Recém-saído de Três Graças, onde viveu o intenso Vandilson, Vinícius Teixeira já direciona novamente sua energia para o teatro. Em cartaz com o solo Selva: Solidão, no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, o ator mergulha numa experiência cênica construída a partir de exposição emocional, desgaste físico e vulnerabilidade contínua.
Mas o espetáculo não surge apenas como retorno aos palcos. Surge como necessidade artística.
No palco, Vinícius interpreta sozinho três personagens diferentes, todos homens gays atravessados por experiências de solidão, trauma e isolamento emocional. E o mais interessante é que o ator não tenta esconder o mecanismo teatral dessa transformação. Pelo contrário.
“Tem uma coisa muito interessante dessa peça. O mecanismo teatral está exposto o tempo todo! A plateia assiste, a olho nu, o meu corpo, minha voz e minha energia sendo direcionadas para a maneira como cada personagem se apresenta.”
A frase ajuda a entender o que move Selva: Solidão. O espetáculo não busca desaparecer dentro dos personagens. Busca justamente expor o ator atravessando cada um deles: “Não escondo quem sou. Eu sou o meio pelo qual os personagens se materializam. O meu corpo acaba sendo a conexão deles todos.”



Existe algo muito poderoso nessa escolha. O corpo deixa de ser apenas ferramenta de atuação e passa a funcionar como território emocional da narrativa. As diferenças entre os personagens aparecem na voz, no ritmo e nos movimentos. Mas Vinícius entende que existe algo invisível unindo todos eles: “O fato de os três serem homens gays, por si só, acaba fazendo com que eles tenham experiências e sentimentos que os conectam. A solidão é um desses elementos.”
E a solidão da peça não nasce apenas da ficção. Durante a pandemia, morando sozinho, o ator percebeu que sua escuta interna ficou mais intensa. O isolamento atravessou diretamente o processo criativo do espetáculo: “Nós aproveitamos o tempo livre e a solidão imposta para trabalhar nesse texto”, relembra sobre a parceria com o diretor Jefferson Almeida.
Mas Selva: Solidão não fala apenas sobre dores individuais. Existe uma preocupação coletiva atravessando o espetáculo: “Precisamos urgentemente rever os nossos comportamentos dentro da comunidade para podermos transformá-los e criar uma comunidade mais saudável.”
No palco, tudo isso exige preparação física, precisão e permanência emocional. Vinícius revela que continua revisitando constantemente o espetáculo para manter a intensidade da experiência viva no corpo: “Tenho o hábito de passar o Selva: Solidão uma vez por semana em casa sozinho. É uma peça difícil e que exige muita precisão.”
O teatro, aqui, funciona como permanência. Como corpo que guarda emoções, repete dores e transforma experiência pessoal em atravessamento coletivo. E Selva: Solidão permanece exatamente assim: uma experiência emocional exposta sem proteção diante da plateia.
Selva: Solidão está em cartaz no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, até 26 de junho, com sessões às quintas e sextas, às 20h.

