Protagonistas de “C’est la vie”, Gabi Lemos e Ricardo Rodriguez refletem sobre amor, silêncio e as dores de uma despedida

Entre silêncios, despedidas e sentimentos não verbalizados, Gabi Lemos e Ricardo Rodriguez constroem o coração emocional de C'est la vie. Foto: Telmo Maia

“Qual é a resposta para o fim de uma relação?”

É a partir dessa pergunta que nasce C’est la vie, curta-metragem dirigido por Nandini Segreto e protagonizado por Gabi Lemos e Ricardo Rodriguez. A produção acompanha Aline e Bernardo, um casal que vive os momentos delicados de um relacionamento de quatro anos quando uma oportunidade profissional coloca em xeque tudo aquilo que construíram juntos. Mas o verdadeiro conflito da história não está apenas na possibilidade da separação. Está nos silêncios acumulados, nas conversas que nunca aconteceram e nos sentimentos que deixaram de ser verbalizados.

Em entrevista ao Pittaplay, Gabi Lemos e Ricardo Rodriguez falaram sobre o processo de construção dos personagens, os desafios emocionais do projeto, a relação entre arte e vida pessoal e as reflexões que o filme provoca sobre os relacionamentos contemporâneos.

Quando amar alguém também significa pensar no outro

Para Gabi Lemos, a trajetória de Aline dialoga diretamente com uma visão que ela já carregava antes mesmo de receber o roteiro. 

A atriz acredita que amar alguém envolve responsabilidade, escuta e consideração pelos sentimentos da outra pessoa, algo que vê refletido na protagonista: “Hoje em dia existe um discurso muito forte sobre sempre escolher a si mesmo, mas acho que amar alguém também passa por consideração, escuta e renúncia. O mais bonito da Aline é justamente que ela não toma decisões de forma impulsiva ou egoísta. Mesmo diante de uma oportunidade que poderia mudar completamente a vida dela, ela ainda pensa na história que construiu, no Bernardo e no impacto emocional daquela escolha.”

Segundo a atriz, interpretar Aline foi também oportunidade de revisitar questionamentos pessoais sobre até que ponto pensar no outro dentro de uma relação pode ser visto como um erro: “Ela me fez perceber que talvez não seja sobre deixar de olhar para si, e sim sobre não perder a capacidade de olhar para quem a gente ama também. Acho que é isso que torna ela tão humana.”

O silêncio que machuca mais do que a discussão

Os protagonistas conversaram com o Pittaplay sobre bastidores, improvisação, entrega artística e os desafios de interpretar uma história tão íntima. Foto: Telmo Maia.
Os protagonistas conversaram com o Pittaplay sobre bastidores, improvisação, entrega artística e os desafios de interpretar uma história tão íntima. Foto: Telmo Maia.

Um dos temas centrais do curta é a dificuldade de comunicação. Para Gabi, os silêncios podem ser mais dolorosos do que uma briga aberta: “O silêncio deixa espaço para a imaginação, para a insegurança e para todas as possibilidades que nunca são confirmadas. Quando alguém não fala, a gente perde o controle da situação porque não sabe o que o outro está sentindo, pensando ou decidindo.”

A atriz acredita que Aline e Bernardo vivem exatamente esse processo: “Existe acúmulo emocional entre eles, coisas que os dois gostariam de dizer mas não conseguem, seja por medo, insegurança ou até por não saber como verbalizar certos sentimentos.”

Ela conclui afirmando que, por mais difícil que seja ouvir uma verdade, ainda assim a sinceridade oferece algo concreto para enfrentar: “O silêncio faz a gente criar histórias na própria cabeça. E quase nunca essas histórias vêm de um lugar tranquilo.”

A solidão de quem já não se sente ouvido

Ao longo da história, Aline vive situação que muitas pessoas reconhecem. Ela ama. Ela quer ficar. Mas está cansada: “Existe solidão muito silenciosa nisso”, afirma Gabi.

“O que mais me tocava na Aline era perceber que ela ainda ama, ela ainda quer ficar, ela ainda tenta, mas emocionalmente já está exausta de carregar tudo sozinha.”

A atriz destaca cena em que a personagem desaba emocionalmente ao perceber que sempre foi ela quem tentou sustentar a relação: “Ela sente que sempre foi ela tentando conversar, tentando resolver, tentando sustentar algo que precisava ser construído pelos dois.”

Para Gabi, essa é uma das dores mais humanas presentes no filme: o momento em que alguém percebe que não quer mais implorar por presença, reciprocidade ou escuta.

Bernardo e a masculinidade que aprendeu a esconder sentimentos

Do outro lado da história está Bernardo. Para Ricardo Rodriguez, o personagem representa uma realidade ainda muito presente entre os homens.

“Somos criados dentro de um sistema que ensina que demonstrar sentimentos é sinal de fraqueza. Acabamos virando pessoas que sentem muito, mas sem conseguir se expressar verdadeiramente dentro de uma relação.”

O ator acredita que esse bloqueio emocional afeta diretamente os relacionamentos: “Muitas vezes existe amor, existe cuidado, mas falta comunicação. A outra pessoa sente distância, silêncio e ausência, mesmo quando o sentimento está ali.”

Um homem em guerra consigo mesmo

Ricardo vê Bernardo como alguém que luta mais contra si próprio do que contra o fim do relacionamento: “Desde a primeira cena já vemos um conflito dele com ele mesmo.”

Segundo o ator, Bernardo vive preso em um estado permanente de estagnação: “Ele é um jovem que vive num limbo. Sem paixões, sem motivações e sem sonhos de uma carreira consolidada. Vive momento a momento, sem expectativas fora do relacionamento.”

Para Ricardo, essa crise interna é o que torna o personagem tão complexo: “Quando os problemas começam a ganhar forma, ele perde totalmente o chão. Porque além da crise da relação, o maior problema da vida dele finalmente se torna visível.”

Quando atuação e vida pessoal se encontram

O amor acaba ou apenas deixa de ser comunicado?

Essa é uma das perguntas centrais de C'est la vie, curta protagonizado por Gabi Lemos e Ricardo Rodriguez. Em entrevista ao Pittaplay, os atores falaram sobre relacionamento, vulnerabilidade e as dores de uma despedida. Foto: Telmo Maia.
O amor acaba ou apenas deixa de ser comunicado? Essa é uma das perguntas centrais de C’est la vie, curta protagonizado por Gabi Lemos e Ricardo Rodriguez. Em entrevista ao Pittaplay, os atores falaram sobre relacionamento, vulnerabilidade e as dores de uma despedida. Foto: Telmo Maia.

Durante a construção dos personagens, os dois atores encontraram conexões profundas com suas próprias experiências. 

Gabi admite que houve momentos em que já não sabia onde terminava a personagem e começava sua própria história: “Ainda hoje eu fico emocionada ao falar sobre algumas cenas. Parece que consigo acessar imediatamente o que ela sentia.”

Já Ricardo revela que interpretar Bernardo o colocou diante de dores pessoais relacionadas a experiências amorosas anteriores: “Por ter vivido decepção amorosa muito grande, a impotência de perceber que algo está escapando das suas mãos foi algo que me afetou profundamente.”

O ator resume a experiência em uma frase forte: “Bernardo me libertou de muitas dores.”

A confiança que transformou o roteiro

Uma das cenas mais importantes do filme nasceu da liberdade criativa dada aos atores.

Segundo Gabi, o roteiro serviu como base, mas a emoção ultrapassou o texto: “Existia roteiro, mas nós pedimos liberdade para viver aquele momento de forma mais orgânica.”

Ricardo atribui isso à conexão construída durante a preparação: “Nós criamos confiança muito grande no trabalho um do outro. Isso fez com que as cenas improvisadas fluíssem de maneira verdadeira.”

O ator explica que cada tomada podia seguir um caminho diferente: “Eu dizia a fala de uma forma, ela reagia. No take seguinte eu mudava a energia e ela respondia de outra maneira. Esse jogo de ação e reação foi ouro para contar a história.”

Para ambos, essa cumplicidade foi fundamental para construir a relação entre Aline e Bernardo.

Muito além de um projeto universitário

Mais do que uma história sobre término, C'est la vie é um retrato sobre tudo aquilo que deixamos de dizer quando ainda havia tempo. Foto: João Tude
Mais do que uma história sobre término, C’est la vie é um retrato sobre tudo aquilo que deixamos de dizer quando ainda havia tempo. Foto: João Tude

Produzido em parceria com a ESPM-RJ como projeto de conclusão de curso, C’est la vie impressionou os dois protagonistas pelo nível de profissionalismo encontrado no set: “Sinceramente, em nenhum momento eu senti que estava em um projeto amador”, afirma Gabi.

Ela elogia a direção de Nandini Segreto, o ambiente criado pela equipe e a estrutura técnica utilizada durante as filmagens.

Ricardo também destaca o comprometimento dos envolvidos: “Senti uma equipe que não queria apenas fazer mais um filme universitário. Existia uma vontade genuína de construir algo capaz de alcançar um patamar maior e circular por festivais.”

Para os dois, a experiência reforçou a ideia de que grandes histórias não dependem do tamanho da produção, mas da dedicação das pessoas que acreditam nela.

O amor nem sempre garante permanência

Ao refletirem sobre a principal mensagem de C’est la vie, Gabi e Ricardo chegam a um ponto em comum. O filme não fala sobre a ausência de amor. Fala sobre tudo aquilo que acontece quando o amor deixa de ser comunicado.

Para Gabi, a maior dor está em perceber que o sentimento ainda existe, mas já não é suficiente para sustentar uma relação: “A gente cresce acreditando que o amor é a resposta para tudo. Mas a vida adulta mostra que duas pessoas podem se amar profundamente e, ainda assim, não conseguirem mais caminhar na mesma direção.”

É essa a pergunta que permanece depois dos créditos. Quantas histórias terminam não porque o amor acabou, mas porque as palavras nunca chegaram a tempo?

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