Felipe Oládélè vê em Barbosa uma reflexão sobre o Brasil: “Ninguém pode ser resumido ao pior momento da vida”

Felipe Odálèlè fala sobre Barbosa em Brasil 70: "Ninguém pode ser resumido ao pior momento da vida". Foto: Mia Shimon

Interpretar Moacir Barbosa foi muito mais do que reconstruir a trajetória de um dos personagens mais marcantes da história do futebol brasileiro. Para Felipe Oládélè, que dá vida ao ex-goleiro em Brasil 70: A Saga do Tri, a experiência se transformou em profunda reflexão sobre julgamento, memória, racismo e humanidade.

Em entrevista ao Pittaplay, o ator contou que mergulhar na história de Barbosa o levou a enxergar as pessoas com mais empatia e menos pressa para julgar: “Quando você mergulha profundamente na vida de uma pessoa, entende que ninguém pode ser resumido ao pior momento da sua vida ou a um único erro”, afirmou. “A trajetória do Barbosa me fez pensar muito sobre isso. Sobre como a sociedade, muitas vezes, simplifica pessoas complexas e transforma seres humanos em símbolos de culpa.”

A história do goleiro da Seleção Brasileira, transformado durante décadas no principal responsável pela derrota para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950, atravessou a preparação do ator de forma intensa.

Segundo Felipe, o caso revela necessidade coletiva de criar heróis e culpados para organizar emoções nacionais: “Quando existe uma grande conquista, a gente cria heróis. Quando existe uma grande frustração, muitas vezes também surge a necessidade de encontrar um culpado. E quase nunca isso acontece de forma justa ou racional.”

Para ele, a trajetória de Barbosa também não pode ser separada da questão racial: “O que mais me atravessou foi perceber como um acontecimento coletivo acabou sendo colocado sobre os ombros de uma única pessoa. E aí entram questões muito profundas sobre raça, memória e poder. Porque não dá para separar a maneira como o Barbosa foi tratado do fato de ele ser um homem negro ocupando um lugar de enorme exposição.”

A memória seletiva do Brasil

Felipe Odálèlè interpreta Moacir Barbosa em Brasil 70: A Saga do Tri e mergulha na trajetória de um dos personagens mais complexos e injustiçados da história do futebol brasileiro.
Foto:Mia Shimon
Felipe Odálèlè interpreta Moacir Barbosa em Brasil 70: A Saga do Tri e mergulha na trajetória de um dos personagens mais complexos e injustiçados da história do futebol brasileiro.
Foto:Mia Shimon

Uma das reflexões mais marcantes da entrevista surge quando Felipe fala sobre a famosa frase de que o brasileiro teria “memória curta”. Para ele, a história de Barbosa aponta justamente para outra direção.

“A trajetória do Barbosa mostra que o Brasil tem, ao mesmo tempo, memória muito curta e muito seletiva. Algumas coisas desaparecem rapidamente, enquanto outras são mantidas vivas quase como uma marca permanente.”

O ator acredita que a forma como o país lidou com o ex-goleiro revela muito sobre quem tem o direito ao esquecimento e quem carrega determinadas marcas para sempre: “Isso me fez pensar muito sobre quais histórias o Brasil escolhe lembrar, quais corpos carregam o peso dessa lembrança e quem tem o direito ao esquecimento ou à reconstrução da própria imagem.”

A solidão que ficou depois do futebol

Durante a preparação para o papel, uma descoberta específica marcou profundamente Felipe. Mais do que a derrota em campo, o que o impactou foi compreender a solidão vivida por Barbosa durante décadas.

“Saber que, anos depois, ele tentou visitar a seleção brasileira e foi impedido de entrar. Aquilo, para mim, diz muito sobre o Brasil. Porque não era mais sobre futebol. Era sobre pertencimento, exclusão e memória.”

O ator também revelou que recriar o famoso gol sofrido no Maracanã o fez refletir sobre como determinados acontecimentos podem aprisionar uma pessoa para sempre: “Acho que isso me acompanhou depois das filmagens: a reflexão sobre como certos acontecimentos podem marcar uma vida inteira e sobre como, às vezes, a sociedade retira das pessoas o direito de seguir em frente.”

O olhar coletivo e o mundo das redes sociais

Na série da Netflix, Felipe Odálèlè revisita a vida de Barbosa e propõe uma reflexão sobre memória, racismo e os julgamentos que atravessam gerações. Foto Mia Shimon
Na série da Netflix, Felipe Odálèlè revisita a vida de Barbosa e propõe uma reflexão sobre memória, racismo e os julgamentos que atravessam gerações. Foto Mia Shimon

Embora a história de Barbosa tenha acontecido muito antes da internet, Felipe vê paralelos claros com o presente: “Acho que conhecer profundamente a história do Barbosa me fez pensar ainda mais sobre o peso do olhar coletivo e sobre como a exposição pública pode ser um lugar muito violento.”

Para ele, a velocidade com que as pessoas são julgadas atualmente reforça a importância de construir uma identidade que não dependa apenas da aprovação externa: “Ninguém consegue sustentar a própria existência se viver apenas a partir da expectativa externa. Porque o olhar do público muda o tempo todo.”

Muito além do futebol

Embora Brasil 70: A Saga do Tri tenha o futebol como pano de fundo, Felipe acredita que a série propõe uma conversa muito mais ampla sobre o país: “Uma coisa que me atravessou muito foi perceber como a série fala de um país que transforma seus jogadores quase em figuras míticas, mas que também está o tempo inteiro disputando o significado desses símbolos nacionais.”

Segundo ele, temas como identidade nacional, pertencimento, racismo e memória atravessam toda a narrativa: “A série revisita momento histórico atravessado pela ditadura, pelo uso político do futebol e pela construção de heróis nacionais, mas ao mesmo tempo conversa com um presente em que os símbolos brasileiros também parecem sequestrados por disputas ideológicas, polarizações e narrativas de poder.”

O abraço que ele daria em Barbosa

Ao ser questionado sobre o que perguntaria a Moacir Barbosa caso pudesse encontrá-lo pessoalmente, Felipe surpreende. Ele não começaria com uma pergunta: “Acho que primeiro eu gostaria de dar um longo abraço no Barbosa e dizer que ele não está só.”

O ator afirma que gostaria de lembrar ao ex-goleiro que a dor carregada por ele nunca foi apenas individual: “Dizer que a dor que ele carregou não era apenas individual, mas também coletiva. Que o peso daquela violência, daquele julgamento e daquele abandono revela muito sobre o racismo estrutural que atravessa a história do Brasil há tanto tempo.”

Ao final da entrevista, fica claro que Felipe Odálèlè não encontrou em Barbosa apenas um personagem histórico. Encontrou uma pergunta que continua ecoando no Brasil contemporâneo: o que acontece quando uma sociedade decide transformar uma pessoa inteira em símbolo de um único momento?E é essa reflexão que faça Brasil 70: A Saga do Tri ir muito além do futebol.

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