Depois de conversar com Virgílio Silva e Zé Dassilva, o Pittaplay encerra a série especial de entrevistas com os autores de Três Graças ouvindo justamente um nome de peso da teledramaturgia brasileira: Aguinaldo Silva. Autor de clássicos que atravessaram gerações, Aguinaldo fala sobre o nascimento da novela, a construção de personagens que dominaram a internet, o impacto de Sophie Charlotte como Gerluce, o sucesso do casal “Loquinha”, o legado de Senhora do Destino e o futuro após mais um trabalho que recolocou seu nome no centro do horário nobre.
Existe um detalhe curioso em Três Graças que talvez explique muito sobre a novela. Enquanto boa parte da dramaturgia contemporânea corre para chegar logo ao próximo acontecimento, Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgílio Silva mostraram-se interessados em outra coisa: permanecer no sentimento. As personagens carregam marcas que não desaparecem em uma cena de transição. Há tempo para sofrer, amar, odiar e desejar vingança. Tempo para existir.
É justamente aí que Três Graças encontrou sua força. A novela não tenta parecer moderna o tempo inteiro. Ela aposta no clássico sem pedir desculpas por isso. E, paradoxalmente, foi exatamente essa escolha que a transformou num fenômeno contemporâneo.
“Esse retrato do cotidiano foi o que funcionou”

Mesmo com décadas de experiência, Aguinaldo admite que não esperava a dimensão alcançada por Três Graças. “Achei que podia causar impacto no público usando o tom do realismo combinado com o melodrama”, revela o autor.
Aguinaldo reconhece ter feito esta combinação em obras como Senhora do Destino e Império: personagens populares envolvidos em conflitos grandiosos, mas emocionalmente reconhecíveis: “Esse retrato do cotidiano de pessoas comuns, mas envolvidas com altos dramas, foi o que funcionou em Três Graças”.
Há também um componente simbólico nesse retorno. Aguinaldo conta que era tratado como um autor “aposentado” pela indústria. O sucesso da novela, nesse sentido, carrega camada adicional de significado: “O sucesso vale em dobro para quem já era considerado, digamos assim, aposentado”.
A fila de adolescentes grávidas que nunca saiu da memória

A origem de Três Graças não nasceu numa sala de roteiro, mas numa maternidade pública do Rio de Janeiro. Enquanto escrevia Duas Caras, exibida pela Globo em 2007, Aguinaldo visitou a maternidade Leila Diniz para uma pesquisa. O que encontrou ali permaneceu atravessado em sua memória por quase duas décadas.
“Quando cheguei lá, logo cedo, tinha fila enorme de mulheres esperando para serem atendidas, e percebi que a maioria dessas mulheres eram meninas. Isso me chocou profundamente, porque eram adolescentes grávidas de 15, 16 anos. Algumas ainda com jeito meio infantil”. O choque não vinha apenas da juventude das garotas, mas da ausência masculina naquele espaço.
“Um amigo que foi comigo falou uma frase que me marcou: ‘Você está vendo algum homem aqui?’” A pergunta virou semente dramática: “Achei que um dia eu teria de escrever sobre elas”.
Foi daí que nasceram as “três graças”: mulheres obrigadas a amadurecer cedo demais, sem apoio, carregando sozinhas o peso da maternidade.
Gerluce e Sophie Charlotte: protagonista antes mesmo da escalação

Algumas escolhas parecem inevitáveis. Aguinaldo conta que nunca imaginou outra atriz para viver Gerluce: “Sempre pensei na Sophie para interpretá-la”. O mais curioso aconteceu na primeira conversa com José Luiz Villamarim, diretor do gênero dramaturgia da Globo: “Ele me perguntou quem eu tinha pensado para viver a Gerluce. Eu disse: ‘Sophie Charlotte!’ E ele retrucou: ‘eu também’”.
Para Aguinaldo, uma grande protagonista precisa carregar algo essencial: objetivo: “E ele precisa ser heroico, com o qual o espectador se identifique”. Ele relaciona essa construção diretamente à clássica jornada do herói: “É aquela história de Ulisses demorar vinte anos, mas não desistir do seu objetivo até conseguir voltar para casa”.
Até detalhes aparentemente pequenos da novela dialogam com isso. O tricô de dona Josefa, por exemplo, é uma referência direta ao bordado de Penélope na mitologia grega, conta o autor.
“E se a gente dobrar a aposta?”

Poucos fenômenos paralelos da novela cresceram tanto quanto o casal Lorena e Juquinha, interpretadas por Alanis Guillen e Gabriela Medvedovsky, apelidado carinhosamente pelo público de “Loquinha”.
Segundo Aguinaldo, tudo nasceu durante uma reunião de autores. A ideia inicial era simples: Ferette, um homem profundamente homofóbico, descobriria que o filho havia se apaixonado por uma mulher trans. Mas os autores decidiram ir além: “E se a gente dobrar a aposta?’”
Foi assim que nasceu o casal: “Loquinha fez tanto sucesso que ganhou história própria em novela vertical da Globo”. Inclusive, aqui para o Pittaplay, a diretora da novelinha, Naína de Paula contou bastidores e a revolução do casal na teledramaturgia. Confira.
A repercussão faz Aguinaldo Silva refletir também sobre a evolução da representatividade LGBTQIAPN+ nas novelas brasileiras: “Um passo de cada vez e com muita paciência”. Ele lembra que o primeiro beijo romântico entre personagens do mesmo sexo numa novela só aconteceu em 2014, em Amor à Vida, protagonizado por Félix e Niko, interpretados respectviamente por Mateus Solano e Thiago Fragoso.
Hoje, segundo ele, o cenário é outro: “Temos em Três Graças o casal Loquinha, formado por duas mulheres, a conquistar corações por todo o mundo”, comenta o autor, referindo-se ao sucesso internacional das personagens.
Arminda nasceu pronta

Alguns personagens parecem exigir construção gradual. Outros chegam completos. Arminda pertence à segunda categoria: “Minhas vilãs, quando brotam, já estão dando frutos”.
A descrição de Aguinaldo sobre a personagem é quase orgânica, como se ela tivesse surgido independente dos próprios autores: “Arminda foi exatamente como era quando surgiu na nossa frente e anunciou que estava ali e não tinha vindo para brincar de boneca”.
Segundo ele, o trabalho dos roteiristas foi apenas ouvir a personagem: E então veio Grazi Massafera: “Ela tratou de levá-la além de todas as nossas expectativas”, diz elogiando a interpretação da atriz.
Personagens que mudaram a rota da novela

Embora Três Graças tenha seguido majoritariamente o planejamento inicial, alguns caminhos precisaram ser recalculados. O caso mais evidente foi Rogério, personagem interpretado por Eduardo Moscovis: “O personagem teve sua rota recalculada porque o ator, para vivê-lo, tinha compromissos que o impediam de entrar na novela mais cedo. Mas, para ter Du Moscovis na nossa trama, esse desvio de rota valeu a pena”.
Outros personagens cresceram organicamente diante da resposta do público e da força dos atores. Viviane e Leonardo ganharam mais espaço do que o previsto inicialmente. Samira também.
“A saída da vilã era prevista na sinopse a certa altura, mas acabou ficando até o fim da trama”. Aguinaldo faz questão de destacar a importância da atriz: “Agradeço a Fernanda Vasconcellos, cujo trabalho magnifico nos levou a fazer isso”.
Nazaré continua viva

Mesmo depois de tantos anos, Senhora do Destino, obra do autor exibida no horário nobre e que coleciona fãs até hoje, permanece como marco inevitável na trajetória de Aguinaldo. E Nazaré Tedesco continua circulando pelo imaginário popular.
“Andei aposentado durante anos e nesse período não me interessei pela audiência das novelas. Mas, em Três Graças, tive a impressão de que ela ainda é muito grande, embora se manifeste de maneira muito diversificada, nas redes sociais, principalmente. Minha arquivilã Nazaré virou meme e está por aí, servindo de ilustração até para seminários na ONU”, comenta em fala que resume algo raro: personagens que ultrapassam a novela e entram definitivamente na cultura popular.
Remakes? “Quem sabe?…”

Foto: Globo/Divulgação
Questionado sobre possíveis releituras de clássicos como Tieta, Aguinaldo demonstra cautela: “Acredito que há obras que não devem ser tocadas”. Ele cita inclusive E o Vento Levou como exemplo de obra intocável: “Não é por nada que Hollywood nunca pensou em fazer um remake. Mas outras podem ser atualizadas. Eu, particularmente, não sinto o menor entusiasmo para fazer alguma coisa desse tipo, porém… Não vou dizer que dessa água não beberei, para depois não ter que morrer de sede. Então, minha resposta é: “quem sabe?…”
O que vem depois de Três Graças
Mal terminou a novela, Aguinaldo já voltou a escrever: “Acabamos de escrever a novela num dia e no dia seguinte, ‘para relaxar’, retomei projeto antigo interrompido de uma minissérie, mas isso apenas para ‘sair’ de Três Graças”, diz bem humorado.
Além disso, ele revela possuir verdadeiro arquivo de ideias esperando oportunidade: “Quanto a algum projeto de novela, tenho um baú cheio de sinopses e ideias. Se aparecer alguém interessado nelas”. A frase parece resumir perfeitamente Aguinaldo Silva: um autor que talvez nunca tenha realmente se aposentado.

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