Em Todos os Lugares começou para mim na dedicatória. Depois, na carta ao leitor. E foi ali que Thainá Toffo fez algo que considero pouco comum: antes mesmo de apresentar seus personagens, apresentou sua intenção.
Uma frase ficou ecoando depois que fechei a página: “É sobre amizade, sobre amor, sobre crescer e perceber que algumas coisas doem mesmo quando passam. E, ainda assim, deixam algo bonito: o som do que ficou.”
Existem escritores que contam histórias e aqueles que avisam ao leitor qual será a temperatura emocional da viagem. Thainá escolhe o segundo caminho. Antes mesmo de conhecer Caio ou Pedro, eu já sabia que estava entrando numa narrativa sensível. Não necessariamente triste. Não necessariamente romântica. Sensível.
O primeiro capítulo, O garoto cantando no banheiro, cumpre exatamente aquilo que a sinopse promete. Parece observação simples, mas não é. Muitas histórias vendem uma ideia e demoram centenas de páginas para entregá-la. Aqui, não. Thainá apresenta seus protagonistas, estabelece o conflito inicial e coloca a trama em movimento logo de cara.
Conhecemos Caio, sua relação com a banda, com os amigos e com a urgência de preencher o vazio deixado pelo vocalista que foi embora da cidade. Há uma meta clara, um problema concreto e uma corrida contra o tempo.
Mas o que mais me chamou atenção foi a atmosfera.
A cidade de B. não serve apenas de cenário. Ela respira dentro da narrativa. É pequena, familiar e reconhecível. Daquelas cidades que parecem existir mesmo quando fechamos o livro. Thainá entende que lugares também contam histórias e usa isso a favor da construção do universo.
Outro acerto está na estrutura do capítulo. Primeiro vemos os acontecimentos pelos olhos de Caio. Depois, quando ele ouve um garoto cantando no banheiro, a narrativa recua alguns minutos e passamos a acompanhar a mesma situação pela perspectiva de Pedro.
É um recurso simples, mas extremamente eficiente. Não apenas amplia a compreensão da cena, como também impede que a leitura se torne linear demais. O capítulo ganha profundidade porque o leitor passa a ocupar dois lugares ao mesmo tempo.
Pedro surge como um contraste interessante para Caio. Desde o início, fica claro que sua resistência não nasce da arrogância. Ela nasce do medo do apego. E a autora tem o cuidado de deixar isso evidente sem transformar o personagem num mistério artificial.
Não existem lacunas criadas apenas para gerar suspense. Existem motivos e uma escrita assim faz toda diferença.
Quando Caio não consegue tirar Pedro da cabeça, a história dá seu primeiro passo emocional. Ainda é cedo para falar de amor. Mas não é cedo para falar de interesse. Curiosidade. Fascínio.
A frase sobre o garoto do banheiro não é apenas um pensamento passageiro. É a primeira rachadura no muro que separa esses dois personagens.
E então chega o fim do capítulo.
Caio finalmente faz o convite para a banda. Pedro reage de maneira inesperada. Avança sobre ele. O ameaça.
Fim.
É o tipo de encerramento que cumpre uma função essencial: não permite que o leitor feche o livro.
Ao terminar este primeiro capítulo, fiquei com a sensação de que Thainá Toffo sabe exatamente qual história quer contar. Mais importante: sabe como contá-la. Ainda é cedo para falar sobre o destino de Caio e Pedro, mas não é cedo para afirmar que a autora construiu uma abertura sólida, envolvente e emocionalmente honesta.
Por enquanto, sigo ouvindo o eco daquela frase da carta ao leitor.
O som do que ficou.
E, depois desse primeiro capítulo, alguma coisa já ficou.
