Isabelly Silva transforma saudade em história e faz da ausência o centro de Ligação Perdida

Autora Isabelly Silva revela como a saudade da avó deu origem a Ligação Perdida e como o luto atravessa sua escrita e construção narrativa.

A escrita de Isabelly Silva não nasce como a maioria que é de uma ideia. Nasce da ausência. Antes de qualquer estrutura, de qualquer técnica, existe gesto íntimo e silencioso que sustenta sua literatura: tentar dizer o que não foi dito a tempo. É desse lugar que surge Ligação Perdida, livro que transforma saudade em fio narrativo e costura, com delicadeza e firmeza, as rupturas de uma família que se desfaz após a morte da avó.

“Eu só queria que ela soubesse o quanto a amo e sinto falta das nossas conversas”, diz a autora, ao lembrar do instante exato em que a história começou a se formar. A frase não só explica o livro, mas o sustenta por inteiro, em cada verso, em cada página, em cada capítulo.

Escrita que começou no improviso e nunca mais parou

A trajetória de Isabelly não foi planejada. Aos 14 anos, ainda distante de qualquer ideia de profissão, encontrou na escrita território inesperado enquanto produzia fanfics. A experiência, que começou como extensão da leitura, rapidamente se transformou em exercício de imaginação: “Minha paixão por escrita era completamente desconhecida”, afirma.

A construção de universos complexos, inspirados em narrativas como Senhor dos Anéis, abriu espaço para algo maior. Não apenas escrever histórias, mas entender que podia criá-las do zero. A partir dali, a escrita deixou de ser tentativa e passou a ser necessidade e esse movimento inicial molda tudo que vem depois.

O momento em que escrever deixou de ser escolha

Agosto de 2021 não é apenas uma data na memória da autora. É ponto de virada na sua trajetória de vida. Durante a graduação em Cinema, Isabelly encontrou edital de incentivo cultural que oferecia possibilidades múltiplas. Entre elas, escrever um livro. Não houve hesitação: “Inscrevi-me sem pensar duas vezes”, conta.

Dessa decisão nasce Quando eu morrer, primeiro livro publicado, estruturado sob prazos, relatórios e exigência de organização. O que poderia limitar o processo fez o contrário. Criou disciplina. Criou método. Criou uma autora que entende o próprio ritmo. A escrita, ali, ganha corpo profissional.

Luto como matéria-prima e não como recurso

Isabelly Silva escreve a partir de um lugar que não se esgota: a saudade. Em Ligação Perdida, transforma memória em narrativa e constrói uma história que nasce da ausência, mas insiste em permanência. Foto: Arquivo Pessoal.
Isabelly Silva escreve a partir de um lugar que não se esgota: a saudade. Em Ligação Perdida, transforma memória em narrativa e constrói uma história que nasce da ausência, mas insiste em permanência. Foto: Arquivo Pessoal.

Ligação Perdida não utiliza o luto como tema, mas o trabalha como origem. A autora não esconde a raiz emocional do livro. Pelo contrário, afirma com clareza o lugar de onde a história emerge. A morte da avó, há treze anos, não ficou no passado. Permaneceu como ausência ativa, como pergunta sem resposta, como desejo de continuidade.

“Toda a história do livro foi concebida a partir da saudade que sinto da minha vó”. A imagem central do livro nasce de um impulso real. Durante viagem ao interior de Pernambuco, Isabelly sentiu vontade de ligar para o número da casa da avó, mesmo sabendo que ninguém atenderia. No mesmo instante, anotou a ideia que daria origem à narrativa.

Dois anos depois, essa anotação se transforma em livro. Não há elaboração excessiva, mas o reconhecimento do sentimento e coragem para colocá-lo no papel.

Nordeste como identidade, não como cenário

A escrita de Isabelly abandona referências importadas para assumir origem própria. Se no início havia influência estrangeira, hoje há escolha consciente. A autora desloca o eixo da narrativa para dentro da cultura que a formou. Recife, interior de Pernambuco, festas juninas, linguagem e memória. Tudo aparece como estrutura e não apenas como mero detalhe narrativo.

“Hoje em dia, sinto a necessidade de expressar essas culturas em cada história que crio”, afirma a autora e este movimento não é decorativo. É um posicionamento.

A literatura deixa de imitar para afirmar pertencimento. E isso reorganiza a leitura. O leitor não entra apenas em uma história, mas em território afetivo que carrega identidade, ritmo e textura próprios.

A ligação não é sobrenatural. É insistência do afeto

O elemento que poderia ser lido como fantástico ganha outro sentido na voz da autora. A ligação entre Lúcia e a avó não foi pensada como fenômeno sobrenatural. Não há interesse em explicar o impossível. O foco está em outra camada.

“A intenção é transmitir a representação de um amor que atravessa a morte”, diz. O livro não busca resposta. Busca permanência e ao final, o que se revela não é o mistério da ligação, mas o desencontro entre irmãs. A “ligação perdida” não está na linha telefônica. Está na relação interrompida dentro da própria família.

Personagens que exigem escuta e não julgamento

A construção dos personagens revela cuidado e tensão. Lúcia, narradora de 12 anos, exige reconstrução emocional. Isabelly retorna à própria memória para acessar sensações daquela idade, somando a elas sentimentos que não viveu, como rancor e conflito com a irmã: “Tive medo de não representar bem esse sentimento”, admite.

Já Mariana, mãe das personagens, carrega outro desafio. A depressão não é tratada como explicação fácil. Surge filtrada pelo olhar da filha, que não compreende completamente o que vê.

A escolha da narração em primeira pessoa organiza essa complexidade sem simplificar o conflito. O leitor entende o limite da narradora e, ao mesmo tempo, percebe o que está além dela.

Publicação que muda a forma de existir como autora

O percurso de Ligação Perdida não termina na escrita. A publicação digital inaugura outra etapa. Exige exposição, presença, comunicação direta com leitores. Isabelly abandona a timidez para sustentar o próprio trabalho.

“Tive de deixar a vergonha de lado para divulgar este livro”, afirma. A chegada à Editora Flyve amplia esse movimento. O livro ganha versão física, circulação maior, encontros presenciais. A Bienal de Pernambuco entra nesse processo como experiência concreta de troca.

O que fica depois da última página

Isabelly não constrói finais fechados, mas sim permanências. O que deseja provocar no leitor não é resposta imediata, mas continuidade de pensamento. A reconciliação, dentro da história, nasce do desejo insistente das personagens: “Quando se há vontade, há realização”, resume.

A frase não funciona como moral. Funciona como eco. Fica depois da leitura. Fica como possibilidade.

Próximos passos e a recusa de repetir a si mesma

A autora reconhece o tema recorrente. A morte ainda atravessa sua escrita. Mas há movimento.

Isabelly não pretende permanecer no mesmo lugar narrativo. Busca novas estruturas, novas linguagens e desafios. O próximo projeto aponta para uma dramédia ambientada no purgatório, inspirada em dinâmicas de convivência intensa.

“Não pretendo escrever dez livros sobre a mesma coisa”, afirma. A frase indica direção. Indica inquietação. Indica continuidade e talvez seja isso que sustenta sua escrita desde o início. Não a certeza do caminho, mas a necessidade de seguir escrevendo.

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