Há novelas que fazem sucesso e outras que viram assunto. Mas existem aquelas produções que conseguem algo ainda mais difícil: devolver ao público o prazer genuíno de sentar no sofá todos os dias para acompanhar uma história, ou que seja para ver no dia seguinte, mas o mais importante é que Três Graças conseguiu trazer o público de volta para a alma da novela.
A novela que teve coragem de ser novela
Em tempos em que muita novela parecia pedir desculpas por ser novela e tantas outras tentavam imitar o estilo seriado americano, a trama escrita por Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgílio Silva fez o caminho contrário. Abraçou o gênero sem vergonha, sem medo do melodrama, sem tentar transformar a novela das nove em outra coisa. E este foi seu maior triunfo.
Depois de experiências recentes como Mania de Você e Vale Tudo não conseguirem criar conexão duradoura com o público, voltar a assistir uma produção com cara de novela, ritmo de novela, trejeitos de novela e personagens assumidamente novelescos parecia quase um respiro. “Três Graças” entendeu algo bem simples que parte da televisão esqueceu: o brasileiro gosta de novela, de acompanhar personagens diariamente, criar torcida, discutir vilões, sofrer com injustiças e esperar ansiosamente pelo próximo capítulo.
O retorno do DNA clássico de Aguinaldo Silva

E ninguém entende isso melhor do que Aguinaldo Silva. O autor conhece como poucos a engenharia emocional do gênero. Foi assim em tramas como Senhora do Destino, Império, Duas Caras, Fina Estampa, Tieta, Roque Santeiro e até mesmo a original Vale Tudo que ele transformou personagens em patrimônio afetivo do público. Em Três Graças, esse universo reaparece mais vivo do que nunca. Aguinaldo cria protagonistas fortes, vilãs enlouquecedoras, conflitos exagerados e situações absurdas sem transformar nada em caricatura vazia. Mesmo quando ultrapassa limites, existe assinatura. Existe identidade. Fica com cara de Aguinaldo Silva.
Ritmo, construção e o prazer da espera

Ao lado de Zé Dassilva e Virgílio Silva, o autor encontrou parceiros que entendem ritmo, construção e desenvolvimento de personagem. Os Silvas não tinham preguiça de mostrar processos e quem abraçou com força essa coragem foi o diretor artístico Luis Henrique Rios que usou e abusou dos artifícios técnicos das novelas da década passada. O zoom na reação dos personagens foi o maior trunfo dessa repescagem, algo que havia sumido das tramas e que voltou mostrando ser mais útil e melodramático do que nunca.
O planejamento dos autores e da direção foi tamanho que “Três Graças” chegou a passar praticamente uma semana inteira acontecendo no mesmo dia apenas para aprofundar relações, escolhas e consequências. Isso vai além de planejamento narrativo. É estudo de comportamento. É entendimento de que novela não vive apenas de reviravolta, mas também da convivência diária com aqueles personagens. Foi como se Três Graças olhasse de canto de olho para sua antecessora e dissesse, em tom de ‘olha pra mim e vê como é que faz’, que não precisa fazer nada correndo pra viralizar na internet um corte que amanhã ninguém lembra mais.
Gerluce nunca deixou de ser protagonista

E foi exatamente isso que fez o público se apegar tanto à trajetória de Sophie Charlotte como Gerluce. A protagonista jamais foi apagada. Transitava por praticamente todos os núcleos e nunca perdeu importância dramática. Havia preocupação evidente em mantê-la pulsando dentro da história. Sophie, por sua vez, encontrou ali uma das personagens mais completas de sua carreira. Gerluce sofreu, amou, enfrentou injustiças, errou, se revoltou e permaneceu humana até o último capítulo.
Para não esquecer que teve um plus a mais, Gerluce até organizou um crime, indo contra todas as receitas de bolo do que é ser protagonista. Os Silvas, aqui, jogaram fora o caderninho de receitas, mas não se esqueceram como é que faz. Mais uma vez, Três Graças olhou para sua antecessora e provou que quem ocupa este cargo não deve perder seu posto para ninguém e que por mais que um outro personagem cresça, ele terá seu espaço, mas não será o da protagonista.
Um casal movido pelas próprias escolhas

Foto: Globo
O romance entre Gerluce e Paulinho talvez represente uma das escolhas mais inteligentes da novela. Eles não tinham um antagonista direto sabotando o casal o tempo inteiro. O que criava obstáculos eram as próprias escolhas dos dois, os desencontros emocionais, as consequências dos atos e os caminhos que cada um decidia seguir. Sustentar isso por quase 200 capítulos sem perder interesse é trabalho de quem entende profundamente dramaturgia popular.
Vilãs que devolveram o delírio ao horário nobre

As vilãs também carregaram o DNA clássico do autor. Fernanda Vasconcellos transformou Samira em presença cruel, amarga e perturbadora. Uma personagem inicialmente programada para sair no meio da trama acabou permanecendo porque o público comprou completamente sua perversidade. Já Arminda entrou diretamente para a galeria de grandes vilãs de Aguinaldo. Grazi Massafera encontrou um tom preciso entre exagero, humor e ameaça. Arminda agora se encontra na mesma prateleira de Nazaré, Maria Altiva, Teresa Cristina e tantas outras que nasceram da memória curiosa de Aguinaldo..
Mas talvez nenhuma personagem tenha crescido tanto quanto Lucélia. O trabalho de Daphne Bozaski foi se expandindo de forma impressionante. A vilã começou como uma mulher invejosa e ambiciosa, mas terminou como figura fria, calculista e psicopata. Sua trajetória ganhou dimensão rara dentro da novela e culminou num desfecho trágico à altura da construção feita ao longo da trama.
Só para não esquecer, Murilo Benício encarou muito bem o desafio de fazer Santiago Feretti. O vilão foi super valorizado pelos autores e esteve por trás das grandes armações da história, desde a falsa morte de Rgoério, passando pelo tema central que era a distribuição de remédios falsos, o preconceito contra a filha lésbica e o filho se casar com uma mulher trans, passando pelas mortes dos próprios comparsas e finalizando com a tentativa de acabar com a vida da protagonista. Ferette simbolizou tudo de ruim que um vião precisa ter.
Quando até os paralelos importam

Foto: Divulgação/Beatriz Damy
Nos núcleos paralelos, a novela também acertou ao criar personagens carismáticos e úteis para o desenvolvimento geral da obra. Vinícius Teixeira, Lucas Righi, Luisa Rosa, Enrique Diaz, Andréia Horta, Eduardo Moscovis, Gabriela Loran, Marcos Palmeira, Pedro Novaes, Xamã, Lorrana Mousinho e Kelzy Ecard encontraram espaço para existir e marcar presença.
E existe ainda algo simbólico em ver Arlete Salles tão valorizada. Há tempos a televisão não entregava para a atriz uma personagem que permitisse brincar tanto em cena. O público foi presenteado com isso.
Loquinha e o amor sem pedido de desculpas

E dentro desse universo tão rico de personagens, a novela ainda encontrou espaço para construir um dos casais mais importantes da televisão recente. Lorena e Juquinha, o fenôeno “Loquinha”, ultrapassaram o status de casal querido para se transformarem em representação afetiva real para muita gente. Gabriela Medvedovski e Alanis Guillen entenderam que o impacto da relação não estava apenas no romance, mas na humanidade com que ele era mostrado.
Sem transformar o amor entre as duas em discurso panfletário ou conflito reduzido à sexualidade, a novela permitiu que Lorena e Juquinha existissem como qualquer grande casal de novela: com ciúmes, humor, desejo, medo, companheirismo e afeto cotidiano. “Loquinha” mostrou para muita gente que amar e ser amada também é direito de existir em horário nobre sem precisar pedir licença. O público comprou a história porque viu verdade, química e duas personagens vivendo um amor que não era tratado como exceção, mas como sentimento legítimo. Isso muda imaginários. Isso cria identificação. Isso também é papel da novela.
E mais do que isso, Três Graças de nov olha de canto olho, desta vez muito mais debochada, para sua antecessora e prova que casal LGBTQIAPN+ é muito mais do que militância gratuita e casamento no último capítulo. Os autores não apagaram as personagens a novela inteira para no final dar um casamento a elas. Eles, simplesmente, contaram a história de Louquinha com começo, meio e fim.
Nem todo novelão escapa dos tropeços
Claro que “Três Graças” teve tropeços. O núcleo do porteiro demorou demais para encontrar função dramática e a discussão envolvendo o diagnóstico de autismo de Cristiano merecia mais tempo e aprofundamento. Ainda assim, mesmo nesses momentos, a novela demonstrava preocupação em dialogar com questões sociais reais sem transformar tudo em discurso artificial.
No fim, o núcleo cômico não funcionou e a dramaticidade chegou tarde demais. Mesmo assim, Juliana Alves, Augusto Madeira e Davi Luis Flores entregaram sequências arrebatadoras e mostraram que faltou tato para o núcleo se sobressair.
Três protagonistas para lembrar por muito tempo

No fim, Dira Paes, Sophie Charlotte e Alana Cabral simbolizam exatamente isso. Três gerações de atrizes sustentando protagonistas fortes, presentes e humanas do primeiro ao último capítulo. Três Graças termina deixando algo cada vez visto com menor frequência na televisão atual: saudade antes mesmo de acabar. Mais do que superar expectativas ou vencer premiações, a novela conseguiu reconectar o público com um gênero que faz parte da identidade cultural brasileira.
O brasileiro nunca deixou de amar novela
No fim das contas, a novela das nove continua viva. E continua sendo paixão nacional quando encontra autores que sabem cuidar dela. E por falar em cuidar, a audiência se despede três vezes desta obra tão importante, torcendo para ser cuidada. Cuidada pela próxima produção, pelo próximo elenco, diretores e autores. Só queremos mais um novelão, então, que eles cuidem com carinho do posto deixando por Três Graças, porque no fim, quem ama, cuida.
