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Carolina Dieckmann protagoniza um drama delicado e profundamente humano, enquanto Anne Pinheiro Guimarães transforma a solidão e os pequenos conflitos da vida em uma narrativa comovente.
Pequenas Criaturas prova que as maiores tragédias nem sempre chegam fazendo barulho e que algumas simplesmente entram pela porta da frente e passam a morar conosco.
É exatamente assim que Anne Pinheiro Guimarães conduz seu novo longa que chega às salas de cinema de todo o Brasil em 23 de julho. Sem recorrer ao melodrama exagerado ou ao choque fácil, a diretora escolhe caminho mais interessante e desafiador : fazer o espectador reconhecer a própria humanidade em pessoas comuns tentando sobreviver aos pequenos colapsos da vida.
Helena, vivida por Carolina Dieckmann, é o centro dessa narrativa. Quando percebe que foi abandonada pelo marido, a personagem não explode. Ela continua vivendo. E é neste ponto que existe a força da interpretação. Carolina compreende que o sofrimento mais devastador quase nunca é escandaloso. Ele se instala lentamente, transforma a rotina, muda o jeito de olhar para os filhos, altera os silêncios da casa e faz com que até os gestos mais simples passem a carregar peso diferente. Seu drama não emociona porque grita, mas porque parece existir ao lado de qualquer pessoa.
Essa solidão também atravessa André e Dudu. Os dois filhos vivem conflitos completamente diferentes, mas igualmente legítimos. André enfrenta as descobertas da adolescência, a insegurança diante das primeiras paixões e a violência silenciosa das relações entre jovens. Já Dudu transforma a imaginação em abrigo. Fascinado por ficção científica, discos voadores e aventuras improváveis, encontra no próprio universo uma maneira de preencher os espaços deixados pela ausência dos adultos.
É nesse momento que Lorenzo Mello entrega uma das maiores surpresas do filme. Em seu primeiro trabalho no cinema, constrói um menino de enorme espontaneidade, dono de presença incomum. Seus diálogos nunca soam artificiais e seus olhos contam histórias antes mesmo das palavras. Toda vez que Dudu entra em cena, Pequenas Criaturas ganha ainda mais delicadeza.
Théo Medon também conduz André com honestidade, revelando um adolescente que tenta encontrar seu lugar enquanto aprende que crescer significa descobrir que ninguém possui respostas prontas.
O filme, porém, amplia esse sentimento para além da família.
Fernando Eiras interpreta Milton como um homem que inicialmente desperta desconfiança, mas que aos poucos revela apenas outra forma de solidão. Letícia Sabatella encontra em Ângela um equilíbrio delicado entre humor e melancolia, enquanto Caco Ciocler constrói Carlos com humanidade que evita qualquer caricatura. Até os personagens aparentemente mais expansivos escondem algum tipo de vazio. Anne Pinheiro Guimarães parece sugerir que todos, sem exceção, carregam pequenas ausências que tentam disfarçar diariamente.
Essa percepção ganha força na própria linguagem do filme. A diretora demonstra enorme sensibilidade ao construir significados através dos detalhes. Os enquadramentos frequentemente aproximam o olhar de insetos, pequenos objetos e gestos cotidianos, estabelecendo contraste constante entre a fragilidade humana e a imensidão da cidade. Somos gigantes diante de uma formiga, mas minúsculos diante dos prédios, das avenidas e dos problemas que insistem em nos atravessar.
Há ainda detalhe recorrente que sintetiza essa proposta. Helena quase nunca termina um cigarro. Acende, fuma alguns instantes e o abandona antes do fim. O gesto se repete diversas vezes ao longo da narrativa e parece dialogar diretamente com sua própria vida. Assim como aqueles cigarros, suas relações também permanecem inacabadas. Conversas ficam pela metade. Aproximações não se completam. Nem mesmo a maternidade consegue estabelecer a conexão que ela gostaria de construir com os filhos. Tudo parece interrompido antes de alcançar uma conclusão.
O título do longa encontra aí sua maior força simbólica.
As pequenas criaturas não são apenas os insetos enquadrados pela câmera. Somos nós. Pessoas tentando resolver conflitos que parecem sempre maiores do que nossa capacidade de enfrentá-los. Guimarães transforma essa metáfora em linguagem cinematográfica sem precisar explicá-la. Basta observar.
Ao final, Pequenas Criaturas deixa impressão curiosa. Não é um filme sobre abandono, maternidade ou amadurecimento isoladamente. É sobre humanidade. Sobre pessoas imperfeitas tentando continuar vivendo mesmo quando não sabem exatamente como. Conforme os personagens vão se conhecendo e aprofundando relações, o público vai percebendo que o vazio não sai por completo de cada um deles, mas diminui.
E esta é sua maior qualidade, a de lembrar que, diante da imensidão do mundo, todos nós continuamos sendo apenas pequenas criaturas tentando encontrar algum sentido para seguir em frente.
