Foto: Globo / Angélica Goudinho
Isabela não precisa encontrar uma maneira de entrar na vida de Mariana para destruí-la. Ela já está dentro, frequenta sua casa, conhece sua intimidade e ocupa um lugar que deveria significar confiança. Em Amor Sob Vigilância, nova novela vertical do Globoplay, é dessa posição privilegiada que a personagem interpretada por Jade Mascarenhas participa de uma conspiração contra a própria prima.
Falsa, ambiciosa e sem escrúpulos são definições que ajudam a apresentar a personagem, mas interessam menos a Jade do que descobrir o que existia antes delas. Para construir Isabela, a atriz procurou a mulher que se perdeu entre o vício em jogos de azar, as dívidas, a ansiedade e a necessidade crescente de conseguir dinheiro.
“A primeira coisa é que nenhum vilão vira vilão do nada, então o que aconteceu antes? Isabela vive em constante ansiedade e fissura por causa do vício em jogos de azar. Isso torna toda a pesquisa da personagem muito interessante, porque as motivações dela partem desse lugar, vício e problemas com dinheiro”, conta Jade ao Pittaplay.
A personagem, segundo ela, sequer reconhece a dimensão do próprio problema. Quanto mais suas atitudes se tornam graves, maior também parece ser sua necessidade de negar aquilo que está acontecendo: “Dá pra ver que tem uma garota ali, uma menina mulher que se perdeu. Tem algo de tão depressivo que chega a ser risível na forma como ela escalona ao longo da narrativa ao mesmo tempo em que nega cada vez mais ter um problema.”
Compreender Isabela sem absolvê-la
Encontrar a fragilidade por trás de uma personagem capaz de escolhas cruéis cria um desafio importante para a interpretação: compreender não pode significar justificar. Jade parte daquilo que Isabela poderia ter sido antes de passar a organizar sua vida em torno das dívidas e das apostas.
“Por trás de todo viciado existiu alguém antes da doença, assim como por trás de toda pessoa desesperada por dinheiro existe alguém que só quer paz. O desafio de personagens assim é não deixar suas sombras o definirem por completo.”
Essa contradição se torna ainda mais forte porque a personagem não conspira contra uma desconhecida. Isabela engana alguém com quem mantém um vínculo familiar e transforma o acesso que possui à vida de Mariana em ferramenta para prejudicá-la. Para Jade, interpretar esse movimento permite trabalhar em uma região na qual afeto e falsidade precisam existir ao mesmo tempo.
“Toda contradição é muito deliciosa pro ator. A gente aprende como vontade e contravontade. Trabalhar nesse limiar é sempre muito mais rico do que quando as coisas são óbvias e literais.”
Isabela frequenta a casa da prima enquanto, longe dela, conspira contra seu casamento e sua saúde financeira. Jade reconhece na personagem a figura clássica do “duas caras”, mas encontra suas melhores possibilidades quando essa máscara perde força e permite enxergar a vulnerabilidade escondida por trás das ações: “Ao contrário dos outros vilões da trama, acho que Isabela tem redenção clara, pois desde o início fica evidente que ela precisa de ajuda e é boa pessoa.”
Quando a intimidade passa a ter preço
As dívidas fazem com que Isabela atravesse outra fronteira ao transformar informações de alguém próximo em mercadoria. Para Jade, a motivação financeira torna a traição ainda mais complexa, principalmente porque a personagem chega a dever dinheiro a agiota e passa a enxergar na própria prima uma possibilidade de escapar da situação em que se colocou.
“Então decide jogar a prima aos lobos. É complexo porque se a pessoa decide se expor por si só, acho que tudo bem. O problema é ser tirado da caixa sem querer, ou ter que rebater mentiras.”
A discussão também encontra ecos fora da ficção. Para a atriz, existe um paradoxo na exposição pública: alguém pode escolher compartilhar partes da própria vida, mas essa escolha não significa entregar a terceiros o direito de decidir quais outras partes também serão reveladas: “Esse é o paradoxo de quem trabalha se expondo muito, estar disposto a anunciarem seus altos, mas também seus baixos.”
Uma personagem precisa caber em poucos minutos sem ficar menor
A velocidade das novelas verticais cria outro desafio para Jade. Com capítulos curtos e acontecimentos que precisam avançar rapidamente, há menos tempo para explicar ao espectador quem é uma personagem. Para ela, no entanto, rapidez não deve ser confundida com superficialidade.
“Numa obra desse tamanho tudo tem que ser entregue rápido, o que não significa superficial. Sempre fui acostumada a gravar conteúdo para internet, então o timing veio, mas a direção do Cristiano Marques foi certeira nesse ponto porque ele não teve pressa de filmar. Acredito que na edição fique tudo mais rápido.”
O próprio roteiro ajuda a revelar diferentes versões de Isabela sem depender de longas explicações. Jade percebe uma mudança clara de intenção conforme a personagem troca de ambiente e de interlocutor: “Quando ela está com a prima, é uma, quando está no QG dos vilões, outra, e quando está sozinha apenas com os demônios da sua cabeça, outra.”
São essas mudanças que permitem à atriz apresentar as contradições de Isabela mesmo dentro da agilidade exigida pelo formato. O público precisa perceber rapidamente quem está diante dele, mas isso não significa que precise receber uma personagem pronta e facilmente decifrável.
A mentira precisa ser verdadeira

Jade também não procura tornar Isabela agradável para conquistar o público: “Deus me livre querer que todo mundo goste da personagem. Já não exijo que todos gostem de mim”, brinca. O interesse está no incômodo produzido por alguém capaz de atravessar limites enquanto acredita estar respondendo a uma necessidade cada vez mais urgente.
Para sustentar essa mulher, a atriz parte de uma pergunta que acompanha seus trabalhos: o que a personagem quer? Com Isabela, a resposta estava presente desde o começo: “Ela quer dinheiro, tanto pra se livrar das dívidas, quanto pra continuar sustentando seu vício. Mentir se torna necessário dentro da sua motivação.”
É nesse ponto que surge um dos jogos mais interessantes da interpretação. Isabela precisa mentir para Mariana sem parecer estar mentindo para ela, enquanto Jade precisa permitir que o espectador perceba exatamente o contrário. A verdade da atuação está, portanto, em sustentar convincentemente a mentira da personagem: “O risco é sempre ficar óbvio para o outro personagem que você está mentindo. Tem que ficar claro para o público, somente.”
Depois de atravessar esse jogo de máscaras, Jade saiu de Amor Sob Vigilância interessada em continuar explorando personagens que não chegam à tela para serem facilmente amadas. Isabela lhe deu liberdade para acessar um lugar menos simpático e encontrar possibilidades onde comportamento, fragilidade e escolhas ruins convivem: “Tenho vontade de fazer mais vilãs, a Isabela me deu liberdade pra explorar um lugar menos simpático e esses personagens problemáticos me interessam muito.”
No fim, Jade resume sua experiência com uma pergunta que também ajuda a compreender por que Isabela não cabe apenas na definição de vilã: “Como trazer humanidade pra um lugar com tanta sombra? É isso que me move.”
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
