Há histórias que terminam no último capítulo. Outras continuam reverberando no silêncio, na memória e nas discussões que ficam depois. Dona Beja, que chegou ao fim nesta semana na HBO Max, parece pertencer a esse segundo grupo.
Mais do que uma releitura, a novela assinada por Daniel Berlinsky se construiu como uma travessia emocional. Uma obra que não se contenta em revisitar um clássico, mas se propõe a atravessá-lo com novas perguntas, novos conflitos e, principalmente, novas formas de sentir.
O Pittaplay conversou com o autor em um encontro que foi além de uma entrevista. Daniel recebeu a reportagem para um bate-papo sobre a novela, o processo de criação e os caminhos que o levaram até aqui, tanto dentro quanto fora da ficção.
Do remake à releitura: momento em que tudo muda
Quando entrou no projeto, Daniel encontrou uma estrutura ainda muito próxima da ideia de remake. Foi a partir de provocações criativas que a novela começou, de fato, a se transformar.
“Sempre fico um pouco para trás com remake. Eu não quero ver a mesma novela. A mesma novela eu vejo na original. Eu preciso ver o que alguém vai me oferecer com essa mesma proposta artística”.
A partir desse deslocamento, Dona Beja deixou de ser repetição e passou a ser interpretação. Não uma ruptura com a obra original, mas uma tentativa de ampliar seus sentidos.
“Eu não queria jamais trair a novela original. Acho uma obra-prima. Então, a minha releitura é uma reverência. Mas eu precisava ir além de onde ela não pôde ir na época”.
O conflito que constrói Beja

A construção da protagonista parte de um princípio que o autor carrega desde sempre: a história nasce do conflito emocional. “Nunca começo uma história querendo explicar algo. Eu começo pelo conflito”.
No caso de Beja, esse ponto de partida surge a partir de uma ausência: a indefinição sobre sua origem paterna, que Daniel transforma em hipótese dramática ao investigar a personagem. Ao revisitar materiais sobre a história, uma imagem o atravessa: “Eu falei: o pai dela é o avô. Porque ninguém sabe direito quem é o pai. Dizem que era com o avô, com outro marido… ninguém sabe. E aí eu pensei: nada mais Brasil do que isso, infelizmente até hoje.”
A partir dessa chave, o autor encontra o motor da personagem. Mais do que um dado biográfico, essa origem atravessa a construção emocional de Beja e define sua jornada: “Se a gente está falando de empoderamento, isso começa dentro da própria família. Antes de empoderar, ela precisa passar por uma jornada de autoaceitação.”
Assim, a personagem deixa de ser um símbolo pronto e passa a ser construída como alguém em processo, uma mulher que, antes de se tornar mito, precisa entender quem é.
Um final que não é o que parece
O desfecho da protagonista gerou reações divididas. Parte do público interpretou o fim como melancólico. Daniel vê de outra forma: “Para mim, é libertador. Ela não precisa mais ser nada. Nem bonita, nem poderosa, nem um mito. Ela só precisa ser quem ela é.”
Para o autor, a dificuldade de leitura passa pelo condicionamento do próprio formato da novela: “A gente está acostumado a um final feliz de fora para dentro: casamento, filho, estabilidade. Aqui, o final é de dentro para fora.”
Fortunato, Maurício e o direito de existir
Se o final de Beja provoca reflexão, o de Fortunato e Maurício provoca impacto. E, segundo Daniel, essa reação nunca foi gratuita: “A gente chorou escrevendo, chorou vendo a cena, chorou assistindo. Não foi feito para chocar. Foi feito para ser verdadeiro.”
A construção do personagem parte da ideia de autoaceitação, entendida pelo autor como um processo universal: “Quantos de nós não vive isso? Quantos de nós não performa algo que nos é imposto pelo pai, pela mãe, pelos irmãos, pelo melhor amigo, pela escola… até a gente entender quem a gente é e começar a ter coragem de ser quem a gente é?”
Ao final, o gesto do personagem não é tratado como rendição, mas como uma escolha diante de um mundo que não oferece saída possível. “Não é sobre romantizar o suicídio. O que existe ali é uma escolha. Eu vou voltar e fingir quem eu sou, casar, ter casos escondidos… ou eu vou enfrentar essa sociedade. Se eu vou morrer de qualquer maneira, então que seja do meu jeito.”
E há um ponto central nessa construção: falar não apenas para um público específico, mas para todos: “Não escrevi a história de Fortunato para o público gay. Escrevi para encantar todo mundo. Não me interessa que apenas os gays gostem deste personagem. O que a gente precisa é que todo mundo entenda e se encante por essa história.”
Uma novela que pede outra linguagem
Pensada para o streaming, Dona Beja exigiu uma nova lógica de escrita. Mais dinâmica, mais direta e mais conectada ao espectador contemporâneo: “A gente precisava falar com um público que talvez nunca assistisse a uma novela de época. Então, a linguagem tinha que se comunicar com ele, e isso foi bem discutido no começo da produção: com que público iríamos conversar, qual linguagem iríamos usar, e isso foi tudo bem pensado e construído.”
Ao mesmo tempo, Daniel buscou manter um tom poético, criando uma linguagem híbrida: “Não é o português do dia a dia, mas também não é aquele português distante. A gente encontrou um meio do caminho, com mais poesia.”
Personagens atravessados por dentro

A construção dos personagens secundários também parte de provocações sociais e humanas, mas, em Dona Beja, essas questões não aparecem na superfície, elas atravessam o íntimo. No núcleo de Ceci, vivida por Deborah Evelyn, o racismo deixa de ser apenas contexto e se revela como ferida interna.
“O racismo é tão entranhado que ele surge até dentro de quem está sofrendo a própria dor. Essa é a maneira mais impactante de ver o tamanho da ferida: fazer a pessoa rejeitar a si mesma.”
A partir dessa lógica, a personagem se constrói como uma contradição permanente. Alguém que não apenas reproduz a violência que sofreu, mas a direciona para dentro e para quem está ao seu redor.
“Ela é alguém que rejeita o próprio desejo e que objetifica o outro. Ou ele se torna objeto de desejo, ou se torna objeto de aversão.”
Essa dinâmica atravessa também suas relações familiares e revela uma distorção afetiva profunda. É nesse deslocamento que a novela expõe uma das camadas mais incômodas de sua narrativa, quando o afeto é contaminado pela negação de si. A criação de Angélica, filha adotiva branca, surge justamente como chave dessa leitura: uma tentativa inconsciente de se aproximar de um ideal que não a inclui.
Já Carminha surge como representação de outra forma de opressão, ligada ao corpo e à forma como ele é lido socialmente: “Hoje a gordofobia é o que grita, cada vez mais. Então, é sobre isso. Não estou fazendo documentário, meu interesse não é instruir, é emocionar. Eu preciso traduzir isso para o público de hoje.”
Em comum entre essas trajetórias está o movimento de olhar para si e, em Dona Beja, esse gesto ganha forma em diferentes momentos, especialmente por meio do espelho. No caso de Carminha, essa virada acontece de maneira concreta: “Ela percebe exatamente no momento em que se enxerga no espelho, olha o próprio corpo e pega no corpo… e fala: ‘se alguém está me olhando, é porque eu sou desejável’. Porque até então ela estava resignada.”
Para o autor, essa imagem não é apenas narrativa, mas simbólica: “A gente vive o mundo a partir do ponto de vista da gente, e a primeira coisa que esse ponto de vista faz é nos tirar. Às vezes, a gente não se percebe, só percebe o que o outro diz da gente, como o outro olha. Mas o outro é só o outro, ele não é você. Então, se você não conseguir olhar para si mesmo… o espelho é o melhor instrumento. É olhar no seu olho e falar com você mesmo.”
Quando o texto encontra o ator

Mesmo com a novela escrita antes da escalação, o encontro com o elenco transformou a obra: “A Grazi fez uma Beja muito além do que a gente escreveu.” Daniel conta que fez questão de participar das leituras iniciais para ajustar o texto a partir da escuta dos atores.
“O personagem ganha vida ali. Não é mais só meu.” E reconhece que muitas das interpretações ampliaram o que estava no papel: “Eles encontraram coisas que não estavam escritas. E isso é maravilhoso.”
Parceria e construção coletiva
Ao lado do autor português António Barreira, Daniel construiu Dona Beja a partir de uma relação que começou antes mesmo de a novela existir. Os dois já desenvolviam projetos juntos, impulsionados por um desejo comum de atravessar mercados: Barreira interessado no Brasil, Daniel curioso com Portugal.
“Ele falou: ‘você é brasileiro, vou precisar de um parceiro brasileiro’. E a gente se dava muito bem, então começamos a desenvolver projetos juntos.”
Foi esse vínculo que o levou até Dona Beja. Inicialmente, Daniel entraria como colaborador, enquanto Barreira já chegava como um autor consolidado, com trajetória sólida na televisão portuguesa. Mas, ao longo do processo, a dinâmica mudou, e Daniel assumiu a autoria principal.
Ainda assim, a parceria nunca se desfez: “Quando me convidaram para assumir, falei que tudo bem, mas que Barreira seria minha dupla. Puxei ele comigo o tempo todo.”
A escrita, segundo ele, nunca foi dividida por núcleos ou blocos. O processo era conjunto, construído em diálogo constante. Mesmo com a responsabilidade final recaindo sobre Daniel, especialmente na relação com a HBO e nas decisões de roteiro, Barreira esteve presente como uma espécie de contraponto criativo e emocional.
Mais do que divisão de tarefas, havia uma complementaridade de repertórios. Daniel trazia o impulso por renovação, a inquietação de quem busca caminhos menos óbvios. Barreira, por outro lado, oferecia a estabilidade de quem já atravessou muitos processos semelhantes.
“Eu trazia essa ânsia pelo frescor, de não repetir. E ele trazia a tranquilidade de quem já viveu isso e dizia para eu ficar calmo, que tudo daria certo.” Para Daniel, essa troca foi determinante não apenas para a construção da novela, mas para o próprio processo de assumir a autoria.
“Ele foi de uma generosidade muito grande. Barreira já é um autor estabelecido, já tem um Emmy Internacional e, mesmo assim, se colocou ali, trabalhando comigo, me dando suporte.” No fim, mais do que uma divisão de créditos, o que se construiu foi uma escrita em dupla, no sentido mais literal, feita de escuta, confiança e equilíbrio entre experiência e risco.
Entre a ficção e a vida

Daniel revela que a trajetória de Beja dialoga diretamente com a sua: “Eu estava vivendo essa história enquanto escrevia.”
A conexão começa no próprio processo de se reconhecer como autor. Antes de assumir a escrita, ele atravessou anos de dúvida, tentando validar o próprio caminho a partir do olhar do outro. Mesmo já escrevendo, ainda esperava que alguém lhe dissesse se ele era, de fato, roteirista: “Ficava esperando que o outro me dissesse: ‘você é roteirista’, ‘você é artista’. Eu precisava dessa validação externa.”
Ao relembrar esse período, ele cita tanto encontros que abriram portas quanto experiências que o marcaram negativamente. Entre elas, uma professora de roteiro que, já como chefe, ligava apenas para desqualificar seu trabalho: “Ela me ligava quase toda semana para dizer que tudo o que eu tinha mandado era muito ruim. E desligava.”
Em outro momento, uma amiga próxima também colocou em dúvida sua identidade artística: “Ela disse que eu era muito matemático para ser artista.” Essas falas, segundo ele, tiveram impacto direto na forma como passou a se enxergar e quase o afastaram da escrita. Houve um momento em que pensou em desistir. Mas foi justamente ali que algo mudou.
“Eu fui procurar dentro de mim um ‘sim’. E aí entendi: se eu escrevo, eu sou roteirista. Não importa o que digam.” Essa virada pessoal encontra eco direto na jornada de Beja. Para Daniel, a personagem também é alguém que tem o próprio destino “sequestrado” por forças externas e precisa, ao longo da vida, se reconstruir até conseguir se reconhecer.
“Todos nós temos um destino traçado na nossa cabeça. E, em algum momento, a vida vem e sequestra isso. Aí você precisa ressignificar.” Ao escrever a novela, ele percebeu que não estava apenas contando essa trajetória, mas que havia atravessado algo semelhante.
A experiência foi tão intensa que momentos pessoais acabaram se misturando ao processo criativo. Ele relembra, por exemplo, que finalizava capítulos enquanto lidava com perdas familiares e transformações profundas em sua própria vida: “Eu estava escrevendo uma despedida… e tinha acabado de perder meu pai.”
Essa sobreposição entre vida e ficção fez com que Dona Beja deixasse de ser apenas um projeto profissional: “Parece que a vida e a história estavam acontecendo juntas.”
No fim, o que se constrói não é apenas uma narrativa sobre uma mulher histórica, mas uma história atravessada por experiências reais, dúvidas, rupturas e reconciliações internas, tanto da personagem quanto de quem a escreveu.
O que vem depois de Beja
Com a novela encerrada, Daniel se dedica a novos projetos e, mesmo mudando de formato, o interesse permanece o mesmo: relações humanas, vínculos e suas rupturas.
Entre eles está o longa-metragem Encadeados, uma comédia romântica que parte do fim de um casamento de longa duração para discutir o que permanece depois do rompimento: “Toda separação faz parte de uma história de amor”, resume o autor.
A frase, no entanto, não surge como efeito de roteiro, mas como uma reflexão construída a partir da própria vida e da observação do cotidiano. Para Daniel, há uma tendência de enxergar o fim apenas como fracasso, quando, na verdade, ele também carrega memória, afeto e história.
“Uma relação de 20, 25 anos… não dá pra dizer que isso não deu certo.” Ao contrário, ele entende que essas relações deixam marcas profundas e que o término não apaga o que foi vivido. Pelo contrário: reorganiza.
“Teve amor ali. Teve construção. Teve vida. Isso não desaparece porque acabou.” É justamente esse olhar que move Encadeados. Mais do que falar sobre separação, o projeto busca entender o que acontece com os sentimentos depois dela, como eles se transformam, como continuam existindo, mesmo em outras formas: “É sobre o que fica.”
A proposta dialoga diretamente com a forma como Daniel constrói suas narrativas: menos interessado em respostas prontas e mais atento às zonas de ambiguidade das relações humanas.
Além do longa, o autor também assina Vambora, projeto que marca um momento simbólico em sua trajetória: trata-se da primeira novela nacional da TV Brasil, voltada para a televisão pública. A produção amplia o alcance da teledramaturgia para além das plataformas comerciais e reforça o potencial do gênero como ferramenta de conexão com diferentes públicos.

Daniel destaca que o projeto dialoga com esse intercâmbio entre Brasil e Portugal, tanto na forma de pensar a dramaturgia quanto na construção de histórias que possam atravessar fronteiras: “A gente vem desse encontro, dessa troca. De entender como contar histórias que funcionem aqui, mas que também possam conversar com outros lugares.”
Sem revelar detalhes da trama, ele reforça o desejo de construir uma novela popular, acessível e conectada com o público: “É uma novela de 30 capítulos, uma co-produção Brasil/Portugal. É para todo mundo. Não é aquela novela portuguesa com personagens brasileiros ou vice-versa. A intenção é trabalhar esta cultura e trata-se de uma história contemporânea.”
Daniel revela que a ideia original vem de dois autores portugueses: “Pedro Lopes e Alexandre Castro e eu fui convidado para assumir como autor brasileiro, para dar este olhar. Desenvolvi o material suficiente para entrarmos no edital. Vambora é este movimento de um país para o outro e o movimento interno, quem sou eu, de onde eu venho…”.
Já em Entre Oceanos, série inspirada em uma história real vivida dentro de sua própria família, o autor mergulha em um drama mais íntimo. A trama parte da luta judicial de uma mulher pela guarda dos filhos para abordar temas como maternidade, justiça e desigualdade de poder: “É uma história muito íntima, que fala de vínculos, de dor e de resistência.”
Mesmo em projetos distintos, Daniel mantém o mesmo princípio: contar histórias que emocionem e criem identificação.
O que fica
Dona Beja não é apenas uma novela sobre uma personagem histórica. É sobre identidade. Sobre pertencimento. Sobre o direito de escolher quem se é, mesmo quando o mundo insiste em dizer o contrário: “Quando a história emociona, ela cria conexão. E é essa conexão que atravessa tudo.”
E talvez seja justamente isso que explica por que algumas histórias não terminam quando acabam. Elas continuam dentro de quem assistiu.




