Foto: Ieda Ribeiro
ENTREVISTA EXCLUSIVA | Há uma linha muito bonita ligando Mah Duarte e Carolina, sua personagem em Quem Ama Cuida, novela das 21h da Globo escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto. As duas estão amadurecendo ao mesmo tempo. Enquanto Carol começa a enxergar o mundo para além das expectativas da família e dos próprios sentimentos, Mah, aos 19 anos, vive sua primeira novela das nove descobrindo que atuar não significa buscar perfeição, mas verdade.
Em entrevista ao Pittaplay, a atriz falou sobre esse processo de crescimento, a convivência com grandes nomes da dramaturgia, a construção da personagem e o que espera para a segunda fase da trama.
Para Mah, atuar nunca foi apenas decorar falas. Antes de tudo, é um exercício constante de amadurecimento: “Pra mim, o que molda o ator são as experiências da vida dele. Então, é impossível dizer que hoje em dia eu estou preparada 100% para tudo que vier como desafio pra mim. E eu acredito que esse, talvez, seja o mais difícil: a gente estar disponível para interpretar uma coisa que, às vezes, está muito distante da nossa realidade. É algo que trata mais sobre amadurecimento mesmo, entendimento do que acontece ou pode acontecer à nossa volta e como reagir, pessoal ou profissionalmente.”
Ela lembra que a timidez foi um dos maiores obstáculos no início da carreira: “A Mah de antigamente, por exemplo, além de ser muito tímida e deixar essa timidez limitar a vontade dela de estar, de fazer, de correr atrás de ser atriz, ela ainda era muito imatura emocionalmente.”
Hoje, ela afirma que ainda está em processo de evolução, mas enxerga a profissão como escola permanente: “Quanto mais me envolvo em projetos e vivo esse mundo, mais me entendo como funciona a própria vida. A maior parte das pessoas que convivo hoje no set são profissionais mais experientes, do câmera ao colega de cena. Você acaba absorvendo muitos ensinamentos e observando muito ações e reações. Isso impacta na nossa própria forma de encarar o mundo.”
Esse amadurecimento também mudou sua relação com críticas e direcionamentos: “A Mah de antes poderia se magoar muito com uma crítica mais direta. Levava muitas coisas que tratavam o profissional para o pessoal. Hoje, entendo que o que as pessoas dizem não necessariamente é sobre você, mas para você e para o seu crescimento. E, quando chegam críticas, penso na melhor maneira possível de recebê-las. Se forem só falas sem propósito de fazer bem, descarto e ponto.”
Ela resume esse momento dizendo que vive um ambiente que a transforma diariamente: “Posso dizer que estou feliz em estar num ambiente que me ensina bastante como profissional e também como pessoa. Sou estudiosa, me dedico, me interesso por histórias, pessoas, comportamentos e viver esse processo tem sido lindo.”

Foto: Ieda Ribeiro
Carol e Mah se encontram no amor, mas também nas contradições
Na novela, Carolina vive um conflito entre o desejo de se entregar completamente ao amor e a necessidade de proteger a si mesma. Mah acredita que qualquer pessoa se reconhece nesses dois extremos.
“Acredito que todo mundo se identifica com os dois lados. Eu sou uma pessoa extremamente tímida e reservada, então é muito difícil eu me entregar 100% para uma pessoa nova na minha vida. Mas, se essa relação for recíproca, eu entro de cabeça e faço de tudo para dar certo.”
Ao falar sobre a personagem, a atriz evita julgamentos: “A Carol não teve envolvimento direto com a condenação da Adriana nem com as maldades que a Pilar e o pai fizeram. Mas, como Mah, talvez eu julgasse essa falta de senso crítico. A família inteira aceita como verdade aquilo que a Pilar diz.”
Como atriz, porém, prefere compreender antes de condenar: “Eles vivem nessa realidade. A Carol cresceu olhando para os próprios interesses da família. Ela nem estava no Brasil durante o julgamento. Recebeu essa história pronta. Então faz sentido que enxergue o mundo daquele jeito.”
Ela completa: “Por isso tento sempre olhar para a Carol pelos olhos dela, e não pelos meus. Acho que esse é um dos maiores desafios da atuação: entender por que uma pessoa faz determinadas escolhas, mesmo quando você, na vida real, faria completamente diferente.”
A filha que ainda busca a própria identidade
Para Mah, Carolina ainda vive muito ligada à família, mas possui características capazes de mudar seu caminho: “Acredito que a Carol está bem distante do resto da família em relação à superficialidade. Ela tem um coração muito bom e coloca as pessoas que ama acima de qualquer outra coisa.”
A atriz acredita que novos encontros podem transformar a personagem: “Se ela tiver contato com outros personagens que abram os olhos dela, acredito que será capaz de ouvir por conta desse coração bom.”
Ao falar do primeiro amor, Mah enxerga beleza e perigo ao mesmo tempo: “É muito lindo como a Carol sente muito e não tem medo de dizer o quanto. Mas isso também é perigoso. Quando a gente fantasia muito uma situação, perde a capacidade de enxergar o que há de feio nela.”
Segundo ela, Carol acaba colocando a própria felicidade em segundo plano: “Ela terceiriza os próprios sentimentos, a própria vida, para viver em função de quem ama.”

Foto: Ieda Ribeiro
A cena que mudou sua forma de atuar
Os primeiros dias de gravação foram marcados pela convivência com grandes nomes da dramaturgia: “Minhas primeiras cenas foram justamente com o Fagundes e com o Tony. Era um sonho. Parecia inacreditável dividir o set com pessoas que eu sempre admirei.”
Essa admiração acabou se transformando em cobrança: “Queria atender à expectativa dessas pessoas maravilhosas e acabei esquecendo que precisava atender ao meu melhor, e não ao melhor do outro.”
A grande mudança aconteceu durante uma cena ao lado de Chay Suede: “Eu observava como ele se divertia fazendo aquele texto. Não existia aquela pressão de ‘preciso provar alguma coisa’. Existia alguém completamente entregue ao personagem.”
A experiência mudou sua maneira de enxergar o trabalho: “Entendi que minha atenção precisava estar menos em entregar um trabalho perfeito e mais em viver aquela experiência da forma mais verdadeira possível.”
Hoje, ela diz viver o set de maneira muito mais leve: “Continuo me cobrando, porque acho que isso faz parte de quem eu sou. Mas hoje essa cobrança é para ser melhor do que eu fui ontem, e não para alcançar alguém que está nessa profissão há décadas.”
“A arte, para mim, é vida”
Ao lembrar de um conselho de Tony Ramos, Mah revela que tenta proteger diariamente o amor pela profissão: “Quando o Tony falou sobre nunca perder esse amor pela profissão, aquilo fez muito sentido para mim. Porque, no fim, foi o amor que me trouxe até aqui.”
Ela procura separar a vida pública da vida pessoal: “Tento não deixar que um comentário ou uma opinião entre em mim como algo pessoal. Não quero que coisas externas roubem o motivo pelo qual escolhi essa profissão.”
E encerra resumindo o que a atuação representa: “A atuação, para mim, nunca foi só um trabalho. É uma forma de viver, de conhecer pessoas, de contar histórias, de sentir coisas que talvez eu nunca viveria na minha própria vida. A arte, para mim, é vida.”
Uma Carol mais madura
Sem revelar spoilers, Mah adianta que a passagem de tempo também mudará Carolina: “A Carolzinha volta depois de seis anos mais madura. Continua sendo a mesma Carolina, mas com um olhar um pouco mais maduro sobre a vida.”
Para ela, o principal conflito da personagem será justamente aprender a olhar para si: “Acho que a jornada da Carol passa por construir essa individualidade e, em algum momento, deixar de viver apenas em função dos outros para se tornar o ponto central da própria história.”
Ao receber novos capítulos, a atriz revela qual é sua prioridade antes de gravar: “Sempre busco entender o coração dela naquele momento. Muitas vezes, uma frase que parece comum vem de um lugar muito interno e emocional. Tem dado certo.”
Assim como Carol, Mah Duarte também parece viver processo de descoberta. Uma aprende a ocupar o próprio espaço dentro da história. A outra descobre, a cada cena, que crescer como atriz talvez signifique exatamente isso: trocar a busca pela perfeição pela coragem de viver, sentir e contar histórias com verdade.
