Os Outros: Luisa Lima abre o processo criativo da série: “A emoção pode estar no silêncio ou na explosão”

Existe inquietação permanente em Os Outros. Ela não nasce apenas dos conflitos, dos surtos emocionais ou das relações que se rompem diante do espectador. A série parece contaminada por tensão contínua, quase física, que transforma até cenas de afeto em espaços desconfortáveis. Nada ali relaxa completamente. Nem o amor. Nem o silêncio. Isso acontece desde o primeiro episódio da primeira temporada. A intensidade engrandeceu na segunda e tomou proporções inimagináveis na terceira, que estreou em abril no Globoplay.

Toda essa sensação que a série provoca não é acidente. Em conversa exclusiva com a coluna Cena Aberta, do Pittaplay, a diretora Luisa Lima abriu o próprio processo criativo para falar sobre direção de atores, atmosfera, construção de linguagem e a relação visceral que desenvolveu com os textos de Lucas Paraizo ao longo das três temporadas da série.

O texto antes da câmera

Antes mesmo de o roteiro chegar oficialmente em suas mãos, Luisa já participa das primeiras movimentações criativas da história: “No caso de Os Outros, a minha relação com o roteiro começa antes, nas muitas conversas e trocas que tenho com Lucas, quando ele divide as primeiras ideias comigo”, conta.

Ainda assim, ela evita transformar a primeira leitura em exercício técnico imediato. Existe um mergulho emocional anterior à direção: “Mesmo na primeira leitura, quando ainda não objetivo muita coisa, existe já uma análise em processo, mas sem dúvida ainda leio intuitivamente, deixando respirar em mim aquela história, os personagens, acontecimentos, sem me antecipar em soluções, mas envolvida com a emoção que nasce ali naquele primeiro contato. Me interessa sentir o perfume, embarcar como num romance e deixar meu corpo navegar”.

A diretora admite que provocar atrito com o texto também faz parte da construção da própria assinatura visual e dramática da série: “Criar alguma fricção com o texto é uma condição necessária para a realização da minha própria escrita em cima do que já existe ali”, explica.

Ela afirma que algumas escolhas de decupagem, ações ou até mesmo o tom de determinadas cenas acabam deslocando a narrativa para caminhos inesperados: “Uma cena pode abrir caminhos que não estão exatamente escritos e surpreender. Lucas certamente adora quando isso acontece. Esse, certamente, é um dos papéis da direção”.

O que explode e o que permanece escondido

“Queremos a epifania.” Foi assim que Luisa Lima definiu parte do processo criativo por trás de Os Outros em entrevista exclusiva ao Pittaplay.
Foto: Arquivo Pessoal.
“Queremos a epifania.” Foi assim que Luisa Lima definiu parte do processo criativo por trás de Os Outros em entrevista exclusiva ao Pittaplay. Foto: Arquivo Pessoal.

O aspecto mais revelador da conversa está justamente naquilo que Luisa procura dentro dos personagens de Os Outros. Não é o conflito explícito que mais interessa à diretora: “O que está sendo evitado pelos personagens me interessa sobretudo. O que não é dito, os dilemas velados, as falhas, o desamparo, o medo, o paradoxo”, afirma.

Ao mesmo tempo, ela também demonstra fascínio pelo momento em que tudo implode: “Gosto quando o circo pega fogo. São cenas importantes que revelam muito de cada um diante da urgência, do tipo de reação que cada um tem numa hora de embate, de desespero ou de violência”.

Dirigir no fio da navalha

Essa dualidade atravessa também o trabalho de direção de elenco. Em série construída permanentemente “no fio da navalha”, como ela mesma define, o desafio nunca foi empurrar os atores para o excesso, mas encontrar verdade dentro da explosão emocional.

“Estimulo os atores para uma entrega sobretudo do que eles podem encarnar de mais verdadeiro, seja com um grito ou com um olhar, seja contendo ou explodindo. Existem muitas formas de atravessar situações limite”.

Luisa conta que a medida emocional das cenas nasce de construção coletiva que começa na preparação e continua no set. O trabalho corporal, as conversas, as referências e até o uso da música se tornam ferramentas fundamentais para atingir o estado emocional desejado: “Uso muita música no set para indicar a frequência, criar a atmosfera, sugerir o tom”.

Ao falar sobre direção, ela rejeita a ideia de controle rígido e absoluto, embora reconheça que dirigir também seja conduzir uma engrenagem complexa: “Gosto muito de provocar e de ser provocada”, resume.

“O controle sobretudo no sentido de direcionar e de estimular a presença e a potência que cada um pode ser ali. Queremos a epifania. O set é um lugar de encontro, de experiência coletiva, de liberdade. O que busco no final das contas é o descontrole”.

A arquitetura da claustrofobia

Na coluna Cena Aberta, Luisa Lima falou sobre direção de atores, silêncio, tensão emocional e os bastidores criativos de Os Outros.
Foto: Arquivo pessoal
Na coluna Cena Aberta, Luisa Lima falou sobre direção de atores, silêncio, tensão emocional e os bastidores criativos de Os Outros.
Foto: Arquivo pessoal

A atmosfera sufocante de Os Outros também foi assunto central da entrevista. Questionada sobre a sensação de claustrofobia que domina a série, inclusive em cenas românticas ou aparentemente leves, Luisa define a linguagem como uma soma entre roteiro e direção: “É a soma de intenções apontadas no roteiro e a materialização e potencialização na linguagem explorada pela direção”.

Ela detalha que tudo participa da construção desse desconforto: duração dos planos, movimentação de cena, fotografia, trilha sonora e enquadramentos: “O tempo dos planos, em geral longos, contribui muito para isso, mas também a movimentação em cena, o enquadramento, a falta de corte, a trilha, a fotografia. Tudo compõe uma sensação, uma atmosfera, um sentimento”.

Mesmo assim, a diretora faz questão de afirmar que a série não deseja apenas aprisionar emocionalmente o espectador: “A ideia é que tenham sim brechas de luz, de afeto, de esperança. A gente não deseja apenas apontar para o absurdo e as dores do mundo”.

Segundo ela, existe posicionamento claro dentro da dramaturgia da série: “O que a gente deseja dizer no final das contas é que exista mais amor, mais compaixão e menos intolerância e violência”.

Luisa também revelou que, apesar da identidade já consolidada da produção, ela e Lucas sempre enxergaram Os Outros como uma trilogia. Ainda assim, ela admite que aquele universo continua oferecendo possibilidades narrativas: “Os Outros é um mundo infinito de possibilidades”.

A diretora, porém, adianta que a terceira temporada traz “espécie de encerramento do arco principal de Cibele”, personagem interpretada por Adriana Esteves.

Sobre o futuro, Luisa preferiu manter mistério, mas confirmou que já trabalha em uma nova série: “Tenho novidades para o futuro próximo, em breve vou contar. A complexidade e as contradições nas relações humanas sempre me fascinam”.

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