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Existe uma parte da profissão de ator que permanece fora do alcance de qualquer preparação. É possível estudar, treinar, fazer testes e construir repertório, mas, em algum momento, outra pessoa precisa decidir quem ficará com o papel. Lucas Amorim continua participando desse processo e deseja integrar projetos de outros realizadores, porém escolheu não deixar toda a sua carreira condicionada a essa espera.
Nos últimos anos, passou a escrever, dirigir e produzir, acumulando funções que ampliaram sua relação com o audiovisual. Entre os projetos dessa fase está o curta-metragem Favela, da The Seven Films, no qual assina o roteiro, protagoniza e divide a direção com Thiago Dornelles. Também prepara De Volta Pra Casa, longa escrito, dirigido, produzido e protagonizado por ele: “Em algum momento eu percebi que não queria depender exclusivamente de alguém me escolher para conseguir trabalhar. Então comecei a criar as minhas próprias oportunidades também”, conta Lucas em entrevista exclusiva ao Pittaplay.
Essa autonomia, porém, não representa um rompimento com a atuação nos moldes tradicionais. “Continuo fazendo testes, continuo querendo trabalhar em projetos de outras pessoas e, quando aparece uma oportunidade, vou dar o meu máximo. Só que, ao mesmo tempo, eu quero continuar tendo os meus projetos. Prefiro ter várias frentes do que deixar minha carreira depender exclusivamente de alguém me escolher.”
Quando o ator escreve o personagem que gostaria de interpretar
Assumir a autoria dos próprios projetos também colocou Lucas diante de uma questão delicada: como escrever para si sem transformar o filme em uma vitrine para o ator?
Ele admite que existe prazer em criar papéis que gostaria de viver, mas estabelece uma regra para o processo. “O personagem precisa servir à história, e não a história existir só porque eu quero interpretar aquele personagem.”
A criação acaba funcionando também como provocação para seu trabalho diante das câmeras. Lucas procura personagens que exijam novas habilidades, preparação física ou outras maneiras de pensar. É desse interesse que nasce Neto, protagonista de Favela.
No curta, ele interpreta um policial novato que enfrenta uma situação extrema ao lado de Lacerda, agente mais experiente vivido por Marcelo Campos. Um morador interpretado por Victor Martins entra no ambiente em que os dois policiais estão durante um confronto, colocando em choque diferentes formas de reagir à possível ameaça.
Lucas evita definir Neto pela posição aparentemente mais moderada que ele assume no início. “Não posso dizer que ele não seja violento também, porque a maneira como ele reage à situação também é violenta. Talvez menos do que o Lacerda, interpretado pelo Marcelo Campos, que é um policial muito mais experiente, mas ele também está dentro daquele conflito.”
A construção passa pela mudança de percepção do público conforme a situação avança. “Ele não necessariamente toma a decisão ‘certa’. Na verdade, os três personagens são falhos. O que mais me interessa no Neto é ver como ele reage quando a situação chega no limite e como a nossa percepção sobre ele vai mudando. Tem uma quebra ali e talvez ele não seja exatamente o ‘bonzinho’ que você imaginou no começo.”
Favela e a responsabilidade de entrar em um conflito social

Ao trabalhar com violência policial e a relação entre agentes de segurança e moradores de uma comunidade, Lucas e Thiago Dornelles discutiram como conduzir o conflito sem resumir os personagens a posições previamente estabelecidas: “Por ser um tema tão complexo, eu e o Thiago Dornelles, que codirige comigo, tivemos esse cuidado de não fazer simplesmente um personagem certo e outro errado.”
O ponto de partida foi construir três pessoas capazes de tomar decisões questionáveis dentro de uma estrutura que Lucas também considera falha. A preocupação se estendeu à própria utilização da favela e da violência na narrativa: “A nossa responsabilidade era justamente não usar aquilo só como cenário, sabe? Não pegar violência policial, favela, tudo isso, só porque visualmente ou dramaticamente é interessante. Tinha que existir uma história ali.”
Lucas prefere que parte da conclusão permaneça com o espectador. “A gente não fez o filme para dizer para o público ‘esse aqui está certo, esse aqui está errado’. A percepção dos personagens muda durante o filme e eu prefiro deixar uma parte desse julgamento para quem está assistindo.”
“Cinema independente é tudo menos independente”
Lucas começou a escrever, dirigir e produzir em 2021. A experiência modificou principalmente sua compreensão sobre o tamanho de uma produção e sobre a quantidade de profissionais envolvidos para que aquilo que chega à tela seja possível: “Quando você conhece os outros departamentos, entende ainda mais que o ator é uma parte de um negócio gigantesco. Tem muita gente fazendo aquilo acontecer.”
A experiência também fez surgir uma definição que resume o que aprendeu nos últimos anos: “Cinema independente é tudo menos independente. Você depende do editor, da câmera, do figurino, da arte, de quem prepara a comida, dos atores, de todo mundo. Cinema é trabalho em equipe.”
O acúmulo de funções, para Lucas, é uma escolha pessoal e não uma obrigação que deveria ser imposta a qualquer ator. Ele reconhece as dificuldades do mercado, mas prefere concentrar energia nas ferramentas que possui para continuar trabalhando: “Também não acho que um ator tenha que virar produtor, roteirista ou diretor para conseguir ser ator. Só acho muito difícil hoje você ficar parado esperando uma oportunidade aparecer.”
Nesse processo, a internet ganhou duas funções em sua trajetória. Tornou-se fonte de renda e espaço para apresentar diferentes partes de seu trabalho, da rotina de preparação às habilidades estudadas para novos personagens. “Continuo querendo as oportunidades tradicionais como ator, lógico. Só não quero ficar parado enquanto elas não chegam. Se eu posso criar alguma coisa, eu prefiro criar.”
Esforço também tem um limite
Parte dessa experiência profissional deu origem ao Study, Shape & Acting, comunidade e curso da Lucas Amorim Academy. A metodologia organiza a proposta em três pilares: estudo e conhecimento, preparação e cuidado com o corpo e ação diante dos próprios objetivos.
Lucas, porém, reconhece um limite importante para qualquer discurso baseado exclusivamente em esforço individual: “Então não tem essa ideia de que ‘se você não conseguiu é porque não se esforçou o suficiente’. Eu não acredito nisso.”
Na atuação, ele encontra um exemplo bastante concreto. “Você pode ser extremamente talentoso, estudar, se preparar, trabalhar muito e mesmo assim não ter determinada oportunidade. Tem parte dessa profissão que simplesmente não depende de você. Você precisa ter acesso ao teste e alguém precisa escolher você, simples.”
Por isso, a proposta do Study, Shape & Acting está concentrada naquilo sobre o qual cada participante consegue interferir. A ideia nasceu da própria rotina do ator, constantemente levado pelos personagens a estudar assuntos, desenvolver habilidades e experimentar situações diferentes. A comunidade amplia essa experiência para pessoas com objetivos profissionais e pessoais que não precisam estar ligados ao meio artístico.
O tamanho da oportunidade e o tamanho da experiência
Depois de criar projetos próprios e ocupar diferentes posições no set, Lucas também passou a rever sua relação com a ideia de sucesso. Para ele, fama deixou de ser uma medida possível para aquilo que pretende construir: “Não estou nessa profissão porque quero ser famoso. Eu quero fazer aquilo que eu amo, pagar minhas contas e continuar criando.”
A atuação permanece no centro dessa escolha: “Criar personagens me mantém vivo. Me dá objetivo, me tira da zona de conforto, me obriga a aprender coisas novas, me desafia.”
Uma experiência profissional também o fez questionar a maneira como avaliava determinadas oportunidades. Lucas conta que quase recusou um projeto por considerá-lo pequeno e distante daquilo que imaginava para si. Aceitou e encontrou pessoas que se tornaram importantes em sua vida. A experiência mudou sua percepção sobre a dimensão de um trabalho: “Isso me ensinou que o tamanho de um projeto não necessariamente diz o tamanho da experiência que ele vai te trazer.”
Ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades da própria carreira e se permite experimentar diferentes funções, Lucas estabelece uma fronteira para esse movimento. O desejo de criar mais caminhos profissionais precisa conviver com a maneira como pretende percorrê-los: “Não abro mão do respeito, não faria alguma coisa antiética ou antiprofissional para conseguir trabalho. Não faria algo que depois me impedisse de me olhar no espelho e estar bem com a pessoa que eu fui para conseguir aquilo.”
Lucas decidiu depender menos da espera e ampliar aquilo que consegue construir por conta própria. Entre atuar, escrever, dirigir, produzir e empreender, sua trajetória atual parte de uma compreensão simples: algumas escolhas profissionais continuarão nas mãos dos outros, enquanto as que estão ao seu alcance podem ajudá-lo a permanecer criando.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
