Existem escritores que surgem antes mesmo de saber escrever, desenhando histórias, imaginando mundos e tentando, ainda que sem letras, organizar o caos interno que já insistia em existir. É desse lugar que vem William Alves, de inquietação que nunca soube ficar parada.
“Antes mesmo de saber escrever, eu já criava livrinhos com histórias transmitidas só por imagens”, relembra o autor em entrevista ao Cena Aberta, do Pittaplay.
A escrita, para ele, sempre foi presença. Mas a autoria, por muito tempo, parecia distante, quase inalcançável: “Ser autor era como querer ser astronauta ou jogador de futebol”, diz. Ainda assim, ele nunca deixou de escrever. Porque, no fundo, escrever sempre foi menos sobre alcançar e mais sobre existir.
E é justamente nesse intervalo entre o que somos e o que nos tornamos que nasce Mudo Momento.
Entre a rotina e o rompimento
A história acompanha Tiago Ambrósio, jovem que sai direto do ensino médio para o trabalho e, preso à repetição silenciosa de um escritório, decide recomeçar. Volta a estudar, ingressa em uma universidade e, sem saber, entra também em jornada que mistura mistério, autodescoberta e questionamento.
Mas o livro não nasce apenas da ficção. Ele nasce de vivências. William passou por diferentes cursos, cidades e universidades. E foi desse trânsito, dessa tentativa constante de encontrar um lugar, que surgiu o núcleo da narrativa: “Minha ideia era simplesmente juntar minhas memórias de faculdade em uma narrativa interessante. Em nenhum momento pensei em publicar”, conta.
A clareza, como ele mesmo diz, veio depois: “Às vezes o caminho em que a gente está só aparece quando olhamos para trás”.
E talvez seja exatamente isso que Mudo Momento propõe ao leitor: olhar para a própria trajetória com outros olhos.
O ciclo invisível da vida adulta

Escrito durante a pandemia, o livro carrega, mesmo que de forma indireta, as marcas de um tempo em que o mundo inteiro foi obrigado a parar e, paradoxalmente, a criar novas rotinas: “A pandemia escancarou o quanto recriamos rotinas rapidamente”, analisa. E é dessa percepção que nasce um dos conceitos centrais da obra: o ciclo.
Durante esse período, William vivia realidade que dialoga diretamente com seu protagonista. Trabalhando em horários isolados, distante da sua área de formação e preso a uma repetição silenciosa, ele reconhece: “Era realmente uma sensação de ciclo infinito”.
A diferença é que Tiago pode romper. William, naquele momento, não. E é nessa tensão entre o que podemos e o que conseguimos mudar que o livro ganha força.
Mistério, filosofia e identidade
Se por fora Mudo Momento se apresenta como narrativa de descoberta, por dentro ele se constrói como um exercício profundo de reflexão.
A trama se desenvolve a partir de “A Caça”, sequência de pistas deixadas por um professor falecido, que acreditava que a Lança do Destino estaria escondida no campus universitário. O elemento investigativo conduz a história, mas não a define por completo.
“A filosofia é realmente a alma do livro”, afirma o autor. E essa alma se constrói na forma como Tiago observa o mundo e, principalmente, a si mesmo.
A escolha pela Lança do Destino também não é aleatória. Interessado por mitologia e religião, William constrói simbologia que atravessa a narrativa: “É interessante pensar que, em sua busca por si mesmo, Tiago acaba guiado justamente pelo santo invocado para encontrar coisas perdidas”.
No fim, a caça deixa de ser por um objeto. E passa a ser por sentido.
Universidade como espaço de transformação

Diferente da romantização comum na literatura, a vida universitária em Mudo Momento surge como território de transformação real, feita de descobertas, conflitos e reinvenções.
“Vi muitos amigos se recriarem nesse processo”, conta William: “A descoberta leva ao conflito, e o conflito à transformação”. É nesse espaço que o jovem se torna adulto. Não de forma linear, mas fragmentada, contraditória e profundamente humana.
E talvez seja por isso que o livro dialogue com tanta facilidade com quem lê. Porque, no fundo, todos já estiveram, ou ainda estão, tentando se encontrar em meio ao caos.
Escrita como necessidade
Se há algo que atravessa toda a trajetória de William Alves, é a impossibilidade de não escrever: “Mesmo que nunca mais publique nada, seria quase impossível parar”, afirma.
A escrita, para ele, não é apenas vocação ou profissão. É ferramenta de organização interna, de compreensão do mundo e, principalmente, de sobrevivência emocional.
E isso se reflete diretamente na forma como seus personagens existem: “Meus personagens pensam mil vezes mais do que falam”, define.
Há, em Mudo Momento, um silêncio que fala. E talvez seja justamente nele que o leitor mais se reconheça.
Entre o leitor e o mundo
Depois de enfrentar negativas de outras editoras, o livro foi aprovado pelo conselho editorial da CEPE, processo mais lento, mas que trouxe validação ao trabalho.
Ainda assim, para William, o mais importante está além da publicação: “Quero que o livro chegue ao maior número de pessoas possível”, diz.
Porque, no fim, sua maior expectativa não é surpreender. É conectar: “Espero que as pessoas não se sintam sozinhas”, resume.
E talvez seja exatamente isso que a literatura faz quando encontra o leitor certo. Ela transforma um momento mudo… em algo finalmente compreendido.




