Ingrid Gaigher convida o público a atravessar o espelho em Narciso – O Cabaré

Em entrevista ao Pittaplay, Ingrid Gaigher fala sobre Narciso – O Cabaré, espetáculo que usa humor, música e mitologia para discutir algoritmos, autoestima, envelhecimento e a construção da identidade na sociedade contemporânea.

Foto: Brunu Marchetti

O mito de Narciso é uma das histórias que atravessam séculos porque nunca deixam de falar sobre o presente. Durante muito tempo, ele foi reduzido à imagem do homem apaixonado pelo próprio reflexo. Mas, em Narciso – O Cabaré, espetáculo em cartaz no Teatro Gláucio Gill, no Rio de Janeiro, essa narrativa ganha novos significados ao dialogar com um mundo dominado pelas redes sociais, pelos algoritmos e pela necessidade constante de validação.

Em entrevista ao Pittaplay, a atriz Ingrid Gaigher explica que o espetáculo dirigido por Gilberto Gawronski utiliza humor, música, poesia e referências à cultura pop para provocar uma reflexão muito maior do que a aparência. Para ela, a história de Narciso continua atual justamente porque convida o público a olhar para aquilo que existe além do próprio espelho.

“O algoritmo entrega exatamente aquilo que você já consome, aquilo que você já é para você mesmo. Você vai se retroalimentando em ideias e pensamentos que reafirmam aquilo que já acredita. Isso cria uma sensação de que você está sempre certo e talvez não tenha mais o que aprender com a alteridade. A arte faz justamente o contrário. Ela atravessa os séculos porque continua sendo um espelho da sociedade, mas um espelho construído pela ótica do outro, e não de si mesmo.”

Em Narciso – O Cabaré, Ingrid Gaigher transforma um mito milenar em uma reflexão contemporânea sobre identidade, autoestima e a forma como nos relacionamos com o mundo.

Foto: Divulgação
Em Narciso – O Cabaré, Ingrid Gaigher transforma um mito milenar em uma reflexão contemporânea sobre identidade, autoestima e a forma como nos relacionamos com o mundo. Foto: Brunu Marchetti

Segundo a atriz, é justamente essa capacidade de provocar deslocamentos que torna o espetáculo tão contemporâneo. Enquanto a lógica das redes sociais incentiva cada pessoa a consumir uma versão ampliada de si mesma, o teatro propõe o exercício oposto: enxergar o mundo por perspectivas diferentes.

Essa reflexão, no entanto, não acontece de maneira pesada. O espetáculo escolhe o cabaré como linguagem e transforma a crítica em entretenimento. Ingrid acredita que o humor é um dos caminhos mais inteligentes para fazer o público pensar sem perder o encanto da experiência teatral.

“Muitas vezes o riso nasce do desconforto ou do absurdo. O humor inteligente ri de si mesmo. O cabaré aponta o dedo para si, assim como o palhaço faz. O público se identifica, ri e, ao mesmo tempo, reflete. A gente construiu uma dinâmica emocional que alterna momentos mais leves e outros mais profundos, mas sempre pelo viés da reflexão.”

Misturando humor, música, poesia e cultura pop, Narciso – O Cabaré convida o público a rir, se reconhecer e questionar o próprio reflexo.

Foto: Divulgação
Misturando humor, música, poesia e cultura pop, Narciso – O Cabaré convida o público a rir, se reconhecer e questionar o próprio reflexo.
Foto: Brunu Marchetti.

Entre todas as cenas da montagem, existe uma que toca a atriz de maneira especial. É A Ditadura da Beleza, sequência que aborda o envelhecimento feminino e a pressão estética imposta às mulheres.

“Essa cena fala de uma mulher de cinquenta anos sendo condenada simplesmente por estar velha. Isso me toca muito porque nós, mulheres, parecemos culpadas por envelhecer. Existe uma indústria que vive desse medo e cria a sensação de que precisamos adiar o tempo o máximo possível. O texto consegue equilibrar essa reflexão com humor e deboche, mas sem perder a força da mensagem.”

O mergulho nesse universo também transformou a relação da própria Ingrid com as redes sociais. Ela conta que passou a perceber comportamentos que antes pareciam naturais, mas que hoje enxerga sob outra perspectiva.

“Outro dia eu estava gravando um vídeo e pensei: ‘gente, estou sendo super narcisista’. A gente naturalizou fazer marketing de nós mesmos o tempo inteiro. Todo mundo está performando uma versão idealizada de si. Participar desse espetáculo me fez observar muito mais esses comportamentos e perceber o quanto eles já fazem parte da nossa rotina.”

Ao longo da conversa, fica evidente que Narciso – O Cabaré não pretende condenar as redes sociais nem oferecer respostas prontas. O espetáculo convida o público a reconhecer as próprias contradições, rir delas e compreender que a construção da identidade passa, necessariamente, pelo encontro com o outro.

Se pudesse escolher apenas uma reflexão para acompanhar o espectador depois que as cortinas se fecham, Ingrid não hesita: “Gostaria que as pessoas saíssem gostando mais de si mesmas e querendo performar menos para o outro e para elas mesmas também. Que fossem mais curiosas com a vida, com o outro e com o mundo. Viver é ensaiar, errar, acertar e aprender. Não existe uma forma única de ser.”

Inspirado em um mito escrito há milhares de anos, o espetáculo não pergunta apenas quem somos quando nos olhamos no espelho. Pergunta, sobretudo, o que deixamos de enxergar quando passamos tempo demais olhando apenas para nós mesmos.

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