Foto: João Maria Silva Junior
Algumas entrevistas terminam quando o gravador é desligado. Esta não. Ela continuou existindo no caminho de volta para casa. Talvez porque Júlio Oliveira e Daniel Tonsig não tenham respondido apenas perguntas sobre uma peça de teatro. Eles falaram sobre perda, masculinidade, amor, pobreza, liberdade e sobre a coragem ou a falta dela para viver a própria vida.
Quase vinte anos depois de o filme O Segredo de Brokeback Mountain emocionar o mundo, a história de Jack Twist e Ennis Del Mar ganha nova leitura nos palcos brasileiros. Em cartaz no Teatro Estúdio, em São Paulo, até 2 de agosto, a montagem dirigida por Moacyr Góes não se limita a contar um romance entre dois homens. Ela transforma essa história em uma reflexão sobre tudo aquilo que deixamos de viver quando o medo passa a conduzir nossas escolhas.
Para Júlio Oliveira, que interpreta Jack, o sucesso permanente da obra começa porque ela continua dialogando com um mundo que ainda está longe de resolver as questões que apresenta: “Sempre costumo falar que a gente tem uma falsa sensação de que conseguiu avançar alguns espaços que agora são nossos. Eu acho que nada está pago. Tudo é de aluguel”, afirma. “Hoje o assunto está mais em cima da mesa, e isso é importante. O teatro não existe para dizer como as pessoas devem pensar, mas para levar a discussão para dentro de casa. É esse questionamento que movimenta o mundo.”

Foto: @joaomariasilvajunior
Mais do que uma história de amor
Ao longo da conversa, fica evidente que reduzir Brokeback Mountain a uma obra LGBTQIA+ é limitar o alcance da própria história. Questionados sobre quando perceberam que estavam contando uma história que ultrapassava a sexualidade dos personagens, os dois atores chegaram praticamente à mesma conclusão por caminhos diferentes.
Quando o amor também vulnerabiliza
Júlio lembra de uma frase dita pelo diretor Moacyr Góes durante os ensaios: “Ele falou: ‘essa é uma história de desgraçados’. Aquela palavra me destruiu. Todos os personagens da peça estão mergulhados na desgraça. Ennis, Jack, Alma, os pais de Jack, as filhas do Ennis… todos vivem algum tipo de desespero. E, no meio disso tudo, existe um momento em que um personagem não oferece apenas a mão para levantar o outro. Ele desce até onde o outro está. Ali a gente entendeu uma coisa muito bonita: o amor vulnerabiliza.”
Para o ator, essa vulnerabilidade explica por que a história atravessa gerações: “A ideia do que poderia ter sido e não foi atravessa a vida de todos nós. Isso vai muito além da sexualidade. Infelizmente, o ser humano aprende muito quando perde. Talvez por isso Brokeback Mountain continue emocionando tantas pessoas.”
Daniel Tonsig, intérprete de Ennis, conta que a grande virada aconteceu quando os personagens deixaram de ser vistos como “um casal gay” e passaram a ser compreendidos simplesmente como um casal: “Tem uma cena do último encontro deles em que a gente percebeu isso. Eles vivem problemas que qualquer casal vive. Eles estão desencontrados, têm prioridades diferentes, dificuldades financeiras, expectativas diferentes. Claro que existe toda a questão da homossexualidade, mas existe também a realidade de dois trabalhadores pobres tentando sobreviver.”
Essa condição social, segundo os atores, é parte essencial da tragédia: “Eles são muito pobres. Não é uma história de amor romântico burguês. Isso muda completamente a forma como eles vivem esse relacionamento”, acrescenta Júlio.

Foto: @joaomariasilvajunior
A confiança que nasce fora do palco
A intimidade construída entre Jack e Ennis também nasce da relação estabelecida entre os dois atores fora do palco. Sem hesitar, Júlio define Daniel como um dos grandes parceiros que encontrou na profissão.
“É um parceiro maravilhoso. É inteligente, questiona, cria, provoca. Tem assinatura no trabalho dele. Quando você admira a pessoa com quem está em cena, a intimidade acontece naturalmente. A gente brinca, improvisa, se provoca o tempo inteiro. E isso continua fora do palco. Teatro já é difícil demais para a gente transformar o trabalho em um peso. Aqui a gente vive o paraíso possível.”
Daniel retribui o elogio: “Júlio sempre esteve muito aberto para criar comigo. A gente potencializa o trabalho um do outro. Existe escuta muito grande entre nós. Cada espetáculo parece abrir ainda mais esse jogo. Isso faz tudo ficar vivo.”

Foto: @joaomariasilvajunior
A tragédia termina no palco. A mudança começa na vida
Ao final da entrevista, a conversa deixa definitivamente de ser sobre teatro. Questionados sobre qual mensagem gostariam que o público levasse para casa, Daniel desloca o foco da ficção para a vida real.
“A mudança que você queria que o Ennis fizesse, faça você na sua vida. A tragédia não muda na peça. Ela muda na sociedade. Que a gente possa se mobilizar para que outros Ennis tenham finais diferentes. Porque isso ainda acontece hoje. Existem países onde ser gay continua sendo crime. Os direitos nunca estão garantidos. Eles estão sempre ameaçados.”
Júlio amplia ainda mais essa reflexão: “As pessoas da comunidade LGBTQIA+ enfrentam problema que antecede todos os outros problemas da vida: simplesmente poder ser quem são. Tem gente que morre apenas pelo fato de ser o que é. A maior lição da peça talvez seja essa. A desgraça pode ser inevitável, mas que ela aconteça pelas escolhas que você fez, pela sua assinatura, e não pelas limitações que colocaram sobre você.”
Ao fim da conversa, ficou claro que O Segredo de Brokeback Mountain nunca foi apenas uma história de amor entre dois homens. É história sobre tudo aquilo que o medo interrompe antes mesmo de começar. Sobre vidas que poderiam ter sido diferentes. Sobre escolhas que nunca chegaram a ser feitas.
É por isso que a peça continua atravessando gerações. Porque, no fundo, ela nunca falou apenas de Jack e Ennis. Ela sempre falou de todos nós.
