Spectrophilia, novo livro de Shajara Néehilan Bensusan, pertence à categoria de livros que abrem uma porta. A obra não conduz o leitor por narrativa convencional. Em vez disso, convida para dentro de uma casa assombrada onde memória, desejo, luto, erotismo, filosofia e política convivem sem pedir licença umas às outras.
Em entrevista ao Pittaplay, Shajara revelou que a escrita nasceu de um estado que está longe da racionalidade organizada que normalmente associamos ao trabalho intelectual. “A escrita foi sempre possessão”, afirmou: “O livro foi escrito em estado de surto. O controle veio depois, mas se submeteu ao fervor de espectrofilia que me acometia.”
A declaração ajuda a compreender a natureza da obra. Apesar de Shajara ser reconhecidx internacionalmente pela produção acadêmica em filosofia, spectrophilia parece rejeitar qualquer fronteira rígida entre teoria e ficção. O livro atravessa gêneros, mistura pensamento e imaginação e transforma os espectros em personagens políticos, afetivos e corporais.
Quando os mortos continuam falando

Ao falar sobre os fantasmas que atravessaram o processo criativo, Shajara aponta para uma presença que percorre toda a obra: Gaza.
“O livro testemunha Gaza”, disse durante a entrevista. Para além do conflito específico, a reflexão se amplia para todos aqueles que habitam a fronteira entre a vida e a morte, entre a lembrança e o esquecimento.
Essa relação com a memória ocupa papel central em spectrophilia. No livro, lembrar não aparece como simples recordação, mas como forma de permanência. Uma espécie de continuidade que resiste ao desaparecimento físico: “A memória é uma espécie de ressurreição”, definiu. “Mas não uma volta à vida.”
A frase sintetiza um dos movimentos mais interessantes da obra. Em vez de tratar os mortos como ausências definitivas, o livro propõe que eles continuam reorganizando afetos, desejos, responsabilidades e narrativas. A morte não encerra relações. Apenas transforma a forma como elas existem.
Essa perspectiva também ajuda a entender uma das imagens mais provocativas presentes em spectrophilia: a ideia de “sexo desprotegido com fantasmas”.
Longe de qualquer intenção de choque gratuito, a metáfora desloca os espectros do território do horror para o da intimidade. O desejo surge como forma de atravessar a fronteira entre vivos e mortos, entre passado e presente.
“O horror ao fantasma é uma maneira de separar os vivos de suas ressonâncias”, explicou. “O desejo, por outro lado, cria uma liga que atravessa a linha entre vivos e mortos.”
Ao longo da conversa, outro tema aparece de forma recorrente: a multiplicidade. Seja na relação com a memória, com os nomes ou com as identidades.
Questionadx sobre a decisão de abandonar “Hilan” do nome, motivada pelo rompimento com a herança israelense diante do genocídio promovido pelo projeto sionista em Gaza, Shajara descreveu o processo como abertura para a pluralidade. “Passei a ser pluralidade, mais pluralidade”, afirmou.
É justamente essa a palavra que melhor defina spectrophilia. Plural.
Plural porque recusa classificações simples. Porque mistura literatura, filosofia, performance e manifesto. Porque entende que a memória nunca pertence a uma única pessoa. E porque insiste em lembrar que os fantasmas não vivem apenas no passado.
Eles continuam aqui. Assombrando. Ou, como sugere Shajara, abrindo portas.
