Foto: Eduardo Chamom
Eliane Giardini e Marcos Caruso entram em cena com o carisma no alto. Bastam os primeiros minutos de Intimidade Indecente para entendermos que estamos diante de dois atores que conhecem profundamente a comédia e sabem exatamente como conduzir uma plateia.
A experiência de ambos nos palcos e no audiovisual está ali, mas não como demonstração de currículo. Está no domínio do tempo, da pausa, da palavra e da resposta ao outro.
Eliane engrandece o palco e toma a atenção para si. Marcos faz exatamente o mesmo. Curiosamente, isso não cria disputa. O espectador não precisa decidir para quem olhar porque os dois estão fundidos em cena. Não há quem fale mais alto, quem procure sobressair ou quem sirva apenas de escada.
Caruso e Giardini tornam-se um só. Como artistas e como personagens e isso é fundamental para uma história sobre duas pessoas que decidem se separar, mas descobrem que terminar um casamento não significa necessariamente conseguir retirar alguém de sua vida.

Foto: Ricardo Brajterman
Envelhecer diante do público
A grande sacada de Intimidade Indecente está também no tempo.
Conhecemos esse casal já por volta dos 60 anos e acompanhamos seu envelhecimento até o fim da vida. Nesse percurso, eles se separam, reencontram-se, experimentam outras possibilidades, redescobrem a sexualidade e percebem que desejo, amor e vontade de viver não possuem prazo de validade.
A representatividade é poderosa nessa escolha, mas a maneira como esse envelhecimento acontece torna tudo ainda mais impressionante.
Não são grandes transformações de maquiagem ou figurino que anunciam a passagem dos anos. São os atores.
O corpo muda, a envergadura se transforma, a voz encontra outra tonalidade e a respiração ganha outro ritmo.
Diante dos nossos olhos, Eliane e Marcos envelhecem seus personagens por meio da composição física. O tempo passa porque seus corpos nos fazem acreditar que passou. É atuação em estado puro.

Foto: Eduardo Chamom
Quando a gargalhada encontra a finitude
Intimidade Indecente também compreende algo que nem sempre encontramos em histórias sobre envelhecimento: chegar à velhice não significa deixar de desejar.
Essas personagens ainda amam. Ainda fazem sexo. Ainda brigam. Ainda querem experimentar. Ainda podem descobrir coisas sobre si mesmas e isso faz com que a peça seja representativa para quem está nessa faixa etária, mas necessária também para quem ainda chegará até ela.
Caruso e Giardini precisavam levar esse espetáculo para todos verem porque existe algo profundamente bonito na plenitude com que a peça encara a única certeza compartilhada por todos nós: a vida acaba.
E não existe morbidez nisso, pelo contrário, existe liberdade.
O público gargalha durante praticamente todo o espetáculo. Marcos e Eliane dominam a comédia e sabem arrancar o riso sem diminuir seus personagens. Só que, quando a peça se aproxima do fim, algo muda.
Você percebe que passou aquele tempo inteiro rindo de duas pessoas aprendendo a viver enquanto envelheciam.
E este é o acerto mais profundo de Intimidade Indecente.
Você entra no teatro para gargalhar de um casal que não consegue se desvincular. Sai entendendo que aquelas risadas nasceram de uma das reflexões mais íntimas que podemos fazer: se a vida inevitavelmente termina, que privilégio é chegar ao fim ainda querendo vivê-la.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
