Existem livros que contam histórias. Outros apenas atravessam quem lê. O novo romance de Caique Baron parece nascer justamente nesse segundo lugar: aquele em que a literatura deixa de funcionar apenas como narrativa e passa a operar como memória sensorial. Não por acaso, tudo começa com um mergulho. Um menino prende a respiração debaixo d’água enquanto tenta ser visto pela mãe e pela avó. Dez segundos depois, uma vida inteira cabe ali dentro.
E é justamente ao Pittaplay que o autor revela, em primeira mão, o título da obra: ‘Estamos vivos e precisamos fazer algo com isso‘, com lançamento a ser feito ainda neste ano. O nome não funciona apenas como identificação do livro. Funciona quase como um manifesto íntimo. Uma frase que carrega urgência, melancolia e sobrevivência emocional ao mesmo tempo.
A obra costura infância, fé, culpa, cidade grande e sobrevivência emocional numa narrativa que mistura poesia e prosa sem nunca parecer interessada em separar uma coisa da outra. É literatura construída na delicadeza dos detalhes. Coca-cola, missa, domingo, algodão doce, Avenida Paulista, silêncio. Pequenos elementos que, nas mãos do autor, ganham o peso de acontecimentos definitivos.
Na entrevista concedida à coluna Por Trás das Páginas, do Pittaplay, Caique fala sobre a origem da obra, o impacto de São Paulo na sua formação, a mentira como mecanismo de sobrevivência e a descoberta da própria identidade como escritor. E é justamente aí que o livro encontre sua força mais bonita: ele não tenta oferecer respostas prontas. Pelo contrário. Ele parece entender que crescer é aprender a conviver com perguntas que nunca terminam.
O mergulho que virou estrutura emocional

Quando questionado sobre o momento em que percebeu que a imagem do mergulho sustentaria toda a narrativa, Caique responde como quem ainda está tentando entender o próprio processo criativo.
“Me senti psicografando uma vida que apesar de nascer de mim, eu ainda não conhecia. Quando comecei a escrever, confesso que não sabia onde essa história me levaria e só depois me dei conta que essa imagem sustentaria a narrativa. Entendo que é preciso tomar distância das palavras para só depois entendê-las, e foi dessa forma com o mergulho. Só depois entendi a importância dele para a narrativa. Assim como muitas outras questões do livro, estou me dando conta só agora, depois de meses escrito”.
A fala ajuda a entender o espírito da obra. Não parece existir um autor tentando controlar rigidamente a narrativa. Existe alguém escutando o que o texto pede. E isso faz diferença. O livro respira como lembrança. Às vezes fragmentada. Às vezes confusa. Às vezes dolorosa. Mas sempre viva.
Quando a poesia encontrou a narrativa
Conhecido inicialmente pela poesia, Caique revela que o desejo de escrever ficção surgiu lentamente, quase como necessidade inevitável. E curiosamente, nasceu também de desconforto.
“Esse desejo também se deu pelo meu incômodo com meus dois primeiros livros de poesia, onde passei a achar tudo ‘muito jogado’ e sem conexão. Sentia falta de um fio condutor, com início, meio e fim”, conta o autor.
O processo de transição entre poesia e narrativa ganhou força após encontro com a escritora Aline Bei, figura que ele cita com carinho e admiração: “Ela me passou visão da importância de termos paciência com o nosso processo. E isso foi muito importante, porque logo em seguida entendi que não estava pronto pra escrever um novo livro”.
Existe algo muito simbólico nessa resposta. Porque o livro parece nascer justamente da compreensão de que maturidade literária não tem relação com velocidade. Caique entendeu que precisava esperar a história brotar. E ela brotou.
Deus, infância e as perguntas que permanecem

Um dos aspectos mais interessantes da obra é a maneira como ela trabalha espiritualidade sem cair em respostas simplistas. O menino da narrativa tenta entender Deus. O adulto tenta entender o mundo. E os dois parecem igualmente perdidos.
“Deus me assusta mais do que o mundo. Sei que sou um adulto colocado no mundo, mas que o peito sempre me puxa para o menino que se pergunta sobre esse Deus, que ora abraça, ora assusta”.
Depois, ele completa: “Gosto de acreditar e duvidar de Deus na mesma página, e só depois decido qual sentimento ele me causa”. É uma resposta poderosa porque sintetiza o coração do livro. Não existe aqui literatura interessada em certezas. O romance parece muito mais interessado nas ambiguidades humanas. Naquilo que abraça e assusta ao mesmo tempo.
A infância como território emocional
Ao falar sobre memória, Caique não demonstra interesse pelo fato em si, mas pela marca emocional que ele deixa: “O sentimento que ela deixa é a única matéria palpável. Quando vivemos nossa infância não fazemos ideia da sua grandiosidade e só nos deliciamos depois”.
Talvez por isso o livro pareça tão sensorial. Porque ele não tenta reconstruir a infância de maneira documental. Ele reconstrói sensações. O cheiro dos lugares. O silêncio das casas. O desconforto das perguntas. A vontade de ser visto.
E essa necessidade de reconhecimento aparece também na vida do próprio autor: “Quero ser notado, quero ser lido”.
A honestidade dessa frase desmonta qualquer romantização sobre o fazer artístico. Existe vulnerabilidade e alguém admitindo que escrever também é desejar alcançar o outro.
Tia Sônia e os afetos que sobrevivem
A figura da Tia Sônia ocupa papel central na narrativa e parece representar espécie de porto emocional do protagonista. Mas a resposta de Caique sobre ela revela algo ainda mais íntimo: “Talvez eu esteja descobrindo agora que EU SOU A TIA SÔNIA”.
A frase vem acompanhada de humor, mas também carrega peso silencioso. Porque talvez o livro inteiro seja exatamente isso: um autor tentando entender quais personagens nasceram dele e quais ele acabou se tornando.
Mentira, capitalismo e sobrevivência

O romance também mergulha na ideia da mentira como mecanismo de sobrevivência emocional. E Caique fala disso de maneira brutalmente honesta: “Acredito que estamos mentindo o tempo todo, para os outros, para nós mesmos. A mentira sustenta mundo íntimo muito forte em cada um, caso contrário desabamos. Num mundo dominado pelo capitalismo, mentir para si mesmo é preciso”.
Essa visão conversa diretamente com uma das decisões mais importantes do protagonista, que não acontece por desejo, mas por necessidade e culpa. O livro entende que nem sempre vivemos a vida que imaginamos para nós.
“Não culpando as pessoas por não terem seguido aquilo que sonharam, mas apresentando como consequência um mundo capitalista, onde precisamos sobreviver”. É uma leitura dura, mas profundamente humana. Porque o romance parece compreender que sobreviver, muitas vezes, exige abandonar partes de si.
São Paulo e a cidade que engole sonhos
A mudança do interior para São Paulo altera completamente o ritmo emocional da narrativa. E Caique descreve isso quase como um rito coletivo: “São Paulo pra mim é o exemplo claro da terra prometida, onde todo mundo busca ‘dar certo’. Pessoas de outros cantos do mundo que se mudam pra cá, admirados com a grandeza que engole cada um”.
Mas a resposta ganha ainda mais força quando ele conclui: “Só depois descobrimos que ‘grandes’, éramos antes. É preciso sair do lugar em que nascemos para descobrir sua grandeza”.
Poucas frases definem tão bem o impacto emocional da cidade grande sobre quem vem do interior.
O momento em que escrever virou literatura
Talvez uma das respostas mais bonitas da entrevista seja justamente sobre o instante em que ele passou a se reconhecer escritor: “Passei a interpretar o papel de ‘escritor’. No começo é difícil, a gente não se sente escritor”.
Depois, a resposta cresce de maneira quase cinematográfica: “Escrever, fazer literatura, vai além da escrita, está no seu modo de sentar, cruzar as pernas, segurar a xícara de café, observar o mundo”.
E então chega à frase que talvez resuma toda sua relação com a arte: “Entendi que de fato minha existência no mundo hoje, é um corpo fazendo literatura”.
O que fazemos com o que sentimos?
O livro deixa no ar pergunta simples e devastadora: o que fazemos com aquilo que sentimos? Caique já encontrou sua resposta: “Tenho a sorte de já saber: escrever”.
Mas antes de encerrar, ele olha também para quem ainda não descobriu: “Sei que muitas pessoas ainda não sabem o que fazer com seus sentimentos. Torço por elas”.
Talvez seja justamente isso que ‘Estamos vivos e precisamos fazer algo com isso’ faça. Não resolve dores. Não organiza o caos. Não oferece caminhos fáceis. Mas estende a mão para quem ainda está tentando descobrir como sobreviver às próprias emoções.
E hoje, num tempo em que quase tudo pede pressa, talvez existam poucos gestos mais bonitos do que esse.
