Diário de Leitura #3 | Em Todos os Lugares — A garagem de Felipe Sato

Uma garagem. Uma banda. Uma bicicleta. E dois garotos que ainda não sabem nomear aquilo que sentem. O terceiro capítulo de Em Todos os Lugares é um retrato sensível das primeiras descobertas emocionais de Pedro e Caio.

Existem capítulos que fazem a história avançar e os que fazem os personagens respirarem. A garagem de Felipe Sato pertence ao segundo grupo.

Depois de um capítulo dedicado a aprofundar Pedro e apresentar novos núcleos, Thainá Toffo volta sua atenção para aquilo que, desde o início, parece ser o coração da narrativa: a relação entre Pedro e Caio. Mas ela faz isso sem pressa e essa é a maior qualidade da autora até aqui.

O capítulo começa com Pedro e sua mãe. É uma abertura simples, mas carregada de significado. Aos poucos, vamos entendendo como Pedro enxerga a família e, principalmente, o carinho profundo que sente pela mãe.

É uma relação construída com delicadeza, sem discursos grandiosos e cenas excessivamente dramáticas. Apenas através do afeto cotidiano e isso funciona.

Enquanto lia, outra escolha narrativa chamou minha atenção. Não sei se foi totalmente intencional, mas é uma daquelas decisões que enriquecem a experiência de leitura. As cidades nunca parecem ter nome completo.

Pedro mora em B. Seu pai está trabalhando em C. Ele já viveu em T.

Pode parecer um detalhe pequeno, mas não é. Ao transformar cidades em letras, Thainá cria uma sensação curiosa de deslocamento. Como se Pedro pudesse estar em qualquer lugar e, ao mesmo tempo, muito longe de todos os lugares que importam. Especialmente de Guilherme.

É uma solução elegante para reforçar um dos temas centrais da história: distância. Não apenas geográfica, mas emocional também.

O capítulo segue aprofundando outro aspecto que considero um dos maiores acertos do livro até agora: a relação dos personagens com suas famílias.

Já entendemos como Pedro se sente dentro de casa. Agora passamos a enxergar Bernardo, Felipe e Caio sob essa mesma lente. Bernardo, que muitas vezes parece ríspido, revela um ambiente familiar afetuoso. Caio demonstra uma convivência saudável com os pais. Felipe, por outro lado, transmite a ausência desse acolhimento.

É um detalhe importante porque ajuda a construir a identidade emocional de cada personagem. Nenhum deles existe apenas para cumprir uma função na trama. Todos parecem carregar histórias anteriores ao momento em que os conhecemos e isso os torna mais reais.

Na escola, Pedro continua fugindo. Não de Caio, mas daquilo que Caio desperta nele. Depois da conversa do capítulo anterior sobre meninas ou meninos, Pedro evita qualquer aproximação. Passa por Caio fingindo não vê-lo. Mas Caio não desiste. Ele o procura pelos corredores, o intercepta e tenta entender o que aconteceu.

Pedro continua negando. Nega a conversa, os sentimentos, a banda. Nega tudo. Até que chega outra carta e aqui preciso destacar novamente como a troca de correspondências entre Pedro e Guilherme é uma das melhores ideias da autora.

As cartas cumprem várias funções ao mesmo tempo, pois aprofundam uma amizade que existe antes do início da narrativa.

Permitem que conheçamos os pensamentos mais íntimos de Pedro e oferecem ao leitor ferramentas para compreender suas próximas escolhas. Quando Guilherme escreve que “tentar é a única coisa que podemos fazer”, a frase parece simples, mas funciona como empurrão, incentivo, autorização para viver.

E Pedro finalmente decide aceitar. É nesse momento que o capítulo encontra seu verdadeiro título. Pedro chega à garagem de Felipe Sato, conhece o espaço da banda e também conhece melhor Bernardo, enfrenta as primeiras provocações e canta.

Quando canta, tudo muda. A resistência desaparece. Felipe o quer na banda. Bernardo o quer na banda. A música fala por ele quando as palavras ainda não conseguem. Mas o que realmente importa acontece nos intervalos. Nos silêncios. Nos olhares. Nos momentos em que Pedro e Caio ficam sozinhos.

Existe um clima evidente entre os dois. Um magnetismo que nenhum deles compreende completamente. Pedro foge e Caio observa. Nenhum dos dois sabe nomear aquilo que está acontecendo.

E justamente por isso a construção funciona tão bem. Não parece um romance sendo escrito, mas um sentimento surgindo.

Devagar.

Confuso.

Natural.

A sequência final da bicicleta resume perfeitamente o capítulo. Caio leva Pedro para casa e sorri o caminho inteiro. Aliás, a cena da bicicleta mostra que a autora bebe da fonte de grandes clássicos LGBTQIA+ que exploram este clichê que não fica velho e nem plagiável. É uma cena necessária e que pertence muito ao romance clássico e que arranca sorrisos de quem lê.

Pedro se sente confortável ao seu lado. Não existem declarações. Não existem beijos ou promessas. Existe apenas a sensação de que estar perto um do outro faz bem. E às vezes é exatamente assim que as grandes histórias de amor começam.

Não com certezas. Mas com a vontade de prolongar um caminho que poderia terminar mais cedo. O capítulo termina com mais uma carta para Guilherme.

Mais uma confissão disfarçada e uma tentativa de organizar sentimentos que ainda não possuem nome.

E, ao fechar o livro, fiquei com a impressão de que Thainá Toffo compreende algo fundamental sobre romances. O leitor não se apaixona quando os personagens se beijam. O leitor se apaixona antes.

Na bicicleta.

Nos olhares.

Nas cartas.

Nos momentos em que duas pessoas ainda não sabem que estão mudando a vida uma da outra. A garagem de Felipe Sato é exatamente sobre isso: o instante delicado em que um sentimento começa a existir antes mesmo de ser reconhecido.

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