Alemão não foi desenhado para liderar a trama, mas no caminho, passou a interferir nela. Em Três Graças, o personagem cresce justamente onde o controle parece escapar. Interpretado por Lucas Righi, o personagem saiu de um lugar aparentemente periférico para se tornar peça fundamental dentro da engrenagem dramática da novela das nove, movimento que não acontece por acaso.
Na coluna Cena Aberta, do Pittaplay, conversei com o ator sobre construção, processo, riscos e o que existe por trás de um personagem que vive permanentemente no limite.
Um personagem que nasce do conflito

Lucas não romantiza o processo. Ao contrário, ele parte da consciência do peso que carregava desde o primeiro contato com o papel: “Assim que recebi o personagem sabia o peso que estava pegando, então fui pesquisar, procurar referências em livros, filmes, músicas e documentários para começar a construir o Alemão. Eu precisava entender o seu passado, para começar a construir o seu presente e almejar um futuro”.
A construção, no entanto, não passa por linha reta. Alemão é feito de tensões internas, e é nesse território que o ator encontra matéria dramática: “Ele sempre tentou controlar o fogo para ninguém acabar se queimando, até que não teve mais jeito. Ele é complexo e cheio de contradições pois ele é fiel ao Bagdá, e ao mesmo tempo tem a sua amizade com Vandilson, ele não concorda com as atitudes de seu parceiro, mas também sabe que Bagdá está querendo sair do crime, então ele precisa arranjar alguma forma de continuar sobrevivendo e com isso vai tomando suas decisões”.
Quando a pesquisa ganha corpo

O mergulho em referências poderia ter ficado no campo técnico. Mas, em algum momento, o processo muda de chave e o personagem deixa de ser estudo para virar presença.
“Quando começamos a preparação e enxergamos nesses personagens certa comicidade, pude entender que apesar da carga pesada que o núcleo trazia, esses personagens poderiam existir fora do mundo da barbárie, isso trouxe vida para todos eles, identidade, trouxe relação e afeto”.
É nesse ponto que Alemão ganha humanidade.
Um espaço que se constrói

Ao longo da novela, o crescimento do personagem foi perceptível. Para Lucas, isso não tem uma única explicação: “É junção de fatores, Alemão foi ganhando cada vez mais o seu espaço, e sou muito grato ao público, aos autores Aguinaldo Silva, Zé Dassilva, Virgilio Silva, aos roteiristas, direção e a toda equipe da novela por terem abraçado este personagem”.
Há aqui reconhecimento que atravessa todas as camadas da produção, do texto à recepção.
O risco como método
Entrar em uma novela das nove não foi apenas uma conquista profissional. Foi quebra completa de rotina, de linguagem e de vida: “Ele me tirou totalmente da zona de conforto, fazer novela é algo completamente diferente de tudo que eu já fiz, você embarca em aventura sem saber o que vai acontecer de fato. Você vai construindo algo que pode mudar a todo tempo, é preciso ter flexibilidade para saber se agarrar em novas ideias”.
Essa instabilidade não se limita ao set: “Também foi um projeto que me fez mudar completamente a minha rotina. Saí de São Paulo para vir morar no Rio de Janeiro e gravar a novela. Minha primeira vez morando sozinho e em outro estado, foi um ano que aprendi muito”.
Sobreviver antes de qualquer coisa

Se Alemão parece dividido entre medo e ambição, Lucas aponta outro eixo central: a sobrevivência: “Alemão para viver, primeiro precisa sobreviver, e ele sabe disso, tem consciência do lugar que está, então suas decisões são feitas com base em continuar vivo. Se ele deixar o medo e ambição tomar conta, pode morrer. É preciso caminhar entre esses dois sentimentos para que haja uma oportunidade de construção”, comenta o ator.
É uma lógica simples e brutal. A relação com Bagdá coloca o personagem em lugar delicado: lealdade que beira a submissão. Para o ator, essa equação passa pela origem.
“Alemão entrou no crime muito jovem, na sua cabeça ele não teve escolha, precisava de alguma forma sobreviver, mesmo sabendo que aquilo que faz não tem futuro, a não ser a morte ou a prisão. Ele escolhe estar ali pois não vê nesse momento uma outra saída”.
Um final que não pode ser dito, mas pode ser sentido
Sobre o desfecho, Lucas mede as palavras, mas deixa escapar a dimensão emocional do encerramento: “Estou muito feliz com o desfecho. Foi lindo poder construir esse personagem com parceiros tão generosos como Vinicius Teixeira, Xamã e Daphne Bozaski, acho que o final vem para coroar essa parceria”.
Mais do que o destino do personagem, o que aparece aqui é o valor do percurso.
Um ponto de virada
Depois de Alemão, o caminho parece mais claro, não pelo conforto, mas pelo desafio.
“Alemão é início de um novo olhar para a minha carreira, Alemão me tirou da zona de conforto, me colocou em lugares que até então jamais havia estado, então é momento de celebração e de olhar para o futuro. Quero encontrar personagens que me desafiem assim como o Alemão, quero mergulhar cada vez mais em personagens complexos”.
Sem antecipar projetos, o ator mantém o foco no que sustenta a trajetória: “Muito trabalho e dedicação, ainda não posso falar muito sobre próximos projetos, mas estou animado para o que virá”.
