Juliana Fontes transforma um resgate da vida real em uma história sobre amizade, coragem e descobertas

Juliana Fontes durante entrevista ao Pittaplay. A autora falou sobre o processo de criação de O Resgate e a realização do sonho de publicar seu primeiro livro.

Durante anos, Juliana Fontes acreditou que ser escritora era algo reservado aos grandes fenômenos editoriais. Imaginava livros com centenas de páginas, listas de mais vendidos e adaptações para a televisão. Até perceber que a definição era muito mais simples: escritora é quem escreve. Foi dessa mudança de olhar que nasceu O Resgate, livro infantil que transforma uma aventura de bicicleta em uma história sobre amizade, coragem e os pequenos acontecimentos capazes de mudar a forma como enxergamos o mundo.

A relação de Juliana com a escrita começou muito antes da publicação do livro. Ainda criança, uma observação feita por uma professora após a leitura de uma redação ficou guardada por décadas. A frase parecia simples, mas permaneceu viva durante anos, como uma espécie de lembrança silenciosa à espera do momento certo para fazer sentido.

Esse momento chegou quando a autora decidiu abandonar a expectativa de criar algo grandioso antes mesmo de começar: “Eu tinha a ideia de que quem sonha com isso deve escrever um livro de 250 páginas, ser best-seller, ter um livro de tanto sucesso que vira série de televisão. E parece que, finalmente, em algum momento, o comentário da professora passou a fazer sentido de um jeito mais simples. Eu não precisava esperar que surgisse algo grandioso para começar”, conta.

Foi dessa compreensão que nasceu O Resgate. Na trama, as amigas Pipa e Mafalda saem para mais um passeio de bicicleta quando encontram um misterioso cano escuro escondido pelo caminho. O que parece apenas um elemento estranho da paisagem logo se transforma em um desafio capaz de despertar curiosidade, coragem e transformação.

Mas o que mais interessa à autora não é apenas o mistério: “Acredito que sejam ligados: o mistério em si e o que desperta na Pipa e na Mafalda. Aquele cano escondido no meio do mato, e mais que isso, fora do limite até onde as crianças podiam ir, torna-se um ponto misterioso e desafiador tanto para as personagens quanto para os leitores.”

A observação ajuda a entender o que move a narrativa. O cano não é apenas um objeto. Ele representa o desconhecido. Aquilo que existe além dos limites estabelecidos, além daquilo que parece seguro. E, como toda boa história infantil, o percurso importa tanto quanto a descoberta.

Quando a infância enxerga mais do que os adultos

Juliana Fontes apresenta O Resgate, obra infantil inspirada em uma experiência real vivida em família e transformada em uma história sobre amizade, acolhimento e superação.
Juliana Fontes apresenta O Resgate, obra infantil inspirada em uma experiência real vivida em família e transformada em uma história sobre amizade, acolhimento e superação.

Embora seja uma obra voltada para crianças, O Resgate não trata a infância como período de ingenuidade simplificada. Pelo contrário. Juliana acredita que as crianças possuem capacidade única de perceber as diferentes camadas do mundo.

“Todos nós temos contato com as diversas camadas da vida desde que nascemos, sejam elas tristes, felizes, angustiantes ou emocionantes. Vamos adquirindo maturidade com o tempo e passamos a fazer novas leituras sobre essas mesmas camadas.”

Para a autora, a idade das protagonistas não foi escolhida por acaso. Aos oito anos, as personagens vivem justamente momento de transição, quando a percepção da realidade começa a ganhar novas profundidades.

Essa visão também orientou a construção da narrativa. Juliana optou por contar a história a partir do olhar de Pipa, preservando a inteligência, a sensibilidade e a espontaneidade que costuma associar às crianças.

“Procurei narrar a história do ponto de vista da Pipa. Sendo ela uma criança, busquei explorar a linguagem simples, porém inteligente e perspicaz. Acredito que a visão da criança tenha elementos riquíssimos, que acabamos perdendo quando saímos da infância.”

O resultado é obra que não subestima seu leitor. Ao invés de transformar a narrativa em uma lição de moral, a autora prefere confiar no poder das histórias: “A literatura consegue transmitir mensagens necessárias e importantes por meio de uma narrativa. Não precisa ter tom de apostila ou de aula. É como a vida ensina. Por meio das histórias que vivemos e daquelas que observamos.”

Uma história que nasceu da vida real

Natural de Brasília, Juliana Fontes acredita que a literatura tem o poder de transmitir mensagens importantes por meio das histórias, sem abrir mão da sensibilidade e da imaginação.
Natural de Brasília, Juliana Fontes acredita que a literatura tem o poder de transmitir mensagens importantes por meio das histórias, sem abrir mão da sensibilidade e da imaginação.

Apesar dos elementos ficcionais, O Resgate possui raízes profundas na realidade. A ideia central surgiu de uma experiência vivida pela própria autora e sua família: “Surgiu de história real, que vivi em família. Parte do que escrevi aconteceu mesmo. Outras partes mudei ou acrescentei para dar mais emoção à narrativa.”

A revelação ajuda a compreender por que os temas da amizade, do acolhimento e da superação atravessam a obra com tanta naturalidade. Eles não surgem como conceitos abstratos, mas como experiências humanas reconhecíveis.

“Todos nós temos nossos resgates cotidianos, mais simples, e também aqueles mais profundos e transformadores. Muita gente vai se identificar com essa questão.”

Essa identificação, aliás, aparece também no processo de leitura. Segundo Juliana, uma das maiores surpresas após a publicação foi perceber como cada leitor encontra algo diferente dentro da mesma história.

“Algumas pessoas me disseram que riram, outras, que choraram. Algumas disseram ter gargalhado. E, o mais incrível, é que cada criança e cada adulto me traz uma percepção diferente da história.”

A disciplina que transformou um sonho em livro

Se existe uma palavra que atravessa tanto a trajetória da autora quanto a narrativa de O Resgate, ela é superação. Curiosamente, esse tema não surgiu de forma planejada.

“Era necessário falar sobre superação. Acredito que essa seja a palavra-chave da história. Na verdade, não foi uma intenção concreta falar sobre isso. Mas a narrativa toda e, principalmente o final, que era o que eu já tinha em mente antes mesmo de esboçar as primeiras linhas, é sobre isso.”

A própria escrita do livro acabou refletindo essa ideia. Depois de anos acumulando projetos inacabados e ideias guardadas, Juliana encontrou solução menos romântica e mais eficiente: disciplina.

“Foi quando decidi que todo dia eu me sentaria em frente ao computador para escrever essa história. Independente de estar inspirada ou não.”

Não houve espera pelo momento perfeito, nem pela inspiração ideal: “Determinei que em tais dias, em tais horários, eu iria encarar a tela. Mesmo que não saísse nada, mesmo que eu apenas relesse o que já havia escrito. Foi a constância e a disciplina que me fizeram, finalmente, terminar esse projeto.”

Ao final, o maior resgate promovido por O Resgate não aconteceu apenas dentro das páginas. A obra também resgatou um sonho que permaneceu guardado por anos.

E foi justamente quando encontrou leitores que Juliana compreendeu o significado mais profundo daquela frase ouvida ainda na infância: “Isso sim fez de mim uma escritora. Ser lida. E é aí que a história começa.”

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