Avenida Brasil volta à Globo e prova por que é um clássico que nenhuma novela conseguiu superar

Nina e Carminha em cena: não é só confronto, é aula de atuação. Duas personagens que se enfrentam e duas atrizes que se elevam. Foto: Divulgação/Globo

A partir desta segunda-feira (30/03), Avenida Brasil retorna ao ar no Vale a Pena Ver de Novo, marcando sua segunda reprise na faixa. Exibida originalmente em 2012 e reprisada entre 2019 e 2020, a trama de João Emanuel Carneiro volta à grade da Globo seis anos depois e não por acaso.

Mais do que uma novela de sucesso, Avenida Brasil virou marco cultural. Até hoje, é comum ouvir de quem já não acompanha o gênero: “a última novela que assisti foi Avenida Brasil”. E isso diz muito. A novela não só funcionou, ela ficou. Virou referência.

E não foi por acaso. O texto afiado de João Emanuel Carneiro encontrou na direção de Ricardo Waddington um ritmo envolvente, seguro, que sabia exatamente onde queria chegar. Tudo estava alinhado: elenco, trilha, condução narrativa e o momento em que foi ao ar. Era a novela certa, no momento certo.

Vingança como ponto de partida e personagens que fogem do óbvio

O olhar diz tudo. Entre silêncio e tensão, Débora Falabella e Adriana Esteves construíram um dos embates mais marcantes da teledramaturgia. Foto: Globo
O olhar diz tudo. Entre silêncio e tensão, Débora Falabella e Adriana Esteves construíram um dos embates mais marcantes da teledramaturgia. Foto: Globo

A história parte de um tema clássico: vingança. Mas o que faz Avenida Brasil se destacar é justamente o que ela constrói em cima disso. Aqui, ninguém é raso. Os personagens erram, mentem, se contradizem e é isso que aproxima.

Adriana Esteves e Débora Falabella são muito mais que protagonistas da novela. Elas são as responsáveis por elevar a trama a um dos maiores embates entre vilã e mocinha da história da teledramaturgia. E não é exagero dizer isso. O que as duas fizeram ali virou régua.

Adriana criou uma Carminha que vai muito além da vilã tradicional. Ela é cruel, manipuladora, mas também irônica, inteligente e, em muitos momentos, até divertida. Existe um domínio de cena impressionante. Ela sabe quando falar, quando silenciar, quando olhar. Carminha não precisava fazer esforço para ser grande, ela simplesmente ocupava o espaço.

Débora, por outro lado, construiu uma Nina completamente diferente do que se espera de uma protagonista. Ela coleciona, na TV e no cinema, papéis marcantes e brilhou muito como mocinhas sofredoras e batalhadoras e até como coadjuvantes que roubavam a cena, como a Mel, de O Clone. É uma atuação mais interna, mais contida, mas cheia de tensão. Nina sente. E a gente sente com ela. A dor está ali, nas pausas, nos silêncios, nas decisões difíceis. Ela erra e isso só a torna mais interessante.

Um duelo que virou história

Quando essas duas se encontram em cena, a novela muda de nível. O jogo entre Nina e Carminha não é só bem escrito por João Emanuel Carneiro, ele é vivido com intensidade que raramente se vê. As duas atrizes estavam tão imersas na história que contagiou a todos.

Dificilmente a teledramaturgia brasileira vai conseguir repetir um embate tão bem construído entre protagonista e vilã como esse. E anos antes, o mesmo autor fez este feito com Flora e Donatela em A Favorita, criando embate tão emblemático quanto, mas este superou fronteiras.

Um elenco que sustenta o todo

O início de tudo. A cena que marcou uma geração e deu origem à vingança que move Avenida Brasil, Mel Maia entrega dor de verdade, daquelas que atravessam a tela.  Foto: Globo/João Miguel Júnior
O início de tudo. A cena que marcou uma geração e deu origem à vingança que move Avenida Brasil, Mel Maia entrega dor de verdade, daquelas que atravessam a tela. Foto: Globo/João Miguel Júnior

Murilo Benício construiu um Tufão humano, fácil de gostar. A versatilidade do ator é de causar espanto. Em A Favorita, também do autor, Murilo encarnou um vilão mais sórdido e era outra roupagem na composição. Dois anos depois, ele deu vida a Victor Valentin, no remake de Ti-ti-ti e trouxe uma comédia rasgada que o descaracterizou por completo. Mais dois anos se passou e Tufão provou o quanto ele evolui.

Vera Holtz entregou uma Mãe Lucinda cheia de dor e acolhimento, com camadas profundas de drama e atuação fora do sério. A atriz coleciona papéis marcantes, como a Santana de Mulheres Apaixonadas, uma das mais marcantes da década passada e quem compara os dois, chega a desacreditar que se trata da mesma atriz.

Nos núcleos paralelos, Ísis Valverde marcou época como Suellen, enquanto Marcos Caruso e Eliane Giardini garantiram leveza e ritmo. Estes dois, aliás, foram responsáveis por criar um casal cômico que envolvia muita comédia e níveis dramáticos no equilíbrio certo. Muricy e Leleco entraram para a história e o povo também comprou o casal.

É um elenco que funciona junto. E isso faz toda a diferença.

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