Na reta final de O Talentoso Ripley, espetáculo que encerra temporada no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro, em 31 de maio, Hugo Bonèmer parece menos interessado em falar sobre sucesso e mais disposto a desmontar as próprias estruturas emocionais. Ao longo da conversa com a coluna Cena Aberta, do Pittaplay, o ator, diretor e produtor mergulha em temas que atravessam a peça de forma quase desconfortável: carência, validação, violência, hipersensibilidade, controle e o quanto um personagem pode deixar marcas físicas em quem o interpreta.
Inspirado na obra de Patricia Highsmith e baseado na adaptação teatral de Phyllis Nagy, O Talentoso Ripley acompanha Tom Ripley, homem obcecado por pertencimento e ascensão social que transforma admiração em manipulação, paranoia e violência. Mas, para Bonèmer, o personagem nunca foi apenas um “vilão”. O interesse sempre esteve em investigar o que existe antes do abismo.
“Na atuação estamos protegidos pelo acordo moral entre artista e público, onde eu conto uma verdade por meio de uma mentira e o público concorda em acreditar. O artista não pode nunca se perder dessa camada protetora que separa a profissão da sua própria vida”, afirma.
“O corpo sente antes da mente admitir”

Ao falar sobre os impactos emocionais do processo, Hugo não romantiza o mergulho psicológico exigido pela peça. Pelo contrário. Ele detalha, sem blindagens, como o corpo reage aos estados emocionais que atravessam o palco.
“Visitar esses lugares no palco e perceber que todos temos coisas parecidas me traz resiliência. A parte mais difícil tem sido as dores físicas que os sentimentos me causam. Por exemplo, um refluxo violento, um formigamento no braço esquerdo e um inchaço na palma das mãos. Toda essa questão é psicológica e eu trato isso com carga igual de pensamentos bons, inversos aos que me habitam na peça”.
“Quem sabe onde mora seu diabo”

Talvez a resposta mais brutalmente honesta da entrevista venha quando o ator é questionado sobre pertencimento e a necessidade de aceitação, sentimento central na trajetória de Tom Ripley. Hugo não recorre a discursos romantizados sobre arte. Responde olhando diretamente para as próprias fragilidades.
“Se eu não fosse extremamente carente de atenção e validação, desejando profundamente que todos gostem de mim, não teria perseguido essa profissão, mas eu falo por mim. Talvez outros atores não sejam assim. Me aceito dessa forma e olho para mim mesmo com certo deboche. Quem sabe onde mora seu diabo, consegue domesticá-lo”.
“Aprender a existir observando os outros”

Essa percepção também atravessa sua relação com o mundo e com a própria observação humana que alimenta seu trabalho artístico. Para ele, existe um tipo específico de artista que aprende primeiro observando os outros existirem: “Observo o comportamento de fora, desde que nasci, como se precisasse observar para aprender a ser humano, aprender a socializar, aprender a fazer como os outros. E dessa observação, desse treinamento que nasceu a aptidão para fazer isso em cena. Percebo hoje que tem gente que desde sempre só é; só existe, sem precisar observar e treinar tanto”.
Durante a construção do espetáculo, uma das questões que mais o desestabilizou foi perceber a misoginia presente em Tom Ripley nesta versão da obra. Hugo conta que inicialmente resistiu à ideia de associar a possível homossexualidade do personagem à violência que ele exerce contra mulheres.
“Desejei por anos ver a dramaturgia de homossexuais imaculados e ilibados, ou ‘sem defeitos’, como se diria hoje. Mas o Tom é antes de tudo um psicopata e isso em nada tem a ver com a possível afetividade dele. Existem muitos homens que, mesmo não sendo psicopatas, são extremamente violentos com as mulheres, e nós precisamos mostrar como isso acontece”.
Além de protagonizar a peça, Bonèmer também assina direção, produção e cenografia. Ainda assim, rejeita a ideia de um processo centralizado apenas nele. Ao falar dos bastidores, faz questão de detalhar como a construção coletiva foi essencial para impedir que o excesso de controle engolisse a criação.
Ele cita parceiros criativos como Joe Nicolai, Sergio Medina, Tauã de Lorena, Laura Gabriela, Guilherme Dias Goulart, Renato Machado e a co-diretora Kamilla Rufino como peças fundamentais da engrenagem estética e emocional do espetáculo. Entre as descobertas surgidas desse processo, está a percepção da neurodivergência de Tom Ripley e sua relação com a própria hipersensibilidade auditiva do ator.
“A crueldade como válvula de escape”

“Escrevi isso tudo pra te dizer que eu não estava sozinho. Eu só fiz mais algumas funções, além de tudo que os outros fizeram”. Ao refletir sobre o suspense e o terror psicológico no teatro brasileiro, Hugo defende que o gênero funciona quase como uma válvula emocional coletiva. E é nesse momento que a entrevista ganha um dos seus comentários mais provocativos.
“O público tem sede de expressar sua crueldade por meio da cena. Isso é nítido na cena de plateia em que pergunto como eles desovariam um corpo de alguém que acabaram de matar. A resposta vem sempre sem hesitação. O teatro é como viver, mas sem o compromisso”.
“O que fica depois de Tom Ripley?”
Para ele, discutir “loucura e ganância em tempos de rede social” tornou-se urgente. Ainda assim, apesar do impacto do personagem, o ator admite que espera não carregar Tom Ripley para além da temporada: “Tom Ripley é personagem do hall dos malditos da literatura. Espero que não fique nada dele em mim. Emprestei muito de mim pra ele e ele não precisa nem me devolver”.
Após o encerramento da peça, Hugo afirma que continua em busca do próximo projeto, mas destaca que o monólogo Uma Casa para Celeste permanece entre suas prioridades artísticas. Já sobre a segunda temporada de Amor da Minha Vida, do Disney+, ele adianta que seu personagem chegará como uma força de pressão dentro da narrativa.
“O Eduardo entra na segunda temporada para trazer o peso do sistema para o Victor, um investidor da hamburgueria que não quer saber de sonho, mas de lucro”. A fala ajuda a antecipar um dos conflitos centrais da nova fase da série criada por Matheus Souza: o choque entre afeto, sobrevivência e as cobranças brutais da vida adulta.
