Gaía Passarelli e o som que molda a vida em Deslumbre, onde memória vira linguagem

Gaía Passarelli transforma memória em narrativa e mostra como a música atravessa e organiza a vida em Deslumbre. Foto: Divulgação/Hernandes

Existe precisão silenciosa em Deslumbre – Histórias de obsessão musical. O livro não nasce de impulso confessional nem de necessidade de organizar lembranças soltas. Ele surge de gesto mais consciente, quase cirúrgico, de observar o próprio passado com distância suficiente para compreender o que ficou. A escrita de Gaía Passarelli não tenta recuperar tudo. Ela seleciona, posiciona e constrói linha que revela menos sobre o que aconteceu e mais sobre como certas experiências permaneceram. 

Ao falar sobre o livro, a autora recusa a ideia de momento exato em que a música se tornou central em sua vida: “É livro de memórias, e parte dessas memórias são sobre a música como forma de ler o mundo. A percepção de que música é algo formador da minha vida está ligada à, na maturidade, olhar para trás e prestar atenção, mas não existe ‘um momento’”. Essa ausência de ruptura dá ao livro camada mais profunda. Formação, aqui, não acontece em ponto de virada. Acontece no acúmulo silencioso de experiências.

Memória não basta. É preciso organizar o tempo

A narrativa não se apoia apenas na lembrança. Existe método claro na forma como Gaía constrói o percurso. A memória, sozinha, não sustenta o livro. Ela precisa ser tensionada, confrontada e, em muitos momentos, reorganizada: “Eu parti das minhas memórias para então buscar entender qual a linha do tempo, me baseando em acontecimentos objetivos para posicionar o ‘quando’ das lembranças”, explica. Esse movimento dá estrutura ao texto e impede que ele se dissolva em nostalgia difusa. Ao ancorar lembranças em acontecimentos concretos, a autora cria espécie de eixo temporal que permite ao leitor acompanhar não apenas o que foi vivido, mas quando aquilo se insere na história maior: “Minha primeira viagem à Londres aconteceu no momento em que o Plano Real estava entrando em vigor no Brasil”, exemplifica, evidenciando como memória pessoal e contexto histórico passam a dialogar diretamente.

Ainda assim, a confiança na memória nunca é absoluta. Existe desconfiança constante nesse processo: “Também usei muito outros livros para separar o que era cilada da memória e o que era fato”. O livro assume esse cuidado sem perder o tom íntimo. E quando a verificação falha, a decisão não tenta esconder a dúvida: “Tenho lembrança muito vívida da reportagem sobre os góticos no Jornal da Tarde, mas não consegui encontrar nenhuma referência. Optei por confiar na memória e manter”. Nesse ponto, Deslumbre revela escolha importante. Nem tudo precisa ser comprovado para existir. Algumas memórias se sustentam pelo impacto que tiveram.

Escolher também é construir narrativa

Entre memória e registro, o livro constrói uma linha do tempo afetiva da música.
Entre memória e registro, o livro constrói uma linha do tempo afetiva da música.

A estrutura do livro não tenta dar conta de tudo que foi vivido. Ela delimita. Recorta. Organiza a partir de pontos que sustentam a narrativa: “São quatro momentos formadores que fazem sentido numa linha narrativa e que estão ligados ao tema central do livro, que é música”. Essa definição impede dispersão e fortalece o eixo central da obra. Cada recorte carrega peso suficiente para sustentar o percurso sem diluir o foco.

Ao mesmo tempo, essa escolha revela outro movimento essencial da escrita. Nem tudo entra: “Tem muitas coisas pessoais da minha juventude que escolhi não colocar no livro, é natural”. O silêncio também faz parte da construção narrativa. O que não está ali ajuda a definir o que permanece. O resultado é texto que se assume como íntimo, mas não fechado: “É retrato íntimo que conversa com pessoas que também viveram esse período, gostaram dessas bandas e talvez frequentaram esses espaços”. A experiência individual se expande sem perder a identidade.

Registrar é resistir ao apagamento

As seções “Backstage” não aparecem como respiro ou curiosidade dentro da narrativa. Elas funcionam como extensão direta do texto principal, ampliando o universo que o livro constrói: “São complementos, foram criados a partir da minha empolgação ao revisitar bandas, artistas, filmes, videoclipes, livros que foram importantes na minha formação”, explica. Esse retorno às referências não tem apenas valor afetivo. Ele carrega intenção clara de preservação.

A autora entende que o tempo apaga. E que aquilo que parece acessível hoje pode desaparecer sem aviso: “É forma de apresentar esses universos a quem pegou o livro, mas ainda não conhece essas referências e gostaria de saber mais”. A função do livro, nesse ponto, ultrapassa a experiência pessoal e se aproxima de registro cultural: “A gente acha que essas informações estarão sempre disponíveis, mas não estarão”. A frase desloca o sentido do projeto. Não se trata apenas de lembrar. Trata-se de registrar antes que se perca.

“Música importa, é um sintoma do tempo vivo, e registrar quem foram os músicos, quais foram as bandas, quais eram as músicas, também importa”. O livro assume esse papel com clareza. Ele documenta uma experiência geracional sem abrir mão do olhar pessoal.

O acesso muda. A experiência permanece

Uma autora que escreve para entender a própria história e assumir o que viveu. Foto: Divulgação/Hernandes
Uma autora que escreve para entender a própria história e assumir o que viveu. Foto: Divulgação/Hernandes

A relação com a música não é a mesma de décadas atrás. O caminho até ela foi transformado por tecnologia, velocidade e excesso de oferta. Gaía reconhece essa mudança sem idealizar o passado: “Com certeza acontece de forma totalmente distinta do que era há quarenta anos”. A frase aponta ruptura evidente no modo de consumo e descoberta.

Ainda assim, existe algo que não se altera: “Mas acredito que a empolgação com música, para quem é jovem, ainda existe e sempre vai existir”. O entusiasmo sobrevive à mudança de formato. O que muda é o percurso. O impacto, no entanto, permanece intacto.

O tempo reorganiza o gosto

Revisitar referências antigas não confirma certezas. Muitas vezes, desestabiliza aquilo que parecia sólido: “O Sisters of Mercy era banda que eu gostava muito quando tinha 15 anos e revisitando hoje achei meio qualquer coisa”. A frase não tenta suavizar a mudança. O gosto amadurece e, com ele, a forma de escuta também se transforma.

Outras experiências resistem ao tempo: “Foi legal ouvir de novo Underworld e Underground Resistance e ver que aquilo que fez da música eletrônica experiência estética tão radical nos anos 1990 se mantém”. A permanência, nesse caso, não está na nostalgia, mas na força estética que ainda se sustenta.

Há também redescobertas. Sons que antes ocupavam espaço marginal ganham novo peso: “O que ganhou significado são bandas que ouvia de forma mais marginal na adolescência, conhecia mais de ouvir falar, como Fall e Killing Joke”. O tempo reorganiza o repertório afetivo e redefine prioridades.

Escrever é assumir a própria narrativa

Apesar da presença de contexto histórico e referências, Deslumbre não se constrói como livro de reportagem. O eixo está em outro lugar: “Em Deslumbre, escrevo como mulher que olha para a própria história para se tornar, enfim, dona de suas experiências e aprendizados”. A escrita funciona como gesto de apropriação.

Mesmo sem planejamento inicial, o livro se conecta com trabalhos anteriores: “Não tinha pensado essa trinca de livros como trilogia pessoal, apenas aconteceu assim”. Cada obra ocupa território específico dentro dessa trajetória: “‘Mas Você Vai Sozinha’ trata das minhas viagens solo, o ‘Tá Todo Mundo Tentando’ tem muito de crônica urbana e o ‘Deslumbre’ é sobre música, e sobre crescer”. A organização surge no processo, não na intenção.

Não existe fechamento definitivo: “Então ele não resolve nem complica nada, nem tem essas intenções, apenas conta”. A escrita não busca conclusão. Ela registra.

Obsessão também delimita risco

Em Deslumbre, Gaía olha para trás com precisão e encontra sentido no que permaneceu. Foto: Divulgação Hernandes.
Em Deslumbre, Gaía olha para trás com precisão e encontra sentido no que permaneceu. Foto: Divulgação Hernandes.

A música aparece no livro como força estruturante, mas também como intensidade que pode ultrapassar limites. Existe reconhecimento claro dessa linha: “Acho que a obsessão musical deixa de ser saudável quando estar em contato com a música ou a cena ao redor dela leva a más decisões”. A frase delimita ponto de ruptura sem dramatização. Apenas estabelece consequência.

A paixão não é romantizada. Ela é compreendida dentro de suas contradições.

Revisitar sem julgamento transforma a memória

Olhar para trás poderia resultar em nostalgia ou desconforto. O movimento que surge no livro segue outro caminho: “Nem uma coisa, nem outra, trouxe clareza que eu não tinha, e maior gentileza em relação à pré-adolescente, adolescente e jovem mulher complicada que fui”. A clareza reorganiza a forma de olhar para o passado. A gentileza redefine a forma de lidar com ele.

O livro não corrige o que foi vivido. Ele reposiciona.

O deslumbre permanece

Depois de atravessar diferentes fases, cenas e descobertas, a resposta final se mantém direta: “A música nunca vai deixar de me deslumbrar”. Outras linguagens seguem presentes, mas ocupam lugares distintos: “Cinema e literatura são outras manifestações artísticas humanas que me deixam muito feliz, são parte da minha vida”. Ainda assim, a música permanece como ponto central.

“É aquele primeiro grande amor que está sempre lá para ser revisitado”. A intensidade muda, mas não desaparece: “Não acompanho com tanta intensidade como quando tinha 16 anos, mas ouço muita música o tempo todo, gosto de ir em shows pequenos de bandas novas, gosto de saber o que meu filho está ouvindo”. A relação amadurece, mas continua ativa.

“A música tem uma capacidade de criar conexões que nunca vai deixar de me deslumbrar”. É nesse ponto que o livro se sustenta. Não como lembrança fixa, mas como experiência que continua em movimento.

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