O que diferencia Quem Ama Cuida de tantas outras novelas atualmente não está apenas nas grandes viradas, nos assassinatos ou nos conflitos familiares. Está nos detalhes e poucos parecem tão cuidadosamente escolhidos quanto os livros que surgem nas mãos dos personagens ou ocupam espaço nas estantes da novela.
À primeira vista, os livros em Quem Ama Cuida podem parecer apenas objetos de cena. Uma forma de preencher ambientes ou reforçar o perfil intelectual de determinados personagens. Mas basta observar com mais atenção para perceber que existe algo maior acontecendo.
Os livros não estão ali apenas para compor cenário. Eles dialogam com a narrativa.
Quando Adriana, personagem de Letícia Colin, aparece lendo A Odisseia, de Homero, a escolha não parece aleatória. A obra é uma das maiores jornadas de sobrevivência da literatura ocidental. Uma história sobre perdas, obstáculos, resistência e retorno. Difícil não enxergar paralelos com a trajetória da protagonista, que desde os primeiros capítulos vem sendo empurrada para uma sucessão de desafios que parecem longe de terminar.
O mesmo acontece com Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski, livro que aparece nas mãos de Brigitte, papel de Tatá Werneck. Na obra, um patriarca rico é assassinado e as suspeitas recaem sobre pessoas próximas. A coincidência com a morte de Arthur Brandão é evidente demais para passar despercebida. Esta cena, inclusive, foi ao ar no mesmo capítulo em que o personagem de Antônio Fagundes foi assassinado misteriosamente.
Arthur, aliás, também surge cercado por leituras que parecem conversar diretamente com os temas da novela. Em determinados momentos, aparece lendo O Idiota, também de Dostoiévski, e A Sangue Frio, clássico de Truman Capote que transformou um crime real em uma das obras mais importantes do jornalismo literário. Já Carmita, interpretada por Déborah Evelyn aparece com Morte no Nilo, de Agatha Christie, uma das mais famosas histórias de assassinato e investigação da literatura policial.
Isso significa que os livros revelam quem matou Arthur? Provavelmente não. Mas talvez essa nem seja a questão mais interessante.

O que chama atenção com os livros em Quem Ama Cuida é o cuidado da direção artística de Amora Mautner e de toda a equipe em transformar a literatura em parte da linguagem da novela. Os livros funcionam como comentários silenciosos sobre os temas da trama, ampliando significados sem precisar explicar nada ao público.
No fim das contas, Quem Ama Cuida parece entender algo que a boa dramaturgia sempre soube: histórias conversam com histórias.
E, neste caso, algumas delas estão escondidas entre as páginas dos livros que aparecem em cena.
