Na delicadeza dos silêncios e na força que se esconde nos gestos mais sutis, Julia Lemos tem conquistado o público em A Nobreza do Amor. Intérprete de Ana Maria, a atriz concedeu entrevista exclusiva à coluna Cena Aberta, do Pittaplay, e revelou os bastidores da construção de personagem que fala muito, mesmo quando não diz uma palavra.
Desde o primeiro contato com o papel, Julia compreendeu que o silêncio seria uma das marcas mais profundas de sua atuação: “Vejo Ana Maria como observadora constante dos comportamentos das pessoas da sua casa. Ela guarda muita inteligência dentro de si, então gosto de pensar que ela sempre tem opinião sobre o que ocorre ao seu redor, mesmo quando não é ouvida”, afirma.
Essa sensibilidade também se traduz na composição corporal da personagem. Mais do que palavras, é o corpo que expressa seus sentimentos e conflitos: “Ainda na preparação, comecei a tomar cuidado com a postura de Ana Maria, principalmente para eliminar certos vícios contemporâneos, mas acredito que muito da fisicalidade dela veio quase como consequência natural das dinâmicas do seu lar. O corpo responde a esse ambiente”, explica a atriz.

Foto: Estevam Avellar / Globo
Ao dar vida à jovem, Julia buscou revelar suas múltiplas camadas, evitando que ela fosse reduzida à dor ou à limitação: “Acho que as dores de Ana Maria são, sim, partes dela, mas não a representam por inteiro. Gosto de pensar nela como pessoa completa, que tem seus gostos, suas alegrias, hábitos e, também, tristezas”, ressalta.
Apaixonada desde o primeiro contato com a história de sua personagem, a atriz revela que o que mais a tocou foi a complexidade das relações familiares: “Fiquei encantada com Ana Maria desde o teste. Acho que a dinâmica familiar foi o aspecto que me chamou atenção de cara: tive, assim que li o texto pela primeira vez, muita curiosidade para entender como se davam essas relações de Ana com a mãe, com o pai e com o seu irmão”.
Para aprofundar a construção da personagem, Julia criou universo próprio, repleto de nuances e memórias invisíveis: “Tenho um caderno dedicado a ela. Gosto bastante de criar esse mundo interno da personagem e também de me deixar aberta para as nuances que vão surgindo organicamente ao longo das cenas”, conta.
Seu processo de preparação, segundo a atriz, equilibra emoção, técnica e análise: “Gosto de estudar e me preparar para que, ao chegar no set, eu esteja aberta e pronta para reagir de acordo com as propostas dos meus colegas. O bonito dessa profissão é sua coletividade e possibilidade constante de troca”.
A rotina intensa das gravações de uma novela também faz parte desse mergulho artístico: “O ritmo de filmagens e quantidade de cenas variam muito de acordo com o dia. Às vezes, passamos horas no estúdio fazendo cenas do núcleo familiar; outros dias, focamos nas sequências da cidade cenográfica. Acho que cada dia no set é muito particular e guarda seus desafios específicos”, revela.

Na trama, Ana Maria vive um amor não correspondido por Manoel, personagem interpretado por Daniel Rangel, ponto de partida emocional que promete transformações ao longo da história: “Acho que encontramos Ana Maria em um período muito intenso e de muitas mudanças na sua vida. A cada dia que passa, ela aprende mais sobre si mesma, sobre o que ela gosta e o que ela merece. Gosto de pensar que tem muito que ela ainda não viveu e ainda vai descobrir”, adianta Julia.
Sem revelar detalhes do futuro da personagem, a atriz antecipa que o público acompanhará uma trajetória de amadurecimento e coragem: “Pouco a pouco sinto Ana Maria ganhando mais coragem para ir atrás do que quer e consciência acerca dos seus arredores. São várias as mudanças que ainda estão por vir”.
Mais do que uma construção artística, o papel também deixou marcas pessoais em Julia: “Ana Maria me ensina muito todos os dias. Acho encantadora a maneira como ela não perde a doçura mesmo quando a vida não a trata da mesma forma”.
Entre silêncios que dizem tudo e gestos que traduzem sentimentos profundos, Ana Maria se revela como uma personagem de rara sensibilidade e Julia Lemos, com delicadeza e verdade, transforma cada cena em poesia.




