Algumas histórias nascem da imaginação. Outras surgem de encontros que deixam marcas profundas. Com o escritor Regis Medeiros, autor de Le Orc, foi exatamente assim.
Técnico de enfermagem há mais de uma década, ele encontrou a inspiração para seu protagonista em plantão de CTI. O resultado foi uma narrativa ambientada na França da Guerra dos Cem Anos, que acompanha Armmand, guerreiro com Síndrome de Down que precisa enfrentar não apenas os desafios de período marcado pela violência, mas também o preconceito.
Em entrevista ao Pittaplay, Regis contou que seu contato com a criação de histórias começou muito cedo: “Até onde me lembro, eu expressava essa criação de histórias com desenhos e quando tive contato com quadrinhos, passei a reproduzir minhas ideias entre divisórias tortas tipo revistinha mesmo. Acho que acabei indo para a parte mais literária conforme fui lendo mais autores como Stephen King e Bernard Cornwell”, relembra.
A profissão também desempenha papel importante em sua escrita. Acostumado a lidar diariamente com pessoas em momentos delicados de suas vidas, o autor encontrou na observação uma de suas principais ferramentas criativas.
“Gosto muito de observar pessoas. A maioria dos personagens que idealizo tem alguma marca de alguém que conheço. Trabalhar na área de saúde é trabalhar com pessoas e isso é um campo fértil para colher personalidades muito distintas.”
Foi justamente dentro desse ambiente que nasceu a inspiração para Le Orc: “Encontrar o Carlinhos no leito de CTI foi algo muito marcante para mim. Quando aquele rosto distinto com traços de Down abriu os olhos azuis, parecia que ele estava simplesmente acordando de um sono e pronto para voltar a viver”, conta.
Segundo ele, havia algo diferente naquele momento: “Carlinhos tinha serenidade no olhar que me fez dizer a mim mesmo que lá estava um verdadeiro guerreiro. Então, as palavras guerreiro e Síndrome de Down juntaram-se e me deram a inspiração.”

Inicialmente, a história seria ambientada em universo de fantasia. Porém, durante o processo criativo, Regis decidiu levar a narrativa para um período histórico real: “No início, a contextualização foi planejada em um mundo de fantasia. Pensei em reinos fictícios e outras coisas fantásticas, mas acabou que senti que tudo precisava acontecer em um período real.”
Apaixonado por História, ele encontrou na Guerra dos Cem Anos o cenário ideal: “O período fez sentido, pois foi de muita luta e virada milagrosa para os franceses. Isso, de alguma forma, fez sentido para introduzir um personagem peculiar nessa narrativa medieval.”
Armmand, protagonista da obra, foi construído para ser muito mais do que um símbolo de representatividade: “Desde as primeiras linhas, o principal inimigo de Armmand é o preconceito. Ele nasce e cresce em um mundo hostil onde a Síndrome de Down é tratada como maldição passível de execução ao nascer.”
O autor revela que seu maior receio era transformar o personagem em uma figura superficial: “Meu maior medo era usá-lo como representatividade superficial, mas acredito que consegui transmitir sua complexidade como queria.”
Ao longo da narrativa, a violência do período medieval divide espaço com reflexões mais profundas sobre identidade e humanidade.
“Muitos que leram o livro se chocaram um pouco com algumas situações pesadas que escrevi. Eu quis retratar um contexto de guerra, mas acredito que a narrativa vai se equilibrando conforme o protagonista passa a se questionar, entender quem ele realmente é e até quando ferir à espada é a solução.”
Questionado sobre o que define um herói, Regis apresentou visão que ajuda a compreender a essência de seu protagonista: “Para mim, herói não é apenas aquele que resolve tudo sozinho. É aquele que consegue inspirar outros a buscarem uma solução juntos.”
E complementa: “Vejo o herói não apenas como o que se levanta para combater, mas o que se levanta para mudar vidas ao redor.”
Um dos momentos mais emocionantes de toda a trajetória do livro aconteceu quando ele decidiu apresentar a obra à família de Carlinhos, que inspirou a criação de Armmand: “Confesso que tive um medo bobo de contar aos pais dele, ainda mais quando o Carlinhos faleceu no tempo em que escrevia.”
O receio deu lugar à emoção: “Tive oportunidade de conhecer o pai, a irmã, os tios, primos… todos muito animados e emocionados.”
A convivência com a família trouxe uma confirmação importante para o escritor: “O mais bonito é que conforme eles foram contando sobre a pessoa de Carlinhos, mais tive certeza que acertei na personalidade companheira de Armmand. Posso dizer que conheci amigos nessa jornada.”
Hoje, enquanto divide seu tempo entre os plantões, a divulgação da obra e a escrita, Regis já pensa nos próximos passos: “Tenho pensado em desenvolver novas histórias dentro do mesmo universo de Le Orc, mas também estou explorando outras ideias.”
Seja em um castelo medieval ou em um leito de hospital, a literatura de Regis Medeiros parece partir sempre do mesmo lugar: a observação do ser humano e a certeza de que grandes histórias nascem de pessoas reais.
