pela sucessão de crimes que comete. O personagem pertence a um ambiente em que as disputas de poder influenciam suas escolhas e restringem suas possibilidades de transformação.

A cena que fez Thiago Hypolito se emocionar

Thiago Hypolito revela bastidores de Poke em Verônika com K
Thiago Hypolito revela bastidores de Poke em Verônika com K. Foto: Divulgação/Globoplay.

Entre os momentos mais difíceis de sua participação em Verônika com K, Thiago destaca sequência envolvendo a destruição de um terreiro. A cena apresenta a intolerância religiosa praticada por Poke e exigiu do ator uma entrega emocional particularmente intensa: “Foi muito difícil fazer essa cena”, recordou.

Durante a entrevista, Thiago se emocionou ao explicar que a violência representada na série ultrapassa os limites da ficção. Para ele, o audiovisual possui a capacidade de tornar visíveis situações que muitas pessoas conhecem apenas por relatos ou notícias.

O ator espera que a sequência contribua para ampliar a discussão sobre ataques motivados pela intolerância religiosa, especialmente contra manifestações de fé que enfrentam preconceito no Brasil: “Desejo muito que ela sirva como uma denúncia”, declarou.

Thiago também defendeu a convivência entre diferentes crenças e ressaltou que o respeito deve orientar as relações humanas, independentemente da religião praticada por cada pessoa. A experiência reforçou sua compreensão de que interpretar personagem violento exige responsabilidade com aquilo que a história apresenta ao público.

O acidente que mudou sua vida

Antes de interpretar Poke e participar de produções do Globoplay, Thiago precisou tomar decisão que transformaria completamente sua trajetória profissional. Em 2018, ele sofreu acidente de carro enquanto dirigia por uma estrada sob chuva intensa. O veículo capotou e terminou na pista contrária, mas nenhum outro automóvel foi atingido. Thiago saiu sem ferimentos.

O episódio provocou uma reflexão imediata: “Eu podia ter morrido agora e não ter me tornado ator.”

A possibilidade de perder a vida sem realizar um desejo antigo foi determinante para que ele reconsiderasse suas escolhas. Thiago já havia frequentado um curso de teatro em 2010, mas ainda não tinha transformado aquele interesse em profissão. Depois do acidente, decidiu deixar o emprego e procurar uma formação artística.

Para conseguir pagar as aulas, começou a vender bolos de pote. Em seguida, ingressou na Oficina Nova Visão e passou a construir sua experiência no teatro, participando de produções e buscando oportunidades de trabalho. O ator considera o palco um espaço fundamental para o desenvolvimento profissional, independentemente de o artista atuar posteriormente no cinema, na televisão ou nas plataformas digitais.

Hoje, ele identifica a paternidade e a atuação como duas das experiências mais importantes de sua vida. Pai de Pétala, Thiago reconhece que a decisão tomada naquele momento abriu caminhos que não imaginava percorrer.

Os bastidores de Verônika com K e o encontro com Roberta Rodrigues

A participação em Verônika com K começou depois de um teste realizado no fim de 2022. A série foi gravada em 2023, e Thiago voltou a interpretar Poke em gravações de Arcanjo Renegado realizadas no ano seguinte. O reencontro com o personagem foi uma surpresa para o ator, que não esperava retornar tão rapidamente àquele universo ficcional.

A continuidade também exigiu que recuperasse elementos da interpretação desenvolvida anteriormente, respeitando as diferentes circunstâncias em que Poke aparece nas produções. Thiago destacou a importância da preparação coletiva para alcançar esse resultado. Entre os profissionais mencionados durante a conversa está Fátima Domingues, responsável por exercícios que contribuíram para despertar aspectos físicos e emocionais do personagem.

Um deles envolveu um pedaço de madeira que o ator precisava movimentar durante a preparação. A experiência acabou revelando uma respiração diferente e um estado corporal que passaram a integrar sua pesquisa para o papel. O trabalho também foi marcado pela admiração por colegas de elenco, especialmente Roberta Rodrigues, protagonista de Verônika com K.

Thiago contou que teve pouco contato direto com a atriz durante a preparação, pois os personagens pertenciam a núcleos diferentes. Mesmo assim, acompanhou a responsabilidade assumida por Roberta ao liderar a produção.

Para ele, o protagonismo da atriz representa um reconhecimento importante de uma trajetória construída ao longo de muitos anos no audiovisual brasileiro. O ator também mencionou Marcelo Mello Jr., protagonista de Arcanjo Renegado, como uma referência para profissionais negros que buscam espaço no mercado.

A atuação como profissão e a importância de contar novas histórias

Em uma conversa exclusiva com o Pittaplay, o ator revela os bastidores da construção do personagem, fala sobre uma das cenas mais difíceis de sua carreira, envolvendo intolerância religiosa, e relembra o acidente de carro que mudou sua vida e o levou a seguir o sonho de ser ator.
Em uma conversa exclusiva com o Pittaplay, o ator revela os bastidores da construção do personagem, fala sobre uma das cenas mais difíceis de sua carreira, envolvendo intolerância religiosa, e relembra o acidente de carro que mudou sua vida e o levou a seguir o sonho de ser ator. Foto: Lucas Teixeira.

Ao longo da entrevista, Thiago demonstrou preocupação com a maneira como a profissão de ator é percebida fora do meio artístico. Ele considera necessário ampliar as oportunidades para que os profissionais expliquem seus processos criativos, especialmente porque a atuação frequentemente é associada apenas à exposição pública e à fama.

Na visão do entrevistado, interpretar exige compreender a linguagem de cada produção e encontrar uma verdade possível dentro da história que está sendo contada. Thiago também defendeu o valor do teatro e da pesquisa contínua, ressaltando que a formação de um ator se desenvolve por meio das experiências acumuladas ao longo da carreira.

A discussão ganhou outra dimensão quando ele comentou a importância de novos protagonistas negros ocuparem espaços de destaque no audiovisual. Para Thiago, produções como Verônika com K contribuem para ampliar a diversidade de personagens, perspectivas e histórias apresentadas ao público.

Essa transformação também tem impacto sobre as gerações de artistas que encontram referências em profissionais capazes de ocupar lugares historicamente pouco acessíveis.

“Qual é o caminho da paz?”

A pergunta mais difícil da entrevista surgiu quando Thiago foi convidado a refletir sobre aquilo que ainda não conseguiu compreender depois de interpretar Poke e a resposta ultrapassou os limites da construção do personagem: “Qual é o caminho da paz?”

O ator explicou que participar de histórias sobre criminalidade e conflitos sociais o levou a questionar a permanência da violência nas relações humanas. Durante a preparação para os trabalhos, teve contato com pessoas que conheceram diferentes aspectos da realidade retratada nas séries, incluindo ex-integrantes do tráfico e profissionais da segurança pública.

Mesmo depois dessas experiências, continua procurando compreender por que a sociedade reproduz ciclos de violência e transforma instrumentos cotidianos em meios de provocar sofrimento: “Aonde mora o fim da violência?”, questionou.

Para Thiago, o audiovisual pode contribuir para esse debate ao apresentar realidades que muitas pessoas desconhecem e estimular reflexões sobre as estruturas sociais representadas na ficção.

É também por essa razão que considera importante participar de produções capazes de ampliar as narrativas sobre a população negra e apresentar diferentes experiências humanas.

Ao interpretar Poke, Thiago encontrou personagem movido pelo desejo de conquistar e preservar o poder. Ao falar sobre ele, revelou um artista interessado em compreender as consequências da violência e o papel das histórias na transformação do olhar do público.

A contradição entre esses dois universos ajuda a explicar a intensidade de sua interpretação e a importância que atribui à profissão escolhida depois de um acontecimento que quase interrompeu sua própria história.

Ouça a entrevista completa no podcast do Pittaplay

A conversa com Thiago Hypolito vai além dos assuntos reunidos nesta reportagem. No episódio completo, o ator compartilha outros detalhes de sua preparação para interpretar Poke, relembra experiências nos bastidores de Verônika com K e Arcanjo Renegado e aprofunda suas reflexões sobre carreira, representatividade e violência.

Ouça a entrevista completa com Thiago Hypolito no podcast do Pittaplay, disponível no Spotify.

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