Autora e diretor de ‘Amor Sob Vigilância’ revelam desafios da novela vertical: ‘Uma história de obsessão alimentada pelo mundo virtual’

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Ecila Pedroso e Cristiano Marques falam sobre obsessão, fake news e os desafios de criar “Amor Sob Vigilância”.

Foto: Globo / Angélica Goudinho

O celular cabe na palma da mão, mas o universo que existe dentro dele já é capaz de atravessar relações, alimentar fantasias e transformar uma mentira em verdade para quem decide acreditar nela e é nessa fronteira cada vez mais difícil de separar que “Amor Sob Vigilância” encontra sua história.

A nova novelinha Original Globoplay estreia nesta terça-feira (15 de setembro) colocando um casal aparentemente estável diante de uma ameaça que começa nas telas, mas não demora a alcançar a vida real. Escrita por Ecila Pedroso, com direção artística de Cristiano Marques, a produção aposta no suspense psicológico para discutir obsessão, manipulação, fake news e as consequências de relações construídas ou distorcidas pelo ambiente virtual.

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, autora e diretor contam como transformaram essas questões em uma narrativa de episódios curtos, pensada desde a origem para o formato vertical e para um público acostumado a consumir histórias pelo celular.

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Quando a rede alimenta a obsessão

Para Ecila Pedroso, a ideia nasceu justamente da observação sobre a presença das redes sociais na vida contemporânea e da capacidade desse ambiente de potencializar comportamentos que já existem fora dele: “Brinco que hoje a rede social virou um dos ‘cavaleiros do apocalipse’, porque as pessoas criam fantasias e passam a acreditar nelas como reais. A trama nasce desse lado negativo: quando a tecnologia intensifica comportamentos obsessivos”, explica.

A autora também aproxima a história de discussões que ultrapassam o universo digital: “A novela toca em temas muito atuais, como separação, obsessão e até o crescimento do feminicídio, mostrando como essas questões estão presentes na sociedade hoje.”

No centro desse jogo estão Mariana (Malu Rodrigues) e Daniel (Dudu Azevedo). Ela é advogada; ele, chef de cozinha e empresário. Os dois começam a história como um casal aparentemente ideal, até terem a relação atacada por mentiras, montagens e manipulações.

Cristiano Marques observa que existe uma estrutura bastante conhecida pelo público por trás da roupagem contemporânea: “É uma história clássica de um casal apaixonado que tem o amor colocado à prova por armações de vilões. A diferença é que tudo acontece dentro de um universo extremamente contemporâneo e digital. Os antagonistas usam fake news, montagens e manipulações online para separar o casal, com ameaças que ultrapassam o ambiente virtual e ganham consequências reais.”

Vilões que nascem de conflitos contemporâneos

Se Mariana e Daniel precisam descobrir até onde a confiança entre os dois consegue sobreviver, os antagonistas representam diferentes ameaças que cercam essa relação.

Laura, vivida por Bella Piero, desenvolve uma obsessão por Daniel e interpreta interações virtuais como sinais de uma relação que existe, sobretudo, em sua própria fantasia. Rodrigo, personagem de Miguel Rômulo, é o ex-noivo de Mariana e utiliza conhecimentos de marketing digital para manipular informações. Os dois contam ainda com Isabela (Jade Mascarenhas), prima de Mariana: “Os vilões são bem claros: a Laura representa a obsessão alimentada pelo mundo virtual, e o Rodrigo simboliza um machismo que resiste na sociedade, o homem que não aceita o fim da relação”, analisa Ecila.

Enquanto os antagonistas avançam, são justamente as rachaduras provocadas por eles que fazem os protagonistas deixarem a aparente perfeição do início. “Mariana e Daniel começam como um casal ideal e sem conflitos, mas, ao enfrentar esses vilões, passam por uma crise real, descobrem fragilidades e evoluem”, completa a autora.

Uma página, poucos minutos e um novo gancho

Contar essa história em uma novelinha vertical exigiu também outra lógica de escrita. Se uma novela tradicional permite que determinadas situações sejam desenvolvidas durante cenas mais longas, o microdrama precisa condensar acontecimentos e, ao mesmo tempo, criar motivos para que o espectador imediatamente avance para o próximo episódio.

Para Ecila, esse foi um dos principais desafios do processo: “O maior desafio foi aprender a condensar a história, tirando toda a ‘gordura’ e indo direto ao ponto com capítulos de uma página. E o gancho no final de cada episódio é o grande segredo e a grande dificuldade. Ele precisa surgir da própria história para fazer o público querer ver imediatamente o próximo episódio.”

Cristiano reconhece que a velocidade muda também a maneira de trabalhar a densidade dramática. A solução foi não abrir mão dela, mas distribuí-la de outra maneira: “O ritmo impõe desafios, pois não dá para trabalhar com cenas longas ou muito sutis como na novela tradicional. Mas isso não significa perder profundidade; nós construímos essa densidade fragmentando as cenas e criando ganchos internos para prender a atenção o tempo todo.”

Quando o celular muda até o cenário

A verticalização não interfere apenas na duração dos capítulos. Ela modifica a própria composição da imagem. Com longa experiência no audiovisual tradicional, Cristiano Marques explica que a equipe ainda descobre possibilidades e particularidades dessa linguagem: “É um processo que ainda estamos descobrindo. No enquadramento vertical, elementos como chão e teto aparecem muito mais, o que dá novo protagonismo à cenografia, aos figurinos e aos detalhes de cena.”

Apesar de criada para ser assistida principalmente pelo celular, “Amor Sob Vigilância” não foi gravada com smartphones. “Não estamos filmando com celular, mas com um setup de câmera mais leve. Como o conteúdo é pensado para telas menores, ajustamos os recursos técnicos sem comprometer a qualidade narrativa”, explica o diretor.

É mudança que acontece diante e atrás das câmeras: escrever de outra maneira, enquadrar de outra maneira e compreender um espectador que também passou a assistir de outra maneira.

‘É um formato que veio para ficar’

Para Ecila Pedroso, a expansão das novelas verticais acompanha uma transformação que já aconteceu no comportamento do público. Se o celular ocupa cada vez mais espaços do cotidiano, a dramaturgia começa a disputar também esses minutos: “É um formato que veio para ficar. O consumo mudou completamente. As pessoas estão o tempo todo no celular assistindo a vídeos curtos. As novelas verticais cabem exatamente nesse tempo e nesse ritmo de vida, oferecendo uma narrativa ágil, intensa e muito emocional.”

“Amor Sob Vigilância” chega, portanto, experimentando uma linguagem nova sem abandonar uma estrutura conhecida da dramaturgia: existe amor, existem vilões e existe um casal que precisa sobreviver às armações colocadas em seu caminho. O que muda é o lugar de onde parte a ameaça. Agora, uma mentira pode ser criada, editada, compartilhada e transformada em realidade sem que seja preciso sair da tela.

Os sete primeiros capítulos estarão disponíveis também para não assinantes no Globoplay.

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