Existem aqueles livros que nascem de uma grande ideia, outros têm na sua criação, a urgência e existem aqueles que parecem vir do fundo de uma vida inteira, como se esperassem o tempo exato para ganhar forma, voz e papel. Esse Rio é Minha Rua, de Ruy Antônio Barata, pertence a essa última linhagem. Lançado quando o autor chega aos 80 anos, o livro carrega o peso e a delicadeza de quem atravessou décadas sem abandonar a memória, a escuta e a inquietação diante do mundo. Na conversa para a coluna Por Trás das Páginas, Ruy não fala apenas de um lançamento. Fala de travessia. Fala de uma história familiar que, em muitos momentos, se confunde com a própria história política e cultural do Brasil.
Ao comentar o impulso que o levou à escrita, o autor deixa claro que essa narrativa não surgiu de gesto repentino, mas de uma vida inteira cercada por política, cultura e Amazônia: “Minha família sempre esteve envolvida no Pará e no Brasil com a política e com a cultura amazônica”, afirma. É a partir desse lugar de pertencimento e testemunho que ele revisita golpes, perseguições, feridas e deslocamentos familiares, até chegar ao livro que, segundo ele, vem sendo trabalhado há cerca de 10 anos. Mais do que reunir lembranças, Ruy organiza percurso atravessado por acontecimentos que marcaram sua família e o país, transformando experiência vivida em matéria literária.
Uma escrita atravessada pela vida
Ruy Antônio Barata não chega ao livro como estreante no sentido mais ingênuo da palavra. Embora Esse Rio é Minha Rua marque sua estreia literária em livro solo, a escrita o acompanha de longa data. Na entrevista, ele recorda que cresceu em uma casa em que os livros não eram adorno, mas instrumento de formação: “Meu pai era um homem que tinha biblioteca de mais de 4 mil livros”, conta. Vieram cedo os clássicos, o hábito da leitura e também o da escrita, ainda que essa experiência mais ampla e pessoal só tenha amadurecido muito depois.
Ao falar do processo, o autor recusa qualquer romantização fácil. Escrever, para ele, é prazer e dor ao mesmo tempo: “É uma coisa meio sadomasoquista”, diz, numa formulação espontânea e precisa, como quem reconhece que o texto exige entrega, mas também confronto. Ao mesmo tempo, admite que a escrita teve efeito libertador. Foi por meio dela que conseguiu “colocar ordem” no que carregava havia tanto tempo. O livro, nesse sentido, não aparece como improviso tardio, mas como gesto amadurecido pela autocrítica, pelas releituras sucessivas e por um rigor íntimo que o fez hesitar antes de publicar.
Essa estreia aos 80 anos também ganha contorno muito humano em sua fala. Ruy confessa que a transição para a escrita “ainda é um sonho” e revela o receio que sentiu diante da ideia de lançar o livro: “A timidez e um certo receio de não estar de acordo com o que eu escrevi me pegou um pouco”, admite. Só depois de ler e reler inúmeras vezes, cortando e reorganizando trechos, sentiu-se mais contente com o resultado. O que surge daí é bonito justamente porque não vem embalado por triunfalismo. Vem como descoberta: “Quem sabe, eu tenho algum tempo para escrever alguma coisa a mais”, afirma, como se a literatura, em vez de fechar um ciclo, abrisse outro.
O Pará como origem, permanência e mito

Falar de Esse Rio é Minha Rua é, inevitavelmente, falar do Pará. E, mais do que isso, falar da forma como o Pará permanece vivo no imaginário, na sensibilidade e na memória do autor. Ruy nasceu em Óbidos, no interior do estado, e a paisagem amazônica não surge em sua fala como cenário decorativo, mas como chão formador. Ele relembra a casa, os quintais separados por tapumes e a proximidade do rio, numa infância marcada por convivência concreta com a vida ribeirinha: “Eu fui habituado desde cedo com essa visão e com essa vida amazônica”, resume.
Na conversa, Belém também aparece como cidade central em sua formação afetiva e cultural. Embora viva em São Paulo há mais de cinco décadas, Ruy não fala da capital paraense como lembrança distante, mas como eixo permanente: “Belém, para mim, além disso, é um mito”, diz, antes de completar com frase que parece condensar o espírito do livro: “A minha vida sempre foi plantada lá no Amazonas”. É dessa raiz que nasce a atmosfera de Esse Rio é Minha Rua, obra em que o território não é apenas espaço geográfico, mas memória, herança e identidade.
O peso da exposição e o filtro da primeira pessoa
Ao revisitar a própria família e acontecimentos tão delicados, Ruy não esconde que houve dor no processo: “Essa questão foi muito dolorosa. Expor questões da vida pessoal da gente é muito complicado”, afirma. Há, em sua resposta, consciência nítida do risco que existe quando se escreve sobre a sua pessoa sem transformar a intimidade em espetáculo. Por isso, ele explica que o livro exigiu um filtro rigoroso, um “crivo” sobre o que deveria ou não ser exposto, deslocando o foco do estritamente pessoal para o que considera mais importante no conjunto da obra: a dimensão cultural e política dessa trajetória.
Essa escolha ajuda a compreender também a maneira como ele aborda o pai, Ruy Barata, figura central no livro e na cultura paraense. Em vez de mergulhar numa catarse afetiva, o autor prefere reencontrá-lo por meio do que ele deixou aos outros: “Preferi transferi-la para aquilo que ele deixou escrito para as outras pessoas”, explica. Os poemas, as canções, a importância cultural e política do pai na cidade surgem, então, como caminhos mais honestos para essa reconstrução: “Falar dele, pessoalmente, seria, para mim, repetir e fazer uma espécie de catarse desnecessária”, resume. A escolha é reveladora: em vez de se apoiar no excesso sentimental, Ruy constrói a memória pelo legado.
Entre o documento e a mágica
Um dos pontos mais belos da entrevista aparece quando Ruy comenta o aspecto quase fantástico de certas passagens do livro. Diante da ideia de que alguns episódios beiram o realismo fantástico, ele responde com firmeza: “Não coloco fantasias no livro, mas documento coisas que realmente existiram”. A frase é importante porque posiciona a obra com clareza. O que pode parecer extraordinário ao leitor não nasce da invenção gratuita, mas da própria densidade do vivido.
Ao mencionar Gabriel García Márquez e a forma como o escritor se refere à Amazônia, Ruy aponta para uma diferença essencial. Para ele, não se trata de exagero, mas de magia: “Existe a mágica, isso sim. A mágica é de um mundo desconhecido até hoje”. Essa formulação ajuda a entender a pulsação de Esse Rio é Minha Rua. O livro não quer fantasiar a realidade. Quer documentar um Brasil que, por si só, já carrega estranhezas, grandezas e espantos suficientes para soar quase inacreditável.
Ditadura, memória e permanência

Quando a conversa entra no período da ditadura, a fala de Ruy ganha ainda mais gravidade. Sem transformar sua trajetória em performance heroica, ele relata as marcas concretas deixadas pela repressão sobre sua família. O pai perdeu o emprego. Foi cassado. A perseguição política atravessou a casa inteira. Ele próprio, então estudante de Medicina e líder estudantil, foi preso duas vezes em Belém. Em um desses episódios, foi agredido por policiais militares dentro de um carro. Anos depois, descobriria numa tomografia a fratura no nariz causada pelos golpes: “Essa memória ainda é muito próxima da minha vida”, diz.
Ainda assim, o que mais chama atenção em sua fala é o modo como ele nomeia essa lembrança. Não como culto à dor, nem como busca por glória pessoal, mas como sinal de engajamento: “Não temos nenhuma pretensão de heroísmo nisso, mas sim de engajamento numa vida social, numa vida política, pelo bem-estar popular, pelo amor, pela paz permanentemente”. É nessa chave que ele situa também o livro. Quando pergunto se a escrita aparece como denúncia ou memória, a resposta vem limpa, sem desvio: “Na realidade, é só memória. É uma memória intensa”. E talvez justamente por ser memória vivida, e não palavra de ocasião, ela alcance tamanho peso.
Medicina, literatura e política no mesmo corpo
Há outro aspecto decisivo na entrevista: a recusa de Ruy em separar, de modo rígido, medicina, cultura e política. Para ele, essas dimensões não se anulam nem se contradizem. Elas se alimentam. “De uma junção dos dois”, responde ao ser perguntado se essa visão nasce da vivência familiar ou da formação médica. Em seguida, define a empatia como elemento fundamental da medicina e sustenta que, sem ela, o médico se torna apenas “um cientista, no máximo um burocrata da medicina”.
Sua defesa de uma medicina mais justa e gratuita, assim como sua participação nas lutas em torno da formação do SUS, aparecem ligadas a essa mesma visão de mundo. Para Ruy, não faz sentido segmentar a existência em compartimentos estanques: “Eles não podem ser segmentados, eles fazem parte de uma única coisa”, afirma, ao falar da ciência e da literatura. É uma frase que ajuda a iluminar o próprio livro: Esse Rio é Minha Rua nasce desse encontro entre olhar clínico, memória política e imaginação literária, sempre ancorado numa experiência concreta de mundo.
Aos 80, a descoberta continua

Na reta final da entrevista, há momento de delicadeza rara. Ao ser perguntado sobre o que descobriu de si mesmo depois de revisitar tantas camadas da própria vida, Ruy hesita. Reconhece que é uma pergunta difícil. Fala de décadas de psicoterapia, de crítica e autocrítica, especialmente em relação à medicina. E então chega a resposta simples, mas enorme: “A única coisa que descobri desse período todo é que dá para fazer outras coisas além da medicina. Que dá para, aos 80 anos, ainda sonhar com um mundo melhor. E ainda para trabalhar com a escrita como elemento de comunicação disso”.
Talvez esteja aí uma das maiores belezas desta conversa. Esse Rio é Minha Rua não surge como monumento de vaidade, mas como continuação de uma busca. Mesmo quando fala da dificuldade de “vender” o próprio livro, Ruy se mostra profundamente desconfortável com a lógica comercial da exposição. Para ele, o que havia a ser feito já foi feito: escrever durante 10 anos. O restante pertence ao encontro entre obra e leitor: “Embora ela seja uma história familiar, está cheia de elementos que poderiam constar de qualquer romance”, diz, quase sem perceber que, nessa frase, talvez esteja uma das melhores apresentações possíveis para seu livro.
No fim, quando comenta o nervosismo para a noite de lançamento, marcada para 24 de abril, na Livraria da Vila, na avenida Paulista, ele abandona qualquer solenidade e deixa escapar desejo muito humano, quase doméstico, quase terno. Diz apenas que espera que, ao fim da noite, sua mão esteja cansada de tanto autografar. É uma imagem bonita para encerrar esta travessia: a de um autor que levou oito décadas para chegar a esse instante e que, mesmo tenso, mesmo tímido, mesmo exposto ao olhar dos outros, ainda encontra espaço para sonhar.




