Fernanda Vasconcellos voltou às novelas carregando personagem que quase nunca precisava levantar a voz para impor medo. Em Três Graças, Samira atravessou a trama como uma mulher silenciosa, calculista e emocionalmente opaca, até começar a deixar escapar pequenas rachaduras perto da reta final. E foi nesse contraste que a atriz encontrou uma das construções mais delicadas de sua trajetória.
Em conversa com a coluna Cena Aberta, do Pittaplay, Fernanda falou sobre o retorno às novelas após 10 anos, o processo de composição da vilã, o desconforto emocional de interpretar uma mulher que transformava todas as relações em interesse e também relembrou trabalhos marcantes da carreira.
Samira nunca foi uma personagem de respostas imediatas. Pelo contrário. Fernanda conta que a construção aconteceu enquanto a novela já estava no ar, acompanhando o próprio movimento da obra aberta: “Eu tinha poucas informações. Foi sendo criado conforme as cenas iam chegando”, explicou. Segundo ela, o primeiro impacto veio justamente da sensação de mistério que cercava a personagem: “A princípio percebi que Samira era uma personagem muito misteriosa. As falas dela sempre tinham um quê de mistério. Não se sabia por que ela tava fazendo aquilo e agindo daquela forma”.
A atriz conta que precisou encontrar delicadeza para interpretar alguém tão moralmente ambígua: “De cara pensei que uma personagem ambivalente. Então eu sentia que precisava ter muita delicadeza e muita sutileza no desenrolar dela”. E lembra da primeira abordagem de Samira para Joélly, quando a vilã surge oferecendo ajuda como quem carrega boas intenções: “Ela fala: ‘Eu tenho uma proposta pra te fazer’, como se fosse uma coisa boa, quando na verdade ela estava prestes a oferecer que a jovem vendesse sua filha”.
Ao longo da novela, a personagem ganhou força dentro da trama e permaneceu até os capítulos finais, mesmo existindo inicialmente uma previsão de saída mais cedo, segundo o que contou o autor Aguinaldo Silva, em entrevista ao Pittaplay. Fernanda afirma que esse movimento faz parte da natureza viva da novela: “É um processo. Você não sabe pra onde ela vai.”
O silêncio como arma de Samira

O retorno às novelas aconteceu justamente através de uma vilã e a atriz revela que aceitou voltar por confiança na equipe criativa: “Aceitei porque minha primeira mocinha foi um convite do Luiz Henrique Rios, em Desejo Proibido, e foi uma novela em que fui muito feliz”. Segundo ela, existia segurança em reencontrar profissionais com quem já havia criado intimidade artística: “Eu já sabia que com o Luiz eu ia poder fazer o meu melhor e ele como diretor iria conseguir extrair o máximo de mim como atriz”.
Uma das cenas mais marcantes da reta inicial da personagem acontece quando Samira retira o bebê de Joélly da maternidade clandestina enquanto assobia friamente pelos corredores. Fernanda revela que o assobio não estava totalmente desenhado na rubrica: “Os autores haviam mencionado Kill Bill. Eu fui atrás da cena, fui atrás da trilha sonora também. Pedi pra direção se podia assoviar e nós fizemos uma gravação com o assobio e outro sem e eles escolheram a que eu assobiei”.
O gesto, segundo ela, fazia parte da tentativa da personagem de reorganizar emocionalmente a própria mente depois do parto. “Ela assobia numa música pra se acalmar e se reorganizar. Ela acreditava, naquele momento, que o melhor para aquela criança seria estar na Europa com a nova família, estar longe da Arminda e Ferette, então na cabeça dela, ela estava fazendo o melhor para a bebê”.
Naquele momento, Fernanda ainda não sabia que Samira seria revelada como mãe de Raul e avó da criança: “Ainda não tinha essa revelação”.
Talvez por isso o impacto da reta final tenha sido ainda maior. Depois de meses sustentando uma mulher quase incapaz de demonstrar afeto, Samira começou a revelar emoções ao reencontrar o filho e ao se aproximar da neta. Fernanda acredita que justamente essa camada emocional é o que torna a personagem falha e humana: “É o que faz ela errar. É o que leva ela a cometer erro”.
Quando a personagem atravessa a atriz

A atriz também admite que o processo emocional da novela mexeu com ela fora do set. Principalmente pela natureza das relações da personagem: “No começo, tratando de um tema de venda de crianças, eu ficava bem mexida”. Mas o que mais a abalava era a incapacidade de Samira de construir relações verdadeiras: “Ela nunca conseguia trocar de verdade. Era sempre tentando tirar alguma coisa do Raul, da Joélly, tirar proveito”. Fernanda descreve as relações da personagem como superficiais: “Isso me deixava esquisita durante alguns momentos, era uma sensação ruim”.
Na reta final, Samira também passou a surgir com diferentes perucas e disfarces enquanto fugia da polícia. Fernanda revela que a caracterização precisou acontecer rapidamente por causa do ritmo acelerado das gravações: “A peruca é complexa porque precisa vestir bem na cabeça. Então a gente foi escolhendo o que funcionava melhor”. Para ela, o acessório nunca foi pensado como transformação de identidade, mas como estratégia narrativa: “Eu encarei como um acessório mesmo. Ela tá ali só pra se disfarçar da polícia”.
Sobre o final da personagem e o destino traçado pelos autores Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva, Fernanda adianta que será completamente compatível com o que a vilã caminhou até agora: “É muito coerente com a trajetória dela, tem tudo a ver com a Samira. Aguinaldo acertou mais uma vez. Eu acho que o público vai gostar”, adianta a atriz.
As novelas que continuam vivendo dentro dela

Durante a conversa, Fernanda também mergulhou em memórias de A Vida da Gente, novela que ainda hoje provoca forte identificação do público. Ao falar da longa sequência de confronto entre Ana e Manuela, papel de Marjorie Estiano, a atriz contou como constrói cenas extensas emocionalmente densas: “Primeiro eu estudo toda ela. O que veio antes, o que vem depois, qual a cena anterior. Depois vou entendendo as motivações, o que ela quer dizer nas entrelinhas”.
Só depois disso vem a memorização do texto e Fernanda lembra que a cena foi gravada praticamente inteira, sem interrupções: “A gente falou: vamos direto. Naquela altura já estavamos aquecida com a novela, com as personagens e suas histórias, a trama estava na reta final, então fica mais fácil chegar e gravar”.
Ao revisitar Ana, ela rejeita a ideia de uma divisão simples entre certa e errada “Quem tá errada ali é a vida. É ela se colocando o tempo inteiro na trajetória destas duas irmãs”.
Já sobre Desejo Proibido, que retorna na segunda-feira (18 de maio), pelo projeto Resgate do Globoplay, Fernanda fala com evidente carinho: “Era um elenco muito jovem que se dava super bem”. Ela cita a convivência intensa durante a produção e as amizades que permaneceram depois do fim da novela: “Foi um projeto que vivi intensamente. Amadureci bastante com essa novela”.
A novela se passa nos anos 1930 na fictícia cidade de Passaperto, em Minas Gerais, e narra a história de triângulo amoroso entre Laura, personagem de Fernanda, Miguel (Murilo Rosa) e Henrique (Daniel de Oliveira). Eva Wilma interpreta Cândida, avó de Henrique; Letícia Sabatella é Ana, a mãe de Laura; e Marcos Caruso faz o padre Inácio. Lima Duarte, Fernanda Paes Leme, Bruna Marquezine, Grazi Massafera e Rodrigo Lombardi também estão na trama escrita por Walther Negrão.
A atriz também comenta sobre o autor: “O texto do Negrão é de uma delicadeza tremenda, ele contou uma história linda, tenho muita saudade de trabalhar com ele”.
A conversa também passou por Páginas da Vida e pelas diferentes maternidades que atravessaram sua carreira. De Nanda à Ana, chegando agora em Samira, Fernanda acredita que a experiência de ser mãe alterou profundamente sua percepção sobre subtexto: “Você entende mais o que não está sendo dito”. A maternidade me deixou mais sensível às motivações”.
Depois do fim de Três Graças, Fernanda revela que existem propostas para teatro e cinema, mas ainda sem contratos fechados. Por enquanto, a prioridade é desacelerar: “Estou curtindo meu filhote e organizando as coisas que deixei por fazer”.
