O curta-metragem Abismo usa a dependência química como ponto de partida para discutir algo ainda mais profundo: as relações humanas. Gravado no Rio de Janeiro e atualmente iniciando sua trajetória pelo circuito de festivais, o projeto acompanha personagens atravessados por dores, ausências e tentativas de reconstrução.
Para Adriano Mendonça, que integra o elenco da produção, a história vai muito além do tema central apresentado na superfície: “O teaser de Abismo sugere que a dependência química é apenas a ponta do iceberg. Na minha leitura, o filme fala sobre relações não resolvidas. Uma dependência química não surge do nada, sempre tem algo por trás envolvido. E, no caso deste curta, as relações familiares retratam o porquê do grande abismo entre os personagens.”
A conexão do ator com a obra também aconteceu em um nível pessoal. Durante a construção do personagem Carlos, Adriano precisou revisitar experiências que já haviam atravessado sua própria vida: “Foi um processo muito intenso, porque meu personagem passou por vivências que eu passei na minha vida pessoal. Tenho familiares que já tiveram problemas com dependência química, então muitas memórias vieram à tona. Aí que entra a arte para ressignificar muitas coisas.”
Além da carga emocional, o trabalho exigiu pesquisa. Como interpreta um policial, Adriano mergulhou em estudos sobre a profissão e sobre os tratamentos relacionados à dependência química: “A parte de pesquisa e estudo da profissão foi algo novo e instigante. Também tive que entrar mais a fundo sobre a dependência química e como funcionam os tratamentos.”
O limite entre o personagem e o ator

Interpretar personagens marcados pela dor costuma exigir um mergulho emocional intenso. Para Adriano, existe uma linha delicada entre a entrega artística e a preservação da própria saúde mental: “Existe sim. O ator tem que ter uma base de estudos muito robusta, porque nosso corpo e nossas emoções são nossos instrumentos de trabalho. É impossível separar.”
O artista acredita que o autoconhecimento é fundamental para quem trabalha com atuação: “Aí que entra algo que sempre digo: autoconhecimento e terapia. Todo ator tem que ter isso muito bem trabalhado, porque, se não, muitas vezes não consegue sair de algum trabalho bem e acaba misturando os dois mundos.”
Quando questionado sobre o que considera mais difícil dentro da realidade apresentada pelo filme, Adriano não hesita: “Ainda acredito que enfrentar uma dependência é o mais difícil. Quando você está bem consigo mesmo, de alguma forma consegue reconstruir alguns vínculos ou até construir novos. Mas quando você está na dependência, na minha visão, é mais desafiador.”
Cinema como ferramenta de reflexão
Mais do que entreter, Adriano acredita que Abismo tem potencial para provocar reflexões importantes: “Gostaria muito que as pessoas se perguntassem: como está a relação com as pessoas da sua família?”
Para ele, a obra convida o público a olhar com mais atenção para vínculos que muitas vezes acabam sendo deixados de lado: “A família, na minha visão, é a base de tudo. Por mais que muitas vezes existam vínculos que nos machucam e que devemos ter um afastamento, também é importante tentar prezar pelo amor da família. Uma proximidade, mesmo que mínima, faz diferença. Uma ligação, um apoio, uma mensagem. Não esperar que surjam problemas maiores para buscar o contato.”
Os próprios abismos

Foto: Divulgação
Nascido no interior de Mato Grosso, Adriano precisou deixar sua cidade para buscar espaço no mercado audiovisual. Uma jornada marcada por desafios, incertezas e momentos de solidão: “Vir do interior, sem contatos, conhecidos no meio, construir tudo com muito estudo, longe da família, errando muito, me colocou várias vezes nesse abismo entre o que sempre sonhei e minha saúde mental.”
Apesar das dificuldades, ele acredita que a persistência é o que diferencia quem continua de quem abandona o caminho: “É com calma, fé e paciência que você consegue continuar, porque a diferença dos que conseguem e dos que desistem é justamente não se destruir no caminho.”
O que a arte transformou
Ao olhar para sua trajetória desde o início no teatro, em 2015, até chegar às produções audiovisuais nacionais, Adriano identifica uma transformação muito específica: “Eu aprendi a me amar mais.”
A resposta surgiu enquanto observava uma fotografia da infância: “Fiquei olhando para uma foto minha criança vestida de palhaço. Eu acredito muito no dom artístico. Nossa missão é transmitir uma reflexão, um respiro para as pessoas. Mas se você não transformar isso em um grande amor interno primeiro, você sempre vai invalidar tudo o que faz.”
O ator também fala sobre um lado pouco visto da profissão: “Meu maior desafio sempre foi a solidão e a saudade. Você faz amigos que se tornam sua família, mas não ter aquele abraço das pessoas que cresceram com você naquele dia puxado, naquele dia em que você recebe os ‘nãos’, é dolorido.”
A arte permanece
Em um mundo dominado pela velocidade das redes sociais e pela busca constante por visibilidade, Adriano acredita que o papel da arte continua sendo o mesmo: “Ser artista para mim é ser capaz de levar uma pessoa a imaginar, refletir e se indagar.”
Para ele, o valor da arte vai muito além dos números: “A arte ultrapassa qualquer quantidade de likes. Ela permanece. Essas outras coisas são passageiras e sofrem mudanças constantemente. A arte sempre vai resistir.”
Ao final da conversa, o ator deixa uma mensagem para quem assistir Abismo durante sua trajetória pelos festivais: “Se entregue para a mensagem que esse curta vai te passar, sem julgamentos consigo ou com o seu próximo. Apenas vá com um olhar mais vulnerável e cuidadoso. O restante o curta vai fazer.”
Talvez seja justamente essa a principal proposta de Abismo: olhar para as dores humanas sem julgamentos, entendendo que, por trás de cada queda, existe uma história que merece ser escutada.

Tudo tem que ter um propósito e seguir em frente, saber o que quer, o nos realiza ,ver se está valendo a pena, colocar Deus em primeiro lugar e diante de tudo acima visto acredito que vai brilhar, te amo muito meu neto, fico feliz pelo empenho e coragem.