Foto: Reprodução/Globoplay
Só quem já precisou renegar um sentimento por medo sabe bem como é a dor de Felipe. Na continuação da sequência em que Mau Mau se declara, o rapaz tenta explicar o que seu coração reconhece, mas que sua cabeça ainda não consegue aceitar.
“Eu nunca senti isso por outro cara antes. É muito estranho pra mim. Sempre foi com garotas”, confessa. Felipe recorre ao passado para justificar o presente. A palavra “estranho” expõe o peso da heteronormatividade: ele aprendeu a esperar de si um único caminho para o amor e agora se assusta ao descobrir outro.
Mau Mau tenta acolhê-lo: “Não tem problema”. As falas se sobrepõem. Felipe insiste que não sabe explicar, enquanto Maurício procura tranquilizá-lo. Um busca entender o próprio desejo; o outro tenta impedir que o medo destrua a intimidade construída entre eles.
“Tem alguma coisa no seu jeito, na maneira como a gente se entende, mas… eu não quero sentir isso que eu tô sentindo.” O “mas” interrompe uma declaração que começava a nascer. Felipe não diz que não sente. Diz que não quer sentir. A diferença é devastadora porque o amor existe, mas ele teme vivê-lo.
Pietro Antonelli expõe essa contradição no rosto. Felipe desvia o olhar, incapaz de encarar quem acabou de ferir. Os olhos marejam, mas a lágrima não cai. A emoção quase censurada diz mais do que qualquer explosão dramática. João Victor Gonçalves responde com a decepção silenciosa de Mau Mau: “Tudo bem! Eu entendi”. Ao recusar a carona e ir embora sozinho, ele protege o próprio coração.
Felipe fica sentado na beirada da calçada, entregue à confusão. Sob a direção artística de Amora Mautner, a cena evita os excessos e encontra força nos olhares e na distância que se abre entre os dois. A representatividade LGBTQIA+ também mora nessa dor reconhecível: aprender a amar quando ensinaram você a ter medo do que sente. Malipe avança porque a descoberta exige tempo, e porque o amor, antes de ser vivido, precisa encontrar coragem.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
