Hugo Bonemer encontra em Feliz Ano Velho uma história sobre quem somos quando nossos planos deixam de existir

Hugo Bonemer fala ao Pittaplay sobre viver Marcelo Rubens Paiva em Feliz Ano Velho e reflete sobre deficiência, desejo, luto, identidade e recomeços.

Foto: Marcelo Auge

Aos 20 anos, Marcelo Rubens Paiva tinha uma vida pela frente que imaginava de determinada maneira. O acidente que o deixou tetraplégico alterou sua relação com o corpo, mas também interrompeu abruptamente aquele futuro. Mais de quatro décadas depois da publicação de Feliz Ano Velho, é nessa ruptura que Hugo Bonemer procura o jovem que levará ao palco a partir de 19 de setembro, no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo.

Para o ator, deficiência e identidade caminham juntas na história porque Marcelo precisa reconstruir muito mais do que sua rotina. Precisa descobrir quem é depois que aquilo que havia projetado para si deixa de ser possível: “O corpo do Marcelo muda de uma hora pra outra, mas o que realmente desmorona é o projeto de vida que ele tinha na cabeça, então inventar outro e reaprender a existir no próprio corpo é também descobrir quem essa pessoa é quando o roteiro que ela tinha imaginado deixa de valer. Pra mim, a peça fala mais sobre isso: sobre o que sobra de identidade quando o plano acaba”, afirma Hugo ao Pittaplay.

Com temporada até 22 de novembro, o musical tem direção de Gustavo Barchilon, direção musical de Carlos Bauzys e coreografia de Gabriel Malo.

Encontrar Marcelo sem imitar Marcelo

O próprio Marcelo Rubens Paiva deu a Hugo uma orientação clara: não queria ser imitado. A partir desse pedido, reproduzir sua voz, seus gestos ou buscar uma semelhança física perdeu importância na construção. Hugo passou a observar o funcionamento emocional daquele jovem e encontrou no humor uma das principais portas de entrada.

Para organizar esse percurso, utiliza o Rasabox, sistema que permite mapear intenções emocionais ao longo das cenas. Foi assim que percebeu uma recorrência no comportamento de Marcelo: “Sempre que a raiva ou a tristeza sobem demais, vem humor logo depois, quase como uma válvula de escape automática. É isso que fui atrás de reproduzir, não o gesto ou a voz, mas esse mecanismo por dentro.”

O sarcasmo, a piada de mau gosto e a implicância ganham importância porque impedem que Marcelo seja transformado em uma representação idealizada de alguém que enfrenta uma deficiência. Hugo quer preservar aquilo que também pode torná-lo inconveniente, engraçado ou contraditório.

Um homem inteiro além da ideia de superação

Essa escolha acompanha uma preocupação discutida durante os ensaios: contar a história de uma pessoa com deficiência sem fazer da deficiência um obstáculo narrativo cuja função seria apenas ser vencido.

“Deficiência virar obstáculo a ser vencido tira a complexidade da pessoa. Então a preocupação constante é preservar o desejo, o humor, a raiva, a implicância do Marcelo, tudo que faz dele gente comum, não símbolo de superação. Se ele só existe pra inspirar alguém, a gente perdeu o personagem.”

O desejo sexual ocupa um espaço importante nessa construção. Hugo lembra que um dos grandes objetivos de Marcelo é voltar a transar e utiliza isso como premissa para o trabalho do personagem. O livro termina com Marcelo e Bianca transando sobre um tapete, desfecho que também chega ao palco.

A sexualidade ajuda a devolver ao personagem algo essencial para a leitura proposta por Hugo. Marcelo deseja, sente raiva, faz piada, provoca e quer transar. Sua vida depois do acidente continua sendo formada por vontades que ultrapassam qualquer tentativa de transformá-lo apenas em exemplo.

Duas rupturas atravessam a história de Marcelo

Existe ainda uma ferida anterior ao acidente. Marcelo cresceu em uma família marcada pelo desaparecimento de Rubens Paiva durante a ditadura militar. Para Hugo, a ruptura política vivida pela família e a ruptura física provocada pelo acidente se encontram na formação daquele jovem: “O pai desaparece dentro de uma ditadura que também ‘quebra’ o corpo do país, e pouco depois o próprio Marcelo quebra o corpo dele. Interpretar o filho nesse contexto é carregar as duas rupturas ao mesmo tempo, a política e a física, sabendo que ele foi formado numa casa que já entendia o que era perder algo de um jeito abrupto e sem explicação.”

É nesse ponto que a construção de Marcelo encontra uma experiência pessoal de Hugo. Seu pai morreu durante a pandemia de Covid. O ator o viu ser intubado e, por causa das circunstâncias daquele período, o enterro precisou acontecer com o caixão fechado.

As histórias têm circunstâncias completamente diferentes, mas Hugo encontra um ponto de contato na falta de uma despedida através da presença física de quem morreu. No caso de Marcelo, o desaparecimento do pai impediu até mesmo a realização de um ritual de morte: “Sem corpo, sem velório, sem adeus, é possível que uma pessoa passe a vida toda achando que aquele ente querido ‘ainda está ali’. Foi assim com meu pai durante o Covid. Vi ele ser intubado, e depois nunca mais vi meu pai, porque o enterro teve que ser de caixão fechado.”

A aproximação mais íntima entre ator e personagem aparece, então, em um sentimento que Hugo acredita dividir com Marcelo: “Imagino que querer que o pai tenha orgulho da gente seja algo em comum entre Marcelo e eu.”

“Não é olhar pra trás, é escrever de dentro do buraco”

Feliz Ano Velho também carrega a urgência de ter sido escrito quando Marcelo ainda era muito jovem e continuava tentando compreender a dimensão daquilo que havia acontecido com ele. Para Hugo, essa proximidade entre experiência e escrita interfere diretamente na maneira como o texto chega ao palco: “Memória organizada décadas depois já vem com alguma paz feita, mesmo que dolorosa. Esse livro foi escrito enquanto ainda estava acontecendo, então tem uma urgência que não dá pra fingir em cena. Não é olhar pra trás, é escrever de dentro do buraco.”

Essa percepção ajuda a explicar o Marcelo que Hugo procura construir. A raiva, o desejo, o humor e as contradições pertencem a alguém que ainda está vivendo as consequências daquela transformação enquanto tenta encontrar palavras para narrá-la.

Um corpo que fez Hugo olhar para outros corpos

Interpretar Marcelo também levou Hugo a prestar atenção em movimentos que seu próprio corpo realiza diariamente sem exigir qualquer reflexão. Levantar, pegar um copo, virar de lado na cama e transar passaram a adquirir outro significado durante o processo.

A pesquisa também provocou uma mudança na maneira como o ator percebia sua própria relação com pessoas com deficiência: “Acho que confundia respeito com distância. E elas precisam estar mais presentes no nosso cotidiano, nos palcos, nos consultórios, nos escritórios e nos afetos.”

Hugo relaciona essa percepção ao envelhecimento e às transformações que qualquer corpo pode enfrentar ao longo da vida. A reflexão ganhou ainda uma dimensão familiar recente com a morte de sua avó Celeste, que, já idosa, precisava de ajuda para andar, se alimentar e realizar atividades cotidianas.

O trabalho com Feliz Ano Velho, segundo ele, ampliou sua sensibilidade diante da perda parcial ou total de capacidades e da presença das pessoas com deficiência nos diferentes espaços da sociedade.

Recomeçar continua sendo uma experiência de qualquer geração

O Marcelo que escreveu Feliz Ano Velho pertence aos anos 1980, mas Hugo acredita que um espectador de 20 anos em 2026 ainda poderá se reconhecer naquele jovem. As circunstâncias mudam, assim como os motivos capazes de interromper um projeto de vida. A sensação de ver o futuro imaginado desaparecer continua compreensível: “Acho que o jovem de 2026 vai reconhecer a raiva de ter um plano de vida interrompido, isso não muda com década nenhuma. Só muda o motivo.”

É também por isso que a montagem encontra seu presente sem precisar retirar Marcelo do tempo em que sua história aconteceu. O jovem que precisou reconstruir a relação com o corpo continua falando com quem descobre que crescer envolve lidar com planos que fracassam, caminhos que desaparecem e futuros que precisam ser inventados novamente: “E sinto informar aos jovens, mas é comum a gente precisar recomeçar a vida várias vezes.”

Em Feliz Ano Velho, Hugo Bonemer encontra Marcelo Rubens Paiva nesse espaço entre aquilo que acabou e o que ainda pode começar. O acidente muda seu corpo e desmonta o futuro que ele conhecia, mas a vida continua acontecendo com humor, desejo, raiva, sexo, saudade e contradições. Recomeçar, nesse caso, passa por descobrir quem permanece quando o roteiro que parecia escrito já não serve mais.

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