Há um instante em que Beth Goulart para de falar sobre Clarice Lispector e parece atravessada por ela. Não é imitação. Não é reverência performática. O que acontece ali é mais perigoso: uma atriz que, depois de 16 anos convivendo com a obra, já não consegue separar completamente a personagem da própria experiência humana.
O retorno de Simplesmente eu, Clarice Lispector a São Paulo carrega justamente essa sensação. A peça estreia no Teatro Moise Safra no dia 8 de maio depois de atravessar quase duas décadas, quatro temporadas recentes no Rio de Janeiro, mais de 100 apresentações apenas em 2025 e público que ultrapassa 1,3 milhão de espectadores em 298 cidades brasileiras.
Mas os números não explicam o espetáculo. Beth sabe disso. Clarice também saberia: “Clarice não se explica. Ela se sente”. A frase aparece durante a conversa com a coluna Cena Aberta, do Pittaplay, quase como síntese involuntária de tudo o que move a montagem. Porque o espetáculo nunca se interessou em transformar Clarice Lispector numa linha cronológica. Não existe compromisso com a biografia tradicional. O palco trabalha outra coisa: estados emocionais, epifanias, silêncio, memória e sensações físicas.
Uma Clarice construída pela sensação, não pela biografia

Beth construiu o espetáculo a partir de depoimentos, entrevistas, correspondências e fragmentos de obras emblemáticas da autora, como Perto do Coração Selvagem, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, além dos contos Amor e Perdoando Deus.
No palco, Clarice se mistura a quatro mulheres. Joana, que carrega o impulso criativo selvagem. Ana, do conto Amor, atravessada pela rotina doméstica e pelo choque interno. Lori, mulher que aprende a se abrir emocionalmente para o amor. E uma personagem sem nome, marcada pela ironia e pelo humor que Beth insiste em resgatar da obra clariceana.
“Poucas pessoas falam do humor na obra de Clarice, mas a Clarice tinha um humor muito específico, inteligente, de quem ri de si mesmo”, conta a atriz.
É justamente essa multiplicidade que sustenta a encenação. Beth troca figurinos diante do público, atravessa um cenário formado por fitas brancas, desloca objetos, transforma gestos em códigos visuais e constrói dinâmica que se aproxima muito mais de experiência sensorial do que de uma representação tradicional.
“Quando proponho a epifania do Jardim Botânico, do conto ‘Amor’, proponho que o público vivencie junto com a personagem essa epifania. Então o espetáculo é extremamente sensorial”.
A cenografia minimalista assinada por Ronald Teixeira e Leobruno Gama, a iluminação de Maneco Quinderé e a trilha sonora original de Alfredo Sertã trabalham justamente para criar esse espaço quase onírico onde Clarice e suas personagens parecem existir simultaneamente.
Beth passou dois anos pesquisando profundamente a autora antes da estreia em 2009. Depois disso, mergulhou em seis meses intensos de preparação vocal com Rose Gonçalves até encontrar o ritmo interno de cada mulher presente na peça: “Fui descobrindo a voz de cada personagem, a energia de cada personagem, a maneira da Clarice falar”.
O trabalho de composição não se apoia em caricaturas. Pelo contrário. Beth fala sobre a necessidade de construir continuidade emocional entre as personagens, sem transformar as transições em algo mecânico: “Eu crio códigos com o público”.
Existe rigor técnico muito evidente quando ela explica o espetáculo. A atriz fala da encenação quase como alguém descrevendo algo muito peculiar: “O espetáculo tem quase uma partitura física. Ele é todo desenhado”.
Quando a atriz precisou silenciar a diretora

Essa precisão aparece também na maneira como Beth organizou suas múltiplas funções dentro da montagem. Além de interpretar Clarice, ela assina adaptação, concepção e direção do espetáculo: “A primeira coisa que fiz foi a dramaturgia. A partir dela, a direção entrou em cena”.
Mesmo assim, a atriz revela que precisou aprender a desligar a diretora durante o processo de atuação para conseguir experimentar livremente: “Eu precisava me permitir errar. Se eu começasse a controlar tudo pelo lado de fora, não ia me permitir experimentar do lado de dentro”.
Em determinado momento dos ensaios, Beth percebeu que estava usando gestos em excesso. A solução não veio de teoria. Veio da observação do próprio corpo gravado em cena: “Eu falei: ‘Não, você tem muito gesto, não precisa disso aqui’. Aí comecei a escolher quais gestos me interessavam”.
O espetáculo amadureceu junto com Beth Goulart

O tempo também transformou profundamente o espetáculo. Depois da estreia, Beth interrompeu a peça por quase uma década. Primeiro por causa da doença e da morte do pai. Depois pela dedicação ao espetáculo Perdas e Ganhos, a partir do livro de Lya Luft, quando dirigiu sua mãe, Nicette Bruno. Em seguida vieram a pandemia e a perda da mãe.
O reencontro com Clarice aconteceu num outro estado emocional: “Hoje, quando falo sobre a morte, falo tendo vivido isso. É um outro lugar”.
A atriz reconhece que a maturidade aproximou sua leitura da escritora: “Eu acho que hoje estou mais perto da Clarice do que quando eu estreei a peça”. Não porque o espetáculo tenha mudado radicalmente visualmente. As transformações são internas: “Talvez eu tenha perdido agilidade, velocidade. Mas ganhei outras qualidades”.
Durante a conversa, Beth também falou sobre a força inesperada que encontrou nas redes sociais durante o processo de adoecimento da mãe. Ela percebeu que pequenos vídeos e reflexões publicados no Instagram acabavam alcançando pessoas fragilizadas emocionalmente: “Às vezes você dividir pequenos momentos de reflexão pode ajudar as pessoas”.
A fala surge sem tom professoral. É quase um comentário íntimo sobre comunicação humana: “De alguma forma, nós somos instrumentos para transmitir positividade, esperança, otimismo e resiliência”.
A entrevista ainda passou pela experiência da atriz em Tudo Por Uma Segunda Chance, primeira novela vertical da Globo. Beth analisou como cada linguagem exige um corpo diferente do ator: “No teatro, o corpo inteiro fala e você lida com o espaço. Na televisão, você minimiza tudo. No cinema, mais ainda. Você interioriza tudo”.
Ela conta que aceitou o projeto tanto pela curiosidade diante do novo formato quanto pela vontade antiga de trabalhar com o diretor Adriano Melo: “Gosto de desafios, de aprender coisas novas”.
Mas é impossível sair da conversa sem perceber que tudo volta para Clarice. Inclusive os novos projetos da atriz. Beth revelou que prepara dois trabalhos inéditos ligados ao universo clariceano: um na literatura e outro no cinema.
“São filhotes do ‘Simplesmente Eu, Clarice Lispector’, mas em linguagens diferentes”. O retorno da peça a São Paulo ainda ganha camada extra com a Mostra Entre Ela e Eu, exposição inédita na capital paulista que mergulha no processo de criação do espetáculo.
“O teatro é a arte da humanidade”

No fim da entrevista, Beth resume aquilo que gostaria que o público levasse para casa depois da sessão: “Não tenha medo de olhar para dentro de si mesmo. Porque lá está quem você é. A sua essência”.
Talvez seja justamente isso que mantém Simplesmente eu, Clarice Lispector vivo depois de tantos anos. Beth Goulart não tenta transformar Clarice em monumento. Ela devolve humanidade à autora. E faz isso sem gritar, sem excesso, sem explicações fáceis. Apenas deixando que a palavra respire.
Antes de encerrar, a atriz ainda faz convite que soa quase como defesa do próprio teatro em tempos acelerados: “O teatro é a arte da humanidade. Nós precisamos valorizar o que é humano em nós”.
