A Nobreza do Amor chega aos 100 capítulos colhendo tudo o que plantou

A Nobreza do Amor ultrapassa os 100 capítulos mostrando força narrativa, personagens bem construídos e uma reta final preparada desde o início da novela. Foto: Estevam Avellar/Globo.

Foto: Estevam Avellar/Globo.

Ultrapassar a marca dos cem capítulos costuma ser um teste para qualquer novela. É nesse momento que muitos folhetins começam a repetir conflitos, acelerar revelações ou esgotar personagens que sustentaram a história desde o primeiro capítulo. Em A Nobreza do Amor, acontece justamente o contrário. A novela das seis da Globo chega ao início de sua reta final mostrando que compreende um princípio fundamental da dramaturgia: antes de colher grandes acontecimentos, é preciso construir as histórias que lhes darão sentido.

Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr. conduzem uma narrativa que respeita o tempo dramático de cada personagem. Em vez de concentrar todas as atenções apenas nos protagonistas, os autores distribuem a trama por diferentes núcleos, permitindo que cada um amadureça antes de assumir protagonismo em determinado momento da história. É esse equilíbrio que faz a novela manter força narrativa desde o começo e ultrapassar o capítulo 100 com fôlego para seguir até o fim.

O maior exemplo está em Tonho (Ronald Sotto) e Alika/Lúcia (Duda Santos). O casal foi construído com delicadeza, química e evolução emocional convincente. Mas o grande acerto dos autores foi não permitir que um existisse apenas em função do outro. Tonho possui seus próprios conflitos, começa a entender sua ancestralidade e isso por si só cria uma atmosfera própria pro protagonista da novela. Ele ainda enfrenta o ciúme de Mirinho (Nicolas Prattes), que começa a trama como seu melhor amigo, amadurece dentro da comunidade e encontra um caminho próprio como personagem. Alika, por sua vez, carrega o peso de sua verdadeira identidade, da disputa pelo reino de Batanga e das consequências de esconder quem realmente é, quando precisa sair fugida de seu reino. Quando se encontram, nasce uma terceira narrativa, que complementa as jornadas individuais sem anulá-las. É uma relação que fortalece os dois personagens justamente porque eles conseguem existir separados.

A mesma lógica aparece entre os antagonistas. Mirinho e Virgínia (Theresa Fonseca) não são vilões construídos apenas por suas maldades. Eles foram sendo compreendidos pelo público capítulo após capítulo. Mirinho talvez seja hoje o personagem mais complexo da novela. O ciúme doentio que sente de Tonho não nasce de um único acontecimento, mas de uma vida inteira marcada por comparações, frustrações e pela sensação constante de nunca ocupar o lugar que desejava. Nicolas Prattes construiu essa trajetória com consistência e faz do personagem alguém profundamente humano, ainda que suas escolhas o levem por caminhos moralmente condenáveis.

Virgínia segue uma trajetória semelhante. Theresa Fonseca interpreta uma personagem cuja ambição cresce à medida que suas certezas desmoronam. A descoberta do segredo envolvendo Diógenes (Danton Mello) não desperta nela empatia pela dor da mãe ou qualquer conflito moral. Pelo contrário, a personagem transforma a revelação em mais uma oportunidade de buscar vantagens para si mesma. Esse egoísmo progressivo fortalece sua condição de antagonista e torna suas decisões coerentes com tudo aquilo que foi desenvolvido desde o início da novela.

Enquanto isso, Jendal (Lazaro Ramos) permanece como a grande ameaça que conecta o universo de Batanga à narrativa principal. Lázaro constrói um vilão frio, estrategista e sempre movido pelo desejo de manter o poder conquistado por meio da manipulação e da violência. Embora esse núcleo pudesse ter recebido ainda mais espaço ao longo desta primeira parte da novela, sua evolução nunca perde coerência e prepara o terreno para conflitos ainda maiores na reta final.

Se os protagonistas e vilões sustentam a espinha dorsal da narrativa, os núcleos paralelos mostram outro grande mérito da novela. Eles nunca funcionam apenas como preenchimento entre uma sequência importante e outra.

Ana Maria (Julia Lemos) e Manoel (Daniel Rangel) transformaram uma trama aparentemente simples em uma das histórias mais carismáticas da novela. O romance cresce junto com seus personagens e faz o público torcer naturalmente pelo casal. Salma (Rayssa Bratillieri) talvez represente uma das evoluções mais bonitas do folhetim. Ela começa apaixonada por Tonho, compreende que esse amor não será correspondido, fortalece sua amizade com Alika e passa a enfrentar as tradições impostas por sua própria família. Ao seu redor, Fátima (Kika Kalache) leva às últimas consequências o desejo de preservar costumes familiares, chegando ao extremo de mentir sobre uma doença para controlar o destino da filha. Kika Kalache e Eduardo Mosrri, que interpreta Miguel, sustentam esse conflito com interpretações que tornam o embate familiar ainda mais crível.

Outro núcleo que cresceu silenciosamente foi o de Mundica, interpretada por Samantha Jones, que constrói personagem de enorme sensibilidade, enquanto Lucas Queiroga faz com que o romance entre Mundica e Ciço floresça de maneira gradual, respeitando o tempo emocional dos dois personagens.

Já a história de Diógenes talvez seja um dos melhores exemplos da confiança que os autores depositam na construção narrativa. Durante meses, o personagem foi apresentado como um marido íntegro e um pai exemplar. Pouco a pouco, o público descobriu a existência de Ritinha (Júlia Salarini), filha mantida em segredo durante anos, e percebeu que sua imagem escondia contradições profundas. Essa revelação não surgiu de forma repentina. Foi preparada cuidadosamente por pequenas pistas e ganhou ainda mais força graças ao trabalho de Raissa Xavier como Belmira, responsável por criar Ritinha. Agora que o segredo começa a ruir, os próximos capítulos prometem colher tudo aquilo que foi plantado desde o início.

Existe crítica recorrente de que A Nobreza do Amor desacelerou em determinados momentos. Talvez essa percepção diga mais sobre a forma como o público passou a consumir narrativas do que propriamente sobre a novela. Acostumados a séries que vivem de reviravoltas constantes, muitos espectadores esperam que acontecimentos decisivos ocorram diariamente. O folhetim clássico funciona de outra maneira. Ele alterna momentos de alta intensidade com períodos dedicados à reorganização da narrativa, permitindo que personagens amadureçam e que futuras revelações encontrem sustentação dramática.

É essa lógica que a novela respeita. Os protagonistas não precisam ocupar o centro absoluto da narrativa durante todos os capítulos. Eles respiram para que outros personagens cresçam, novos conflitos se desenvolvam e o universo da novela permaneça vivo. Quando retornam ao foco, suas histórias encontram um terreno muito mais rico do que encontrariam se todo o restante da trama permanecesse estagnado.

Essa construção encontra na direção artística de Gustavo Fernandez uma parceira fundamental. Sua encenação jamais tenta acelerar aquilo que o roteiro escolheu desenvolver com calma. A direção privilegia as interpretações, valoriza o tempo das cenas e preserva a identidade clássica das novelas das seis. Texto e direção caminham em sintonia, criando uma narrativa que nunca parece ansiosa para chegar ao destino, porque entende que a força da viagem está justamente no caminho percorrido.

Agora, com a segunda metade no ar, A Nobreza do Amor entra em sua fase mais decisiva sustentada por uma qualidade pouco vista na televisão contemporânea: a confiança na própria construção. Quando as grandes revelações finalmente acontecerem até o encerramento da novela, em novembro, dificilmente parecerão gratuitas. Cada romance, cada queda, cada confronto e cada segredo foram preparados com paciência ao longo de mais de cem capítulos. Em tempos de narrativas cada vez mais apressadas, o maior mérito da novela é lembrar que grandes histórias continuam sendo construídas passo a passo, sem deixar a peteca cair.

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