Com Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, Minha Melhor Amiga faz rir, mas é sobre a coragem de recomeçar

Minha Melhor Amiga: Ingrid Guimarães e Mônica Martelli fazem rir e refletir

Foto: Desirée do Valle

Minha Melhor Amiga cumpre exatamente aquilo que promete. Ingrid Guimarães e Mônica Martelli estão juntas em uma comédia construída para explorar a sintonia das duas, provocar situações hilárias e fazer o público sair do cinema depois de muitas risadas. O filme entrega tudo isso, mas encontra sua maior qualidade quando percebe que pode oferecer algo além. Por trás do humor, existe história interessada em fazer o espectador olhar para a própria vida e encarar uma pergunta que atravessa diferentes idades: quando é preciso começar de novo?

Julia e Clara são melhores amigas e vivem o auge dos 50 anos. Quando as filhas Manu e Isadora viajam para um intercâmbio em Portugal, elas decidem abandonar temporariamente uma rotina que já não parece satisfazê-las e também embarcam para a Europa. O que deveria ser apenas um período de férias se transforma em experiência capaz de colocar escolhas, relacionamentos, maternidade e desejos em perspectiva.

O filme sabe muito bem com quem deseja conversar primeiro. Existe olhar cuidadoso para mulheres próximas da idade das protagonistas, especialmente aquelas que chegaram aos 50 depois de passar décadas exercendo diferentes papéis e começam a se perguntar quanto espaço reservaram para os próprios desejos. Julia e Clara carregam questões sobre casamento, maternidade e amor, mas, acima de tudo, precisam descobrir o que querem fazer com a vida que ainda têm pela frente.

A inteligência de Minha Melhor Amiga está em não transformar esse recorte em uma barreira. A partir dessas duas mulheres, a comédia amplia sua conversa. Quando coloca as protagonistas diante de conflitos sobre a relação com as filhas, também fala com os filhos que estão na plateia. Quando questiona relações amorosas, alcança quem divide a vida com essas mulheres. Quando apresenta duas pessoas maduras diante da necessidade de rever escolhas, conversa com quem ainda está começando a construir a própria história e passa uma mensagem clara e importante: recomeçar não é uma questão de idade.

Ingrid Guimarães e Mônica Martelli sabem exatamente como fazer rir

A promessa mais evidente está, claro, na comédia. Colocar Ingrid e Mônica dividindo uma viagem já estabelece expectativa alta para quem conhece o domínio das duas sobre o gênero, e a direção de Susana Garcia entende que não precisa lutar contra isso, pelo contrário, aproveita essa força.

As situações são construídas para explorar o tempo cômico das protagonistas, a intimidade entre elas e a capacidade que possuem de transformar desconforto, exagero e constrangimento em humor. É possível reconhecer o terreno no qual as duas trabalham tão bem, sem que isso transforme o longa em uma simples sucessão de piadas.

O riso abre espaço para aquilo que o filme realmente quer discutir e essa combinação é certeira porque a reflexão não chega para interromper a comédia ou pedir que o espectador mude repentinamente de estado emocional. Ela nasce das próprias situações vividas por Julia e Clara quando o público ri delas, ri com elas e, em algum momento, começa a reconhecer alguma coisa de si.

Recomeçar também significa admitir que alguma coisa precisa mudar

Existe medo no recomeço, mesmo quando ele vem acompanhado de desejo. É confortável permanecer em lugares conhecidos, relações estabelecidas e versões de nós mesmos que aprendemos a sustentar. Mudar exige reconhecer que aquilo que funcionou durante anos pode não servir mais.

Julia e Clara chegam a Portugal carregando mais do que malas. Levam consigo frustrações, perguntas e uma vida que precisa ser observada fora da rotina para finalmente ser enxergada de outra maneira.

É nesse ponto que Minha Melhor Amiga consegue ultrapassar seu público inicialmente imaginado. Uma mulher de 50 anos pode reconhecer aquelas inquietações imediatamente, mas uma mulher mais jovem também pode olhar para elas e pensar sobre quem deseja se tornar. Filhos podem observar suas mães para além da maternidade e companheiros podem ser provocados a perceber a mulher que existe além da relação.

O filme não precisa e não quer resolver a vida de quem assiste, pelo contrário, passa longe de prometer isso, mas provoca o movimento de olhar para ela.

No fim, Minha Melhor Amiga é uma declaração de amor à amizade

Existe ainda uma relação capaz de atravessar todas essas transformações: a amizade entre Julia e Clara e esse é o sentimento que permanece quando a viagem termina. O longa não fala apenas para duas mulheres que construíram uma amizade durante anos, mas conversa com quem possui um grande amigo, com quem está começando agora uma relação que espera carregar pela vida, com quem precisa fazer as pazes, com quem está querendo desabafar e até com quem precisa lembrar de valorizar alguém que esteve ao seu lado enquanto tudo mudava.

Amizades longas também acumulam conflitos, silêncios, intimidades e versões diferentes das pessoas que um dia se conheceram. Permanecer amigo não significa permanecer igual e existe beleza em acompanhar alguém durante suas transformações e ainda encontrar espaço para continuar caminhando ao lado dela.

É por isso que o título ganha um significado maior. A melhor amiga não está ali apenas para dividir as situações engraçadas de uma viagem. Ela também testemunha quem você foi, reconhece quem você se tornou e pode estar ao seu lado quando chegar a hora de descobrir quem ainda deseja ser.

Minha Melhor Amiga promete risadas e entrega, promete amizade e entrega, promete situações capazes de colocar Ingrid e Mônica em um território que dominam e entrega.

O que não está necessariamente na promessa é aquilo que acompanha o espectador quando as luzes se acendem. Você sai do cinema com a boca cansada de tanto rir, mas com a cabeça cheia de perguntas. Sobre os amigos que escolheu, as relações que construiu, aquilo que deixou pelo caminho e as mudanças que continua adiando.

Todo mundo tem algum medo de recomeçar e ter uma grande amizade ao lado não elimina esse medo, mas pode fazer com que começar de novo pareça muito menos solitário.

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