Letícia Colin sobre Adriana: “Acho que o amor é tão forte quanto o desejo de vingança dela”

Letícia Colin fala sobre a construção de Adriana, justiça social, vingança, amor, parceria com Chay Suede e os desafios da protagonista de Quem Ama Cuida.

Foto: Foto: Asafe Galibe

Desde que estreou em Quem Ama Cuida, Adriana passou a conduzir uma das jornadas mais complexas da dramaturgia recente. A protagonista criada por Walcyr Carrasco e Claudia Souto atravessa perdas, injustiças, desejo de vingança e a tentativa permanente de não permitir que a dor destrua sua capacidade de amar. Mas, para Letícia Colin, existe uma camada ainda mais profunda na personagem: Adriana representa milhares de mulheres brasileiras que seguem sustentando suas famílias enquanto enfrentam um país marcado por profundas desigualdades sociais.

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, a atriz falou sobre o processo de construção da protagonista, refletiu sobre justiça social, comentou a parceria com Chay Suede, revelou a importância da direção de Nathalia Ribas na construção do casal central da novela e explicou por que acredita que atuar exige viver integralmente as emoções de um personagem.

Escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, com colaboração de Wendell Bendelack, Julia Laks, Martha Mendonça, Bruno Segadilha e Isadora Wilkinson, Quem Ama Cuida encontra na direção artística de Amora Mautner uma linguagem que equilibra realismo, lirismo e forte apuro visual. É nesse ambiente criativo que Adriana se desenvolve como uma protagonista cuja trajetória ultrapassa a vingança para discutir cuidado, justiça social e liberdade.

Uma protagonista construída a partir da mulher brasileira

Mais do que interpretar uma heroína tradicional, Leticia enxerga Adriana como uma personagem profundamente conectada à realidade brasileira. Para ela, a profissão escolhida pela protagonista e sua trajetória dizem muito sobre quem essa mulher representa: “Adriana é uma personagem brasileira. A mulher que cuida da família, mas muitas vezes mais dos outros do que de si mesma. Que vai pro mundo trabalhar para colocar o pão em casa. A primeira mulher da família que faz uma faculdade, ama o que faz que é cuidar das pessoas, trazendo qualidade de vida”, conta.

Leticia também reflete sobre a profissão da protagonista: “O mais importante que eu acho na fisioterapia é livrar a pessoa da dor. É uma profissão muito linda, que exige muita paciência, resiliência para ajudar as pessoas a não desistirem, a ter otimismo e ajudá-las a melhorar. Acho a força dessa mulher muito comovente e é uma homenagem também à mulher brasileira.”

A resposta estabelece o eixo que conduz toda a construção da personagem. Antes mesmo da vingança, Adriana nasce como alguém cuja existência está ligada ao cuidado e à resistência.

Justiça antes da vingança

Embora a busca por justiça mova boa parte da narrativa, Leticia evita reduzir Adriana a uma mulher consumida pelo desejo de vingança. Para ela, a novela propõe discussão muito mais ampla sobre desigualdade social e responsabilidade coletiva: “É muito delicado falar de vingança. É um sentimento de adoecimento, de quem age pela paixão do momento, sem refletir. Acho que é mais interessante quando a história pende para o lado da justiça, como uma cura coletiva. A novela é um trabalho que chega a 40 milhões de pessoas todos os dias, sem contar o público imenso do Globoplay, então acredito que ela pode transformar a sociedade”.

A atriz segue dizendo que existe um abismo social muito grande no país, entre pessoas muito ricas e pessoas muito pobres, que ficam à mercê da vulnerabilidade, como acontece com a família da Adriana na enchente do primeiro capítulo: “São pessoas trabalhadoras, que muitas vezes passam a vida inteira ralando, mas são justamente as que mais sofrem e as que menos recebem cuidado do governo e da própria sociedade. Então, minha decisão como intérprete é jogar luz sobre isso. É isso que tento colocar no coração da Adriana: tocar o coração das pessoas e plantar essa semente de justiça social”.

Ao comentar os próximos passos da protagonista, Leticia afirma que nem ela própria conhece completamente o destino de Adriana, mas acredita que a personagem precisa encontrar o caminho da verdade e da responsabilização dos culpados: “Não sei muito bem o caminho que ela vai tomar, nem as escolhas que vai fazer. Mas acho justo que Adriana tenha o direito de ver a verdade aparecer e de descobrir tudo sobre essa mentira tão grande que foi o assassinato do Arthur. É importante que as pessoas que fizeram mal sejam responsabilizadas e que a verdade venha à tona”.

Enquanto isso, a protagonista vive um conflito permanente entre agir movida pela emoção ou seguir fielmente o plano que elaborou durante anos. Para Leticia, esse equilíbrio será determinante nos próximos capítulos: “Ela fica no limite, se autogerenciado e se controlando muitas vezes para o emocional não tomar conta. Ela está em condição financeira muito diferente da dos vilões da novela, o que dificulta sua atuação. Faltam recursos, faltam ferramentas. Existe essa divisão interna entre seguir a intuição e a emoção ou seguir o plano. Ela passou seis anos pensando nisso. Essa frieza, esse pensamento obsessivo, deram a ela um grande lastro de ideias e estratégias”.

A atriz diz que quando a personagem passar a ter mais recursos, acredita em mais ação de Adriana com a cabeça: “A parte do coração ela consegue desaguar na família. É uma personagem que tem esse apoio, essa estrutura familiar, e isso canaliza bastante o emocional. A relação com Pedro também. Acho que, quando conseguir viver esse amor, essa parte passional vai encontrar um destino interessante, e ela terá esse suporte afetivo para focar mais na estratégia”.

O amor continua resistindo

Mesmo cercada pela dor, Adriana nunca abandona completamente sua capacidade de amar e Leticia acredita ser este um dos aspectos mais bonitos da personagem: “Acho totalmente possível ela se abrir para o amor e não pensar somente em se vingar. Ela nunca vai abrir mão do mundo da emoção. Adriana tem amor dentro dela muito forte e a gente vê que ele resiste apesar das injustiças e do desejo de vingança. Acho que o amor é tão forte quanto o desejo de vingança dela”.

Essa dimensão afetiva também aparece na relação construída ao lado de Pedro, personagem de Chay Suede.

Quando o silêncio também faz parte da dramaturgia

Grande parte da força do casal nasce muito mais dos olhares do que das palavras e a atriz nomina uma responsável direta por essa linguagem mais sensível: “Existe uma pessoa fundamental para esse casal ter essa potência que é a Nathalia Ribas, uma das diretoras da novela que faz todas as cenas de Pedro e Adriana. Ela traz todo esse universo das palavras invisíveis, das coisas que acontecem no olhar. É uma direção sensível, muito criativa e isso vai de encontro com uma direção que tenta se reconectar com uma dramaturgia mais sutil, onde nem tudo precisa ser dito e literal”.

Liberdade também é um tema da novela

Outra história que emociona Leticia é a relação entre Adriana e o irmão Mau Mau, personagem de João Victor Gonçalves. Para ela, a história ultrapassa o drama familiar e se transforma numa defesa da liberdade: “A gente sonha com a possibilidade de dissolver o preconceito e o domínio que as pessoas querem exercer dos corpos e do desejo de outras pessoas. Isso é muito nocivo e fere a liberdade. A novela fala de liberdade e precisamos ver afetos assim. É muito lindo este espaço de afeto entre os irmãos, eles têm um porto seguro um no outro e gostei bastante do Walcyr e da Claudia terem colocado esta história e muito mais por me darem a oportunidade de contar ela”.

O corpo também sente o peso da protagonista

Interpretar Adriana exige enorme entrega emocional. Ao longo de mais de duas décadas de carreira, Letícia desenvolveu técnicas para acessar sentimentos intensos em cena, mas reconhece que existe uma dimensão do trabalho que vai além da preparação profissional: “Claro que tem técnica. Trabalho desde os oito anos e, ao longo desse tempo, fui aperfeiçoando as formas de acessar essas emoções. Mas existe uma parte do trabalho que também é uma oferenda, faz parte da minha missão, daquilo que amo fazer”.

Essa entrega, no entanto, também tem um custo. Por isso, a atriz faz questão de cultivar uma rede de apoio e práticas que a ajudam a reencontrar o equilíbrio fora do estúdio: “Existe um custo emocional, não tem jeito. Eu me cuido, minha família está muito próxima de mim, meu marido e meu filho. Faço meditação, yoga, e essas coisas ajudam a dissipar essas emoções mais densas”.

Personagens nunca vão embora completamente

Ao longo da carreira, Letícia construiu mulheres muito diferentes entre si, como a vilã Vanessa, de Todas as Flores, e Zélia, de Garota do Momento, que também era uma personagem movida pela vingança. Embora só recentemente tenha percebido a aproximação entre Zélia e Adriana, ela acredita que todo personagem amplia sua percepção do mundo: “Cada personagem é como uma viagem e isso fica na gente sim, como aprendizado, como expansão de mundo, de consciência. É muito rico cada mergulho”.

A maratona de uma protagonista

Além da intensidade emocional, Adriana representa outro desafio que é permanecer viva durante mais de duzentos capítulos: “Essa é a jornada mais longa que vivo dentro de uma personagem. É uma novela que iniciamos a preparação em janeiro deste ano e vamos seguir até janeiro do próximo. Esse fôlego de maratona é o grande desafio de manter essa conexão com a personagem e sendo levada pelos rumos que os autores dão pra gente”.

Atuar é viver antes de julgar

Ao ser questionada sobre possíveis discordâncias em relação às escolhas da protagonista, Leticia resume aquilo que considera essencial no trabalho de um ator: viver o personagem antes de julgá-lo.

“Minha relação com os personagens é muito direta. Eu sinto raiva, emoção, desconfiança. É relação muito humana e não me afasto de nenhuma dessas sensações. Acho importante sentir tudo isso e, depois, mergulhar nos sentimentos que a personagem precisa viver. É isso que torna a experiência de atuar completa. Eu quero a experiência completa”.

Ao longo da entrevista, Leticia retorna diversas vezes às mesmas ideias: cuidado, justiça, liberdade, afeto e humanidade. É por isso que Adriana nunca parece movida apenas pelo desejo de vingança. Antes de buscar qualquer acerto de contas, ela continua sendo uma mulher que insiste em acreditar no amor mesmo quando a vida lhe impõe sucessivas perdas. 

Essa é a grande força da protagonista construída por Walcyr Carrasco e Claudia Souto e interpretada por Leticia: lembrar que a justiça pode mover uma história, mas é a humanidade que sustenta um personagem e ajuda ele a completar seu arco dramático.

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