No teatro com “Olhares de Perfil”, Roberto Cordovani diz que Greta Garbo “seria uma esfinge” na era das redes

Roberto Cordovani em cena durante apresentação de “Olhares de Perfil (O Mito Greta Garbo)”, espetáculo que retorna aos palcos paulistanos após trajetória internacional. Foto: @pereirinhafotografias

Há espetáculos que sobrevivem ao tempo porque encontram novas formas de dialogar com o presente. Outros permanecem vivos porque ainda carregam perguntas sem resposta. Em “Olhares de Perfil (O Mito Greta Garbo)”, o ator e diretor Roberto Cordovani habita esse cruzamento. Há 39 anos interpretando figura inspirada em Greta Garbo, ele retorna aos palcos paulistanos com espetáculo que fala sobre identidade, projeção, desejo, imagem e ambiguidade, mas que, segundo ele, nunca foi sobre contar a vida da atriz sueca.

Em conversa com a coluna Cena Aberta, do Pittaplay, Cordovani falou sobre a relação construída com a personagem ao longo de quase quatro décadas, a androgenia presente na obra, a influência de pensadores como Roland Barthes e Michel Foucault no processo criativo e a forma como “Olhares de Perfil” parece dialogar com um mundo cada vez mais moldado pela estética das redes sociais.

Greta Garbo como espelho e ruptura

A estética em preto e branco e o jogo de mistério ajudam a construir a atmosfera de “Olhares de Perfil (O Mito Greta Garbo)”. Foto: @pereirinhafotografias
A estética em preto e branco e o jogo de mistério ajudam a construir a atmosfera de “Olhares de Perfil (O Mito Greta Garbo)”. Foto: @pereirinhafotografias

“Representar Greta Garbo há 39 anos não chega a fazer confronto com a minha própria identidade, mesmo porque geralmente quando escolho fazer qualquer personagem, eu busco perfil que seja completamente o oposto de mim”, afirma. Ainda assim, ele admite que a atriz lhe ensinou outra leitura sobre masculinidade. “Aprendi com Garbo, o que é paradoxal, a ser masculino. Embora ela fosse mulher, era muito masculinizada. Os amigos mais próximos ela pedia que chamassem ‘meu garoto’. Acho que a única identificação que houve foi essa questão do ser masculino. O Garbo, nesse sentido, me ensinou”.

A peça, criada ao lado de Alejandra Guibert, surgiu depois da impossibilidade de adaptar “Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar, por questões de direitos autorais. Foi durante esse processo que Cordovani encontrou um livro chamado “O Mito”, de Robert Payne, com Greta Garbo estampando a capa. O encontro redefiniu o rumo da criação.

“Ali me deparei com uma Garbo simples, que rejeitava toda essa questão de celebridade. Ela tinha complexos, não sabia falar inglês, passou anos tentando se adaptar. Então, tudo isso me fez entender que não era homenagem a ela, mas uma chamada de atenção para nós, que criamos mitos e nos mitificamos”.

Entre o mito e a imagem construída

Essa desconstrução ganha novos significados em 2026. Em um mundo onde todos parecem construir versões idealizadas de si mesmos, Cordovani acredita que o espetáculo ficou ainda mais atual e talvez mais incômodo.

“Hoje todo mundo quer se sofisticar, se sentir importante, agenda lotada, sempre felizes nas fotos. Parece que todo mundo vive em comunhão com Deus. O público que entender a mensagem vai perceber que estamos fazendo uma crítica. Greta Garbo, no espetáculo, é um pretexto”.

A ambiguidade segue como eixo central da montagem. O ator em cena é apenas alguém interpretando Garbo ou a própria atriz tentando reconstruir outra identidade? Cordovani prefere não responder e talvez seja justamente essa ausência que sustente o mistério da obra.

“Essa construção realmente não pretende dar respostas. Muitas vezes eu em palco me confundo se serei ou não a própria. É muito louco o jogo que fazemos”, comenta. “O espetáculo tem várias metáforas. Ele é todo preto e branco, uma luz tênue, muito bem recortada, como se estivéssemos vendo um filme noir diretamente em estúdio”.

Um teatro que sobrevive na ambiguidade

Entre sombras, ambiguidades e referências ao cinema noir, Roberto Cordovani e Ruben Gabira conduzem “Olhares de Perfil” em nova temporada no Teatro Paiol Cultural. Foto: @pereirinhafotografias
Entre sombras, ambiguidades e referências ao cinema noir, Roberto Cordovani e Ruben Gabira conduzem “Olhares de Perfil” em nova temporada no Teatro Paiol Cultural. Foto: @pereirinhafotografias

Ao longo da entrevista, Cordovani também reflete sobre a recepção do espetáculo ao redor do mundo. “Olhares de Perfil” percorreu nove países europeus e rendeu ao ator prêmios em Londres, Madri, Santiago de Compostela e no Festival de Edimburgo. Para ele, parte do impacto estava justamente na ambiguidade que o espetáculo propunha.

“O público não sabia se era um homem ou uma mulher. Talvez isso tenha chamado tanta atenção. Em Londres fiquei um ano e dois meses em cartaz falando em português. Era algo que eu mesmo não entendia”.

Mesmo após quase 1.700 apresentações, ele garante que o espetáculo continua vivo porque nunca se repete completamente: “O teatro pulsa, não está engessado. O espetáculo sempre é novo. Internamente talvez a gente crie o reflexo do público em nós. O frio na barriga existe porque eu entro renovado cenicamente”.

Cordovani também reconhece que “Olhares de Perfil” acabou se tornando um espaço de resistência em tempos de consumo rápido e excesso de exposição: “O teatro não consegue competir com essa lógica das redes sociais, mas ele resiste. E com isso a gente vai formando cada vez mais um público pensante”.

Quando questionado sobre Greta Garbo existir hoje, em era de hiperexposição digital, a resposta surge quase como uma continuação natural do espetáculo: “Acho que ela seria muito mais misteriosa, porque estaria muito mais exposta. Literalmente seria uma esfinge”.

No fim, “Olhares de Perfil” sobrevive há tanto tempo justamente porque nunca quis revelar completamente quem é Greta Garbo. Ou quem somos nós diante dos reflexos que escolhemos construir.

Um jogo de imagens, mistério e ambiguidades no palco

Em “Olhares de Perfil”, Roberto Cordovani e Ruben Gabira transformam Greta Garbo em ponto de partida para discutir identidade, imagem e projeção. Foto: @pereirinhafotografias
Em “Olhares de Perfil”, Roberto Cordovani e Ruben Gabira transformam Greta Garbo em ponto de partida para discutir identidade, imagem e projeção. Foto: @pereirinhafotografias

Mais do que revisitar Greta Garbo, “Olhares de Perfil” constrói atmosfera de investigação permanente. A trama acompanha um ator que se apresenta em uma casa noturna interpretando a atriz sueca enquanto um fotógrafo freelancer, Jorge, vivido por Custódio Jr, passa a suspeitar que aquele homem em cena seja, na verdade, a própria Garbo desaparecida desde 1939. A montagem ainda ganha a presença do crossdresser Jane Suset, interpretado por Ruben Gabira, ampliando o jogo de espelhos e ambiguidades que atravessa toda a narrativa.

Roberto Cordovani descreve o trio em cena como um “duelo de interpretações”, sustentado justamente pela incerteza que a peça nunca tenta resolver completamente. O palco quase vazio, a iluminação recortada e a estética em preto e branco aproximam o espetáculo da linguagem dos filmes noir hollywoodianos, criando uma sensação constante de deslocamento entre realidade e ficção.

A nova temporada também carrega o peso histórico de uma obra que atravessa gerações. Criado em 1987 por Roberto Cordovani e Alejandra Guibert, o espetáculo já percorreu mais de 300 cidades em nove países da Europa e foi premiado em Londres, Madri, Santiago de Compostela e no Festival Internacional de Edimburgo, na Escócia.

Além da trajetória internacional, o elenco reúne nomes com forte passagem pelo teatro musical e pela televisão brasileira. Ruben Gabira foi protagonista de “Priscilla, Rainha do Deserto” e participou de novelas como “Novo Mundo” e “Verão 90”. Já Custódio Jr soma trabalhos em novelas, séries, longas-metragens e produções verticais.

“Olhares de Perfil (O Mito Greta Garbo)” segue em cartaz no Teatro Paiol Cultural até 21 de junho, com sessões aos sábados, às 21h, e domingos, às 19h30.

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