Existe uma ansiedade curiosa quando um capítulo termina bem.
A última página do capítulo anterior de Em Todos os Lugares deixava Caio diante de Pedro, depois de uma ameaça inesperada e de um gancho impossível de ignorar. Por isso, confesso: quando comecei O fliperama vazio, esperava reencontrá-los exatamente onde os havia deixado.
Mas Thainá Toffo escolhe outro caminho. E funciona.
Sempre tenho certa dificuldade quando uma história encerra um capítulo com um momento forte e o capítulo seguinte não continua imediatamente dali. É uma preferência pessoal. Gosto da sensação de mergulhar direto nas consequências do que aconteceu.
A literatura, porém, nem sempre segue nossos desejos de leitor. Aqui, a autora utiliza um recurso bastante conhecido: amplia o universo antes de retornar ao conflito principal. E faz isso apresentando novos personagens que parecem ter sido cuidadosamente posicionados dentro da narrativa.
Conhecemos Milena, filha da funcionária da família Sato. Conhecemos melhor Felipe, integrante da banda de Caio. Conhecemos Bernardo. E rapidamente percebemos que existe ali um núcleo secundário com potencial para muito mais do que simples participações ocasionais.
Milena e Felipe carregam uma rivalidade que vem da infância. Bernardo ocupa um espaço intermediário entre eles. Nada parece gratuito. Pelo contrário: a sensação é de que Thainá está construindo peças que serão importantes quando a história principal exigir novos pontos de apoio.
É um segundo capítulo que expande o cenário sem perder de vista o coração da trama. E esse coração continua sendo Pedro.
Se no primeiro capítulo ele era um mistério interessante, aqui ele ganha profundidade. A autora dedica tempo para apresentar suas inseguranças, sua relação familiar e, principalmente, as rachaduras que existem dentro da própria casa. O casamento dos pais já não parece perfeito há muito tempo e essa informação não surge apenas como detalhe biográfico.
Ela ajuda a explicar quem Pedro é. Ajuda a entender seus medos. Ajuda a compreender por que ele parece sempre preparado para partir antes que alguém possa ficar. É uma decisão acertada.
Personagens não se tornam humanos apenas por aquilo que fazem. Tornam-se humanos por aquilo que carregam e Pedro começa a carregar muito peso. Quando finalmente retorna à interação entre os protagonistas, o capítulo encontra seu melhor momento.
Caio conduz Pedro pela cidade de B., apresentando seus lugares, suas rotinas e sua própria forma de enxergar o mundo. Existe algo delicado nessa sequência porque, sem perceber, Caio faz exatamente aquilo que Pedro mais teme: começa a criar pertencimento.
E pertencimento exige permanência. Quando Caio brinca que participar da banda pode torná-lo ainda mais popular entre meninas ou meninos, Pedro se desconcerta de maneira imediata e foge.
Caio não entende, mas o leitor entende ou pelo menos começa a entender. Porque a grande força deste capítulo não está nas palavras ditas entre os personagens, mas naquelas que ainda não conseguem dizer.
Isso fica ainda mais evidente na carta enviada a Guilherme. Talvez seja meu momento favorito da leitura até agora.
Na primeira correspondência desde a mudança, Pedro fala sobre a nova cidade, sobre o convite para integrar a banda e sobre um garoto chamado Caio. Um garoto em quem ele insiste em pensar.
Um garoto que ocupa espaço demais dentro de uma carta que não deveria ser sobre ele. Quando Pedro escreve “eu conheci alguém”, a narrativa deixa de trabalhar apenas com subtexto.
Não é uma declaração. Não é uma confissão. Mas é um anúncio.
A autora mostra ao leitor aquilo que os personagens ainda não conseguem enxergar completamente e que algo está nascendo.
E a melhor decisão de Thainá Toffo é não ter pressa. O romance não surge de forma repentina. Ele se aproxima devagar, ocupando pequenos espaços, invadindo pensamentos, aparecendo em cartas e silêncios.
Como acontece na vida. Ao final de O fliperama vazio, a sensação é de que a história deixou de apresentar seus protagonistas e começou, de fato, a construí-los.
E há uma diferença enorme entre uma coisa e outra. Caio e Pedro já foram apresentados. Agora estamos começando a conhecê-los.
