A série teve a oportunidade de revisitar uma história de 2016 com um olhar de 2026.
O livro O Acordo, primeiro da série Off Campus – Amores Improváveis, de Elle Kennedy, publicado em 2016. Dez anos depois, a adaptação para as telas através do Prime Video teve a oportunidade de revisitar essa história com olhar diferente. E esse foi um dos seus maiores acertos.
Minha experiência foi o contrário da maioria dos fãs: primeiro assisti à série, me apaixonei pela história e só depois fui ler O Acordo.
O mais surpreendente foi como a série condensou os principais acontecimentos do livro sem perder a essência da história. Mesmo com apenas oito episódios, a adaptação preserva aquilo que faz Hannah e Garrett funcionarem tão bem.
Importante: este texto contém spoilers.
Quando adaptar é mais do que copiar
As adaptações foram muito bem feitas em tópicos sensíveis, como o abuso sofrido por Hannah e a relação conturbada de Garrett com o pai. Em vez de reproduzir cada acontecimento do livro, a série parece ter buscado formas mais eficientes de abordar esses conflitos dentro do tempo disponível.
E é neste ponto que a adaptação se destaca. Em vez de tentar copiar a obra original cena por cena, ela parece entender o que fazia esses conflitos funcionarem e encontra novas formas de transmiti-los para uma audiência dez anos depois.
Em nenhum momento há a sensação de que essas alterações descaracterizaram a história. Pelo contrário: elas parecem pensadas para funcionar melhor dentro da linguagem da televisão e dos temas que a série queria aprofundar.
Homens escritos por uma mulher. Lapidados por outra.

Foto: Reprodução/Prime Video
Existe um aspecto na adaptação que conquista mais do que qualquer mudança de enredo: a forma como os personagens masculinos foram construídos.
O clássico sempre retorna: “homens escritos por mulheres”. Mas, neste caso, personagens que já funcionavam muito bem no livro de Elle Kennedy ganharam novas camadas na adaptação de Louisa Levy.
Garrett, Logan, Tucker e Dean são diferentes entre si, mas compartilham algo pouco comum: eles não têm medo de demonstrar afeto. Conversam sobre sentimentos, acolhem os amigos, respeitam as mulheres ao seu redor e entendem que vulnerabilidade não diminui a masculinidade de ninguém e é isso que tocou e conquistou tantos espectadores.
Destaque para a cena de quando Garrett procura uma bebida confiável para Hannah e Logan oferece uma cerveja lacrada. É uma cena simples, mas que revela preocupação genuína com a segurança dela sem transformar isso em um grande discurso.
Em muitos romances universitários, quase esperamos que em algum momento um dos protagonistas ultrapasse olimite ou tome atitude imperdoável. Em Off Campus, a surpresa é justamente perceber que eles continuam sendo homens decentes até o final.
É esta combinação que transforma Garrett, Logan, Tucker e Dean em personagens tão memoráveis.
Mas se os meninos ganharam novas camadas na adaptação, as mulheres também se beneficiaram desse olhar mais contemporâneo.
As garotas de Briar
As personagens femininas são totalmente incríveis e a Allie das telas está ainda mais entregue e vulnerável do que a percepção de quem lê o livro. Na série, Mika Abdalla encontrou o tom perfeito para essa personagem. Allie se tornou ainda mais espontânea, divertida, insegura, leal… e aí está a grande importância de todos os detalhes do audiovisual: direção, caracterização, adaptação e, obviamente, a composição da atuação de Mika.
A protagonista Hannah encantou desde o primeiro momento. Ella Bright trouxe a ela toda a animação, encanto, romantismo, nervosismo e todas as características que estavam no livro e precisaram ganhar vida nas telas. A série preserva a força da Hannah sem reduzir sua personalidade ao trauma que ela viveu.
É muito interessante uma mulher escrever a história e outra mulher adaptar a série porque em cenas mais delicadas como a Hannah contando do seu abuso, ela demonstra autonomia mesmo sem esconder suas fragilidades.
Menos choque, mais intimidade

Foto: Reprodução/Prime Video
As cenas hot foram muito mais certeiras na série do que no livro.
Em O Acordo há necessidade de chocar. São muitos detalhes que nem sempre se fazem necessários. Parece que foram colocados de forma aleatória e sem intenção de, de fato, desenvolver intimidade. Além disso, não são todas as cenas que combinam com os personagens. Às vezes parece quebrar a personalidade deles, se tornando exagerado.
Para quem leu, a cena de sexo pós jantar de Ação de Graças, por exemplo, foi desnecessária e na adaptação foi muito bem conduzida.
Isso não quer dizer que as cenas escritas no livro não funcionam, mas a série encontrou forma mais natural de construir a intimidade entre os personagens.
A série entende o valor do tempo
O livro pode dedicar dezenas de páginas a um conflito, mas a série precisou escolher o que realmente era importante para o arco do personagem.
Para o audiovisual remodelaram os diversos concursos do livro para um único no qual Hannah participa. Ficou mais pessoal, mais tocante e dramático.
Outro ponto é o motivo do término de Garrett e Hannah. No livro, Hannah e Garrett terminam por causa do seu pai abusador, Phil, mas na série tiraram esse término por causa dele. A alteração mantém o foco na relação entre os dois, sem desviar a atenção para um conflito que já havia cumprido sua função narrativa.
Quando a música também conta a história
As músicas não estão ali apenas para preencher o silêncio ou embalar cenas românticas. Elas ajudam a construir a identidade dos personagens e potencializam momentos importantes da história, fazendo com que algumas cenas tenham ainda mais impacto emocional. Como a música já tem papel importante na trajetória de Hannah e de Garrett, foi um acerto da adaptação transformar esse elemento em parte da identidade da série.
Poucas séries recentes me fizeram correr para procurar músicas depois dos episódios. Em Off Campus, a sensação é de que cada faixa foi escolhida para amplificar exatamente o que os personagens estão sentindo naquele momento.
O resultado de dez anos de distância
A adaptação foi pensada para construir os personagens dos livros com ainda mais profundidade, personalidade e humanidade.
A liberdade que o livro possui para explorar detalhes é também uma de suas maiores qualidades. Mas nem todos esses detalhes eram indispensáveis para contar a história.
O livro continua sendo a base de tudo o que funciona em Off Campus. Mas a adaptação soube reconhecer quais elementos mereciam mais espaço, quais conflitos poderiam ser simplificados e quais personagens poderiam ganhar novas camadas. O resultado é uma história que preserva a essência do original enquanto encontra uma forma ainda mais eficiente de emocionar.
A adaptação foi ideal para fazer o público se apaixonar por essa história que está só começando.
A série está disponível no Prime Video e quem ainda não apreciou, vale a pena, até porque as gravações da segunda temporada já começaram e há indícios que no início de 2027 ela já estará entre nós.
