Existe diferença importante entre uma novela que começa e uma novela que se prepara para começar. Quem Ama Cuida chega à sua terceira semana justamente nesse ponto de virada. A partir desta segunda-feira, 1º de junho, o público finalmente verá a sequência de acontecimentos que foi apresentada desde a divulgação da trama: a morte de Arthur Brandão, a prisão de Adriana e o início da jornada de vingança da protagonista.
Mas o mais interessante é perceber que a novela não correu para chegar até aqui. Em tempos de narrativas aceleradas, Walcyr Carrasco e Claudia Souto tiveram coragem cada vez mais rara na televisão: confiar no tempo da história.
Durante 12 capítulos, os autores fizeram algo que muitos folhetins contemporâneos abandonaram. Construíram terreno dramático. O público não chegou à semana decisiva apenas sabendo quem são os personagens. Chegou entendendo quem eles são, o que e como eles sentem.
E isso faz toda a diferença.
Quando Adriana for apontada como culpada pela morte de Arthur Brandão e tiver sua vida destruída, o espectador não estará diante de uma desconhecida, mas de uma mulher cuja dor, luto, inseguranças e fragilidades foram apresentadas cuidadosamente ao longo das últimas semanas.
O mesmo vale para Arthur. Seria muito fácil transformar o milionário vivido por Antônio Fagundes em apenas mais uma vítima de assassinato dentro da engrenagem da trama. A novela escolheu outro caminho. Mostrou sua solidão. Sua carência afetiva. Seus conflitos familiares. Sua necessidade de afeto. Fez o público criar vínculo.
Agora sua morte terá peso.
E peso emocional sempre vale mais do que impacto imediato.
Essa construção cuidadosa também aparece em outros núcleos. Tivemos tempo para conhecer os receios de Otoniel, interpretado com enorme sensibilidade por Tony Ramos. Tivemos tempo para nos aproximar dos mistérios de Diná, personagem que Rosi Campos vem construindo com riqueza impressionante de detalhes. Tivemos tempo para entender o sofrimento de Pedro após descobrir a falsa gravidez inventada por Bruna.
Nada foi atropelado e o exemplo mais interessante está justamente na história de amor central da novela.
Pedro e Adriana ainda não se beijaram. Não se declararam. Não vivem um romance. Mas o público já sabe que eles caminham nessa direção.
É um recurso clássico da dramaturgia. Os autores não pedem que o espectador torça pelo casal depois que ele existe. Pedem antes. A novela planta expectativa, constrói desejo e faz o público querer acompanhar essa aproximação, enquanto os personagens vivem suas próprias jornadas.
Adriana ainda tenta reorganizar a vida após a perda do marido. Está envolvida no casamento por contrato com Arthur e atravessa conflitos que independem de qualquer romance. Pedro, por sua vez, tenta reconstruir a própria vida depois de descobrir que alimentou o sonho da paternidade sobre uma mentira.
Eles possuem trajetórias próprias e justamente por isso o futuro encontro dos dois parece promissor.
O acerto de Amora Mautner

A direção artística de Amora Mautner entende perfeitamente o ritmo proposto pelo texto. Existe sintonia pouco comum entre roteiro e encenação. A novela nunca transmite ansiedade para chegar ao próximo acontecimento. A câmera observa. Os diálogos respiram. As cenas têm duração suficiente para que os sentimentos apareçam.
A estética acompanha o mesmo movimento e tudo parece convidar o público a mergulhar naquele universo sem pressa. Amora usa e abusa de ângulos bem trabalhados e diferentes do que os olhos do público estão acostumados. Ela causa a sensação de que tem algo novo no ar e faz com que ‘Quem Ama Cuida’, fique bem longe do esteriótipo de só mais uma novela das nove.
O resultado é evidente.
Em apenas duas semanas, Quem Ama Cuida já entregou grandes cenas de confronto, atuações inspiradas e personagens que despertam empatia, rejeição, curiosidade ou afeto. O elenco inteiro parece compreender o tom da novela e embarcar na mesma proposta narrativa. Antônio Fagundes, Tony Ramos, Letícia Colin, Chay Suede, Isabel Teixeira, Rosi Campos, Isabela Garcia e tantos outros encontram espaço para desenvolver seus personagens sem precisar correr atrás do próximo plot twist.
E agora as reviravoltas finalmente chegam. A morte de Arthur Brandão encerra aquilo que pode ser chamado de prólogo da novela, enquanto a prisão de Adriana abre uma nova etapa.
Novos personagens entram em cena. Novos conflitos surgem. As alianças serão reorganizadas e os inimigos se revelarão, até mesmo aqueles que ainda não decidiram de qual lado do muro estão.
Os afetos serão colocados à prova e a história vendida ao público desde o lançamento finalmente começa a ocupar o centro da narrativa. O mais interessante é que essa virada não acontece sobre terreno vazio, mas sobre uma base construída com cuidado.
Por isso a terceira semana de Quem Ama Cuida é tão importante. Não porque a novela demorou para começar, mas porque soube exatamente como se preparar para esse momento.
Se Walcyr Carrasco e Claudia Souto continuarem apostando em diálogos fortes, personagens bem desenvolvidos e no precioso hábito de dar tempo ao tempo, tudo indica que o horário nobre da Globo tem mais um grande novelão em suas mãos.
E isso começa agora.
